Legenda: O painel “Pessoas, Talento e Oportunidades” contou com a participação de David Pinelas Pinto, diretor de Pessoas e Organização da Medialivre; Joana Silva, deputy chief economist – people do World Bank Group e professora associada com agregação na Católica-Lisbon SBE; e Pedro Morais Soares, vereador da Câmara Municipal de Cascais, com moderação de Marta Dhanis.
“A inteligência artificial já está a trazer uma transformação estrutural às economias. Claramente, vai definir a procura de emprego e as competências necessárias em 2036”, declarou Joana Silva, deputy chief economist – people do Banco Mundial e professora na Católica-Lisbon SBE, no Cascais Summit, um evento organizado pela Associação Empresarial do Concelho de Cascais (AECC). Considerou que “o grande problema da Europa tem sido não tanto a absorção da inteligência artificial, mas a transformação em produtividade”.
Uma investigação académica recente mostrou que um mesmo investimento em tecnologias, numa empresa americana na Europa e numa empresa europeia, teve uma conversão em produtividade muito maior na americana, por uma questão organizacional. Joana Silva concluiu que “muitas vezes pensamos nas pessoas, que são muito importantes e a maior riqueza, e depois falhamos na organização, na parte de gestão”. Na sua opinião, “se fizermos as alterações na organização e se investirmos nas pessoas, vamos conseguir transformar em produtividade e ter uma economia que produz mais empregos”.
David Pinelas Pinto, diretor de Pessoas e Organização da Medialivre, concorda que, “com a chegada cada vez mais célere das soluções de inteligência artificial, as competências técnicas perderam peso no recrutamento”. Para manter o critério humano, é preciso regressar a competências básicas, como “o rigor, o sentido crítico, a capacidade de comunicação e persuasão e a capacidade de reaprender todos os dias”. Acrescenta que, para as organizações avançarem, “temos de, no nosso dia a dia, conseguir o alinhamento entre todos, para que o que está escrito num PowerPoint brilhante e mapeado num Excel fabuloso passe à prática”, resumiu David Pinelas Pinto.
A habitação na retenção de talento
“O município tem um papel importante no sentido de tentar aproximar as empresas, as escolas e as instituições de ensino”, disse Pedro Morais Soares, vereador da Câmara Municipal de Cascais. Defendeu que o município deve criar a rede e fomentar esta ligação entre as empresas e o ensino, numa aproximação entre “pessoas, talentos e oportunidades”. Destacou que está a ser elaborada uma carta educativa que dará orientações de futuro sobre as necessidades do mercado de trabalho em Cascais, a Cidade das Profissões, com mais de 110 atores, como as principais empresas empregadoras, o setor social e o setor da saúde, e, ainda, um futuro observatório para a empregabilidade, além de cursos profissionais, como mecatrónica e aeronáutica.
Para Pedro Morais Soares, o grande desafio no concelho é a habitação. O município entregou 250 habitações no primeiro ano de mandato e ambiciona “4 mil soluções de habitação em 3 anos”. Somam-se os transportes públicos gratuitos e um investimento de 100 milhões de euros em escolas, que só fará sentido se não for “formação gratuita” para os jovens saírem do concelho.
Na experiência da Medialivre, segundo David Pinelas Pinto, mais de metade dos 150 a 200 estagiários dos últimos três anos dizia que só lhes faltava “encontrar uma casa” e ultrapassar as dificuldades de mobilidade. “Já perdemos talento porque as pessoas não tinham capacidade para encontrar um sítio para viver ou para se deslocarem.” Mas o salário não explica tudo porque “as pessoas ficam onde são felizes, onde se realizam, onde são bem tratadas e onde são reconhecidas”. Joana Silva reconheceu que o salário ancora tudo o resto, mas sublinhou que a habitação não é o único problema: também contam a qualidade dos serviços públicos e o dinamismo económico. Quanto às empresas familiares, a sucessão deve ser “uma sucessão que também se adapta” e “que queira crescer”.