pixel

Negócios: Cotações, Mercados, Economia, Empresas

C-Studio

C•Studio é a marca que representa a área de Conteúdos Patrocinados do universo Medialivre.
Aqui as marcas podem contar as suas histórias e experiências.

Produzir não chega: o novo mapa da competitividade agroalimentar

Produzir já não garante competitividade. No setor agroalimentar português, a diferença faz-se cada vez mais ao longo da cadeia, da escolha da semente à presença no linear dos supermercados, e a resposta a custos crescentes, exigência regulatória e consumidores mais exigentes passa por eficiência, integração e diferenciação.

14:43
Getty

A agricultura portuguesa entra numa nova fase de exigência. Produzir continua a ser o ponto de partida, mas já não garante competitividade. Num contexto marcado por custos elevados, pressão internacional e maior exigência do mercado, o setor é chamado a responder com mais eficiência, maior integração e capacidade de diferenciação.

Os sinais dessa mudança são claros. Por um lado, a estrutura produtiva enfrenta constrangimentos conhecidos. Por outro, a cadeia de valor mantém a sua reorganização para manter uma maior proximidade ao mercado e uma crescente valorização de atributos como qualidade, origem e sustentabilidade.

Para Luís Mira, secretário-geral da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), a evolução é evidente, mas os limites também. “O setor agrícola está sem dúvida mais competitivo”, afirma, apontando o investimento em inovação e novas tecnologias como um dos fatores determinantes. Ainda assim, sublinha que persistem fragilidades estruturais que condicionam essa evolução.

Entre essas fragilidades estão os custos de contexto. “As dificuldades no acesso à mão de obra, a pesada carga fiscal e uma administração pública pouco eficaz na aplicação célere dos fundos comunitários penalizam particularmente os produtores nacionais”, refere, comparando com mercados concorrentes como Espanha ou França.

A pressão não é uniforme, mas atravessa toda a cadeia. Energia, fertilizantes e água continuam a pesar nos custos de produção, num cenário em que os apoios públicos não são equivalentes entre países. “Os apoios dados por alguns países, como Espanha, são em muitos casos substancialmente superiores, o que afeta a competitividade dos nossos produtores”, acrescenta.

A questão da água é um desafio que ultrapassa o setor: exige resposta de política pública e investimento em infraestruturas hídricas. A mão de obra imigrante, que representa já 53% dos trabalhadores agrícolas, segundo dados da CAP, é outro fator de vulnerabilidade estrutural.

É difícil Portugal diferenciar-se pela quantidade, mas tem uma clara vantagem na qualidade, autenticidade e valor acrescentado Ondina Afonso, presidente do Clube de Produtores Continente e diretora de Qualidade e Investigação na MC.

Mais do que produzir, é preciso criar valor

Se o diagnóstico do lado da produção é conhecido, a resposta está cada vez mais na forma como o setor se organiza ao longo da cadeia. Ondina Afonso, presidente do Clube de Produtores Continente e diretora de Qualidade e Investigação na MC, sublinha que a competitividade não pode ser analisada apenas na origem. “É essencial apostar no aumento sustentado da produtividade e, sobretudo, na integração de processos de transformação ao longo da cadeia, permitindo maior eficiência, redução de desperdícios e melhor criação de valor.”

O Clube de Produtores Continente, criado há mais de 25 anos, tem vindo a assumir um papel ativo na modernização do setor, com iniciativas que vão da capacitação técnica à gestão de risco. “O objetivo é apoiar os produtores na modernização dos seus modelos produtivos, tornando-os mais competitivos, resilientes e preparados para o futuro”, explica.

Esta abordagem assenta numa lógica de partilha de investimento, conhecimento e risco. Sustentabilidade e qualidade deixam de ser apenas um custo e passam a integrar a equação económica. “Quando bem integradas, tornam-se fatores de eficiência e de competitividade económica”, afirma.

Ainda assim, o equilíbrio não é automático. Luís Mira reconhece que ainda existem assimetrias na relação entre produção e distribuição. “Admitindo um maior poder negocial por parte dos distribuidores”, sublinha a importância de parcerias de médio e longo prazo para garantir condições de rentabilidade e sustentabilidade para ambas as partes.

Diferenciação começa na operação

A competitividade constrói-se também na capacidade de controlar a cadeia e capturar valor ao longo do processo. É esse o modelo seguido por operadores como a PROSA, especializada em quivi, que integram produção, conservação e comercialização.

“Conhecer e controlar a produção desde o campo até ao cliente permite oferecer um produto de qualidade mais homogénea e reduzir a dependência de intermediários”, explica Martinha Vieira, coordenadora do departamento agrícola da empresa.

A capacidade de conservação é um dos fatores críticos. “A capacidade instalada permite disponibilizar fruta de qualidade ao longo de pelo menos oito meses de campanha, aproveitando as melhores oportunidades de valorização”, refere, sublinhando a importância de alinhar produção e mercado.

O modelo assenta também numa rede de produtores, suportada por acompanhamento técnico próximo e partilha de conhecimento, numa tentativa de garantir consistência de qualidade e escala, como acontece através do Clube de Produtores Continente. Ainda assim, a pressão mantém-se. “Existe pressão devido a custos crescentes de fatores de produção e à concorrência internacional”, admite.

As dificuldades no acesso à mão de obra, a pesada carga fiscal e uma administração pública pouco eficaz na aplicação célere dos fundos comunitários penalizam particularmente os produtores nacionais Luís Mira, secretário-geral da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP).

Entre preço e valor

Num mercado global, a questão da escala continua a marcar a posição portuguesa. Em alguns setores, como o tomate de indústria, o azeite ou a cortiça, o país consegue competir em volume. Mas, de forma geral, a estratégia passa por posicionamento.

“A nossa agricultura é específica, de cariz mediterrânico, com produtos de qualidade reconhecida, pelo que a diferenciação será sempre uma estratégia muito importante”, afirma Luís Mira.

Essa posição depende da capacidade do mercado para a reconhecer. No que ao consumidor diz respeito, persistem sinais contraditórios. “Há consumidores cada vez mais preocupados com a origem e o modo de produção, mas muitos continuam condicionados pelo preço”, refere Martinha Vieira.

Ondina Afonso reforça essa leitura: “É difícil Portugal diferenciar-se pela quantidade, mas tem uma clara vantagem na qualidade, autenticidade e valor acrescentado”, afirmando a necessidade de maior eficiência nos processos de exportação e apoio à internacionalização.

Getty

Sustentabilidade e inovação: custo ou vantagem?

A sustentabilidade deixou de ser um tema periférico e passou a integrar o centro da estratégia e da competitividade. No caso do Clube de Produtores Continente, a agricultura regenerativa já tem escala em várias fileiras de frutos e legumes, com início há cerca de cinco anos. “É um processo exigente, que implica mudanças profundas de práticas, processos e mentalidades”, sublinha Ondina Afonso.

Também no terreno essa transição está em curso. Na PROSA, as explorações próprias já seguem modelos de agricultura regenerativa e produção sem resíduos, com extensão gradual aos produtores parceiros. A questão permanece económica. A produção sustentável implica custos iniciais mais elevados, ainda que com ganhos posteriores de eficiência, nomeadamente na utilização de água e fertilizantes. Esses custos continuam, em grande medida, do lado do produtor, e o mercado ainda não consegue absorvê-los integralmente.

Do lado do consumidor, o sinal é misto. Existe um segmento crescente que valoriza práticas sustentáveis, mas o preço continua a ser um fator determinante. A distância entre intenção e decisão tem respaldo científico: o , promovido pela Associação Portuguesa de Nutrição com apoio do Continente, concluiu que o principal obstáculo não é a falta de informação, mas a dificuldade em traduzi-la em comportamentos concretos. O score médio de literacia alimentar entre adultos portugueses fica-se pelos 57,5%.

A inovação surge, neste contexto, como fator crítico. A digitalização, a inteligência artificial e as ferramentas de apoio à decisão estão a ganhar espaço em toda a cadeia. “Quem conseguir transformar dados em ação, com rapidez e visão estratégica, reforçará a sua competitividade”, afirma Ondina Afonso.

Há consumidores cada vez mais preocupados com a origem e o modo de produção, mas muitos continuam condicionados pelo preço Martinha Vieira, coordenadora do departamento agrícola da PROSA.

A PAC ajudou, mas o terreno exige mais

A competitividade do setor não depende apenas das empresas. O enquadramento político e regulatório continua a ser determinante. A Política Agrícola Comum tem tido um impacto positivo ao longo das últimas décadas, permitindo ganhos de produtividade e modernização.

Ainda assim, persistem desafios na sua aplicação. “Verifica-se algum desfasamento entre o que Bruxelas exige e aquilo que o terreno permite executar”, afirma Luís Mira, referindo a aplicação do Green Deal como exemplo dessa tensão.

Para o responsável da CAP, o salto de competitividade depende de medidas concretas: redução de custos de contexto, investimento em infraestruturas hídricas e reforço da promoção internacional.

O que vai separar os que crescem dos que ficam para trás

A agricultura portuguesa dificilmente conseguirá competir em preço com os grandes produtores internacionais. A diferença joga-se noutro plano. Entre eficiência produtiva, integração da cadeia, inovação e posicionamento, o setor está a redefinir o seu lugar. A questão deixa de ser apenas quanto se produz e passa a ser como se produz, como se transforma e como se chega ao mercado.

Nos próximos anos, a diferença fará quem conseguir transformar dados em ação. “Quem conseguir fazê-lo com rapidez e visão estratégica reforçará a sua competitividade”, afirma Ondina Afonso. Num contexto de maior exigência e volatilidade, a competitividade constrói-se em várias frentes, e será essa capacidade de adaptação que determinará quem ganha terreno nos próximos anos.

Mais notícias