Num tempo em que muitas empresas ainda tratam o ESG como uma extensão reputacional do negócio, a Deloitte tenta colocar o tema noutro plano. O Global Impact Report 2025 apresenta uma organização com 473.050 profissionais, 97.390 novas contratações e uma receita global de 70,5 mil milhões de dólares, mas insiste em dar igual peso à governação, ao impacto social e à transição climática. A mensagem é simples. Crescer não chega. É preciso medir, assumir metas e prestar contas.
É essa a leitura que Afonso Arnaldo, partner, corporate responsibility & sustainability leader da Deloitte Portugal, faz do relatório deste ano. “A mensagem é de continuidade naquilo que tem sido o trajeto da Deloitte nestas várias áreas, com o crescimento da empresa, mas simultaneamente com uma manutenção e até maior ambição comunicada em alguns dos seus objetivos sociais e ambientais”, afirma. Para o responsável, o relatório não traduz uma mudança de rumo, mas um reforço de ambição, agora exposto de forma mais clara.
A principal novidade está na frente climática. A Deloitte fixou uma meta global de net zero até 2040, validada pela Science Based Targets initiative, comprometendo-se com uma redução de 90% das emissões de gases com efeito de estufa face a 2019 e com a remoção permanente das emissões remanescentes. Mantém, ao mesmo tempo, os objetivos intermédios para 2030, entre os quais a redução de 70% das emissões dos âmbitos 1 e 2, a diminuição de 55% das emissões de viagens de negócios por trabalhador equivalente a tempo inteiro, a utilização de 100% de eletricidade renovável e a eletrificação total da frota.
No exercício de 2025, a Deloitte reporta já 95% de consumo de eletricidade renovável, 50% de veículos elétricos, uma redução de 65% nas emissões dos âmbitos 1 e 2 e uma redução de 53% nas emissões de viagens por trabalhador. Já no envolvimento da cadeia de fornecimento, o progresso ficou abaixo da meta, com 32% dos fornecedores abrangidos por emissões a terem metas baseadas na ciência, quando o objetivo era de 67%.
“A grande mudança a nível ambiental é o tema de 2040”, resume Afonso Arnaldo. “Tínhamos os nossos objetivos para 2030, que mantemos, mas acrescentámos agora o net zero até 2040.” Num momento em que o escrutínio sobre metas climáticas aumentou, a Deloitte procura mostrar que não está apenas a comunicar intenção. Quer enquadrar a operação numa trajetória mensurável.
O relatório tenta também demonstrar que o ESG, no caso da Deloitte, não se limita à gestão interna. Está no tipo de trabalho que presta aos clientes, no apoio a respostas regulatórias, na revisão de cadeias de abastecimento, em modelos de circularidade, na transição energética e na integração entre inteligência artificial e sustentabilidade. A firma sublinha ainda que está a usar tecnologia avançada e IA generativa para transformar operações, embora reconheça que essa aceleração tecnológica traz novas pressões sobre a própria pegada ambiental.
A mensagem de fundo é que o ESG não surge como um exercício paralelo, mas como parte da estratégia, da oferta e da governação da Deloitte. O relatório insiste no peso da ética, da integridade e da supervisão interna, com estruturas de governo globais e uma lógica de acompanhamento permanente dos temas materiais.
Vidas impactadas
Mas é na componente social que Portugal ganha maior visibilidade. A nível global, a Deloitte reporta 434 milhões de dólares de investimento social e 2,4 milhões de horas de voluntariado e pro bono. O programa WorldClass, centrado em educação e competências, chegou em 2025 aos 101 milhões de pessoas impactadas, cinco anos antes da meta inicialmente definida. A organização assumiu ainda o compromisso de investir mais de 3 mil milhões de dólares em dez anos, entre 2023 e 2032, para reforçar comunidades locais e responder a desafios sistémicos.
Em Portugal, essa leitura faz-se sobretudo através do PACT Fund, embora não se esgote aí. Segundo Afonso Arnaldo, o programa resume bem o tipo de impacto que a Deloitte quer gerar, em áreas como educação, empregabilidade, empreendedorismo e, mais recentemente, capacitação em sustentabilidade ambiental. A isso juntam-se projetos pro bono, ações de voluntariado e programas de formação com instituições de ensino superior.
Ainda assim, o partner da Deloitte Portugal insiste que o critério não está apenas na soma dos números. “O conhecimento continua a ser o nosso principal valor e, portanto, a nossa intervenção tem de ser muito na passagem também de conhecimento”, afirma. Numa empresa intensiva em capital humano, o impacto social tende a acontecer menos pela transferência financeira e mais pela mobilização de competências.
É por isso que valoriza sobretudo a proximidade. “Mesmo nas situações em que existe uma entrega de dinheiro, procuramos ter uma intervenção de proximidade”, diz Afonso Arnaldo. “O impacto não pode ser só passar um cheque.” É por este motivo que “a Deloitte acompanha projetos, define metas, liberta financiamento em função da execução e mantém contacto com as entidades no terreno.” Mais do que financiar, importa perceber se a mudança aconteceu e com que escala.
Uma nota de orgulho para Portugal no WorldClass
Há um ponto em que a operação portuguesa ganha visibilidade para lá da sua escala doméstica. O Global Impact Report 2025 destaca o PACT Fund português através de um projeto em Benguela, Angola, ligado à expansão de uma escola apoiada por uma paróquia local liderada pelo padre Abel. A iniciativa já existia no terreno, mas o apoio da Deloitte permitiu construir nove novas salas de aula e mais do que duplicar a capacidade da escola.
Para Afonso Arnaldo, esse reconhecimento teve um significado especial, não apenas por surgir num relatório global, mas porque deu visibilidade a um projeto com rosto, contexto e impacto concreto. “Uma nota de orgulho é o relatório ter mencionado o PACT Fund como um dos programas do WorldClass implementados a nível global”, refere. Mas faz questão de sublinhar que o essencial não está na distinção. Está naquilo que ela representa. Mais crianças e jovens com acesso a um espaço onde podem aprender.
O caso de Benguela ajuda também a perceber a forma como a Deloitte olha para o impacto social. O financiamento partiu de Portugal, mas o centro do projeto esteve sempre no terreno. Afonso Arnaldo insiste que o mérito pertence sobretudo ao padre Abel e à equipa que acompanha diariamente aquela comunidade, conhece as necessidades e vai resolvendo os problemas à medida que surgem. O papel da Deloitte foi financiar, acompanhar e manter-se disponível para ajustar o apoio sempre que a realidade o exigiu.
E a realidade exigiu mesmo ajustes. A certa altura, o aumento do custo dos materiais fez com que o valor inicialmente previsto deixasse de ser suficiente. Foi preciso reforçar o financiamento para que a obra pudesse continuar. Noutro momento, quando começaram a chegar as primeiras fotografias das salas já construídas, surgiu um detalhe que mudou o olhar sobre o projeto. “As crianças estavam sentadas apenas em cadeiras, a escrever ao colo, sem secretárias. As salas existiam, mas faltava ainda uma parte essencial para que aquele espaço funcionasse verdadeiramente como escola”, explica Afonso Arnaldo.
A resposta veio de forma simples e imediata. Os sócios da Deloitte Portugal foram mobilizados para financiar o mobiliário em falta e, segundo o nosso inteclocutor, não houve um único partner que não tivesse aderido. As secretárias acabaram por ser produzidas com apoio da Casa do Gaiato, em Luanda, e seguiram depois para Benguela. O episódio vale quase como síntese da filosofia que a Deloitte procura associar ao impacto. Não basta cumprir o desenho inicial do projeto. É preciso olhar para o que falta, perceber o que está realmente a acontecer e responder até que a mudança faça sentido na vida concreta das pessoas.
É também por isso que Afonso Arnaldo considera que este modelo pode ser replicado, desde que exista quem esteja no terreno com capacidade de execução e compromisso diário. Financiar é a parte mais simples. O mais difícil é fazer acontecer. E, nesse ponto, diz, o exemplo de Benguela mostra bem que o impacto só se torna real quando encontra pessoas capazes de o transformar em obra, em acompanhamento e em presença.
Bom desempenho ambiental
Se a área social oferece histórias mais visíveis, a componente ambiental será provavelmente a mais escrutinada. No FY2025 Global Environmental Performance Summary, sujeito a garantia limitada independente da BDO, a Deloitte reporta emissões totais brutas de 1.760.811 toneladas de CO2 equivalente, das quais 30.428 no âmbito 1, 13.197 no âmbito 2 e 1.717.186 no âmbito 3.
Para uma empresa de serviços, o maior desafio está no âmbito 3, em especial nas deslocações, na cadeia de valor e nas emissões menos controláveis de forma direta. Este ponto afasta uma leitura triunfalista do relatório. A Deloitte mostra progresso, mas Afonso Arnaldo admite a existência de áreas em que o caminho continua a ser mais lento e mais dependente de terceiros.
A explicação é pragmática. “Nos âmbitos 1 e 2, a Deloitte consegue agir com maior autonomia, seja na energia que compra, seja nas decisões sobre frota ou edifícios. No âmbito 3, entra num terreno em que depende da maturidade da oferta, da evolução tecnológica e da colaboração com fornecedores e mercados”.
Depois da tempestade, o apoio às populações
A Deloitte Portugal procurou responder à catástrofe que atingiu o Centro do país. Nas semanas seguintes, a empresa fez um donativo à Cruz Vermelha, mobilizou voluntários sempre que foi chamada, instalou uma antena num veículo da Cáritas para assegurar comunicações em zonas afetadas e começou a estruturar formas de apoio pro bono a micro e pequenas empresas atingidas. Uma demonstração da capacidade de reação quando o impacto deixa de ser conceito e passa a ser uma urgência concreta.
No fim, o Global Impact Report 2025 vale menos pela retórica do que pela tentativa de demonstrar consistência. A Deloitte mostra ao mercado que continua a crescer, que está a investir fortemente em tecnologia e inteligência artificial, que reforçou a sua ambição climática e que pretende manter a educação e a capacitação no centro da sua agenda social. Portugal entra nesse quadro não apenas como geografia de execução, mas como exemplo de uma prática que também chega ao relatório global.
Afonso Arnaldo resume essa ambição numa formulação simples, mas exigente. “O impacto tem de ser real, acompanhado e verificável”. Num momento em que o ESG enfrenta mais exigência, mais ceticismo e menos tolerância para fórmulas vazias, essa poderá ser a melhor síntese do relatório da Deloitte. Não basta dizer que se quer fazer a diferença. É preciso mostrar onde, como e com que resultados.