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O futuro da saúde digital debate-se em Lisboa

Entre a pressão sobre os hospitais e a escassez de profissionais, a líder de mercado ibérico UpHill Summit coloca a inteligência artificial no centro da transformação dos cuidados de saúde.

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Mesa redonda Summit Lisbon 2025
Mesa redonda Summit Lisbon 2025 UpHill

A automação clínica está a acelerar a transformação digital da saúde europeia. Depois de anos marcados por projetos-piloto e experiências limitadas, os hospitais e os sistemas nacionais de saúde começam agora a integrar inteligência artificial diretamente nos fluxos clínicos, em escala real e com impacto real nos hospitais. É nesse contexto que decorre, a 3 de junho, em Lisboa, o , conferência internacional organizada pela e dedicada ao tema “Automação clínica em escala”. O evento reúne especialistas em saúde digital, líderes hospitalares, decisores públicos e representantes tecnológicos nacionais e internacionais para discutir os próximos passos da IA aplicada aos cuidados de saúde. Destaque-se a keynote do professor Pedro Pita Barros, com o título Sustainable Healthcare Systems: Building for Resilience and Long-Term Impact

A conferência acontece numa altura em que os sistemas de saúde enfrentam uma forte pressão sobre os recursos, os tempos de resposta e a capacidade operacional. Da mesma forma, a escassez de profissionais, o aumento da procura e o crescimento da carga administrativa estão a acelerar a procura de soluções capazes de automatizar tarefas clínicas e reorganizar percursos de cuidados.

Para Eduardo Freire Rodrigues, CEO da UpHill, o Summit pretende assumir um papel ativo nessa discussão europeia. “Temos de influenciar, claro. A Europa precisa desta discussão agora. A questão não é se a IA vai entrar nos cuidados de saúde; é como se vai implementar de forma segura, conectada e útil para os doentes”, afirma o especialista. Segundo o mesmo responsável, um dos problemas atuais do setor é a distância entre o entusiasmo gerado pela inteligência artificial e a sua aplicação prática nos hospitais. “Queremos partilhar a nossa experiência na automação clínica em escala e ajudar os hospitais a passar da teoria para a prática. Há demasiado entusiasmo em torno da IA em saúde e poucos resultados práticos em escala: vemos pilotos em todo o lado e transformação real em muito poucos sítios. O Summit existe para mudar essa conversa”, admite Eduardo Freire Rodrigues.

Interoperabilidade é tema central

Fundada em Portugal, a UpHill Health desenvolve tecnologia de automação clínica baseada em inteligência artificial e trabalha atualmente com mais de 550 unidades de saúde em Portugal e Espanha, incluindo hospitais públicos, grupos privados e serviços como o SNS24. A empresa combina algoritmos de decisão clínica com IA conversacional, mantendo as decisões médicas sob supervisão de profissionais de saúde. A empresa destaca ganhos concretos associados à utilização destas soluções, incluindo redução dos tempos de espera hospitalares, automatização de tarefas repetitivas e aumento da capacidade operacional das equipas clínicas. Entre as soluções em destaque está o Hilly AI, ferramenta de inteligência artificial conversacional implementada na linha SNS24 para triagem clínica à escala nacional.

A interoperabilidade entre sistemas de saúde será um dos temas centrais do Summit. Para Eduardo Freire Rodrigues, o grande desafio europeu já não passa apenas pela adoção de inteligência artificial, mas pela capacidade de integrar dados, sistemas e percursos clínicos entre diferentes instituições e geografias. “Portugal foi pioneiro na prescrição eletrónica e nos registos clínicos únicos – decisões que mudaram a vida de milhões de pessoas”, relembra o CEO. Agora, acredita que o país pode voltar a assumir um papel de liderança em IA clínica, “mas só se houver coordenação ibérica e europeia, e integração direta nos sistemas de informação hospitalares.”

Espaço Europeu de Dados em Saúde

A UpHill lidera atualmente o i2x, consórcio europeu com mais de 40 parceiros, focado na ligação de dados de saúde de cerca de três milhões de cidadãos europeus, num projeto alinhado com o desenvolvimento do futuro Espaço Europeu de Dados em Saúde. Além da integração tecnológica, a empresa considera que os próximos anos serão decisivos na definição da regulação europeia para IA clínica. A certificação médica, a proteção de dados e a confiança pública deverão assumir um peso crescente na adoção destas soluções pelos sistemas nacionais de saúde. “A terceira é sobre confiança: literacia digital de profissionais e cidadãos, e uso ético da IA em saúde. Sem isto, nada do resto avança. A tecnologia certificada existe, os resultados existem, falta agora um debate público maduro sobre como esta transformação se faz”, refere Eduardo Freire Rodrigues.

O UpHill Summit acontece também numa fase de expansão internacional da tecnológica portuguesa. Depois de consolidar presença na Península Ibérica - a empresa tem operações ativas em quatro regiões autónomas de Espanha: Madrid, Barcelona, Cantábria e Aragão -, a tecnológica prepara a entrada no NHS britânico e aponta a outros mercados europeus, incluindo Itália. Para quem acompanha a sua evolução, Eduardo Freire Rodrigues acredita que a perceção sobre a dimensão da UpHill ainda está desfasada da realidade atual. “Hoje, a UpHill é uma empresa de escala europeia, líder de mercado na Península Ibérica, e a expandir-se rapidamente para outros sistemas de saúde”, afirma o CEO.

Mesa redonda Summit Lisbon 2025
Eduardo Freire Rodrigues, CEO da UpHill UpHill

A IA não substitui médicos, mas multiplica a capacidade do sistema de saúde

Numa altura em que os sistemas de saúde enfrentam pressão crescente, listas de espera e urgências sobrelotadas, Eduardo Freire Rodrigues, médico de Saúde Pública e CEO da UpHill, defende que o verdadeiro impacto da IA clínica está em acelerar decisões, reorganizar cuidados e libertar capacidade hospitalar, sem retirar o controlo aos profissionais de saúde.

A UpHill arrancou há dez anos. Recorda-se do momento em que passaram de fornecedor de tecnologia a infraestrutura crítica do sistema de saúde?

A viragem aconteceu nos últimos cinco anos. Até aí, éramos uma ferramenta clínica usada por equipas pioneiras. A partir do momento em que começámos a integrar-nos diretamente nos sistemas de informação hospitalares – e não como camada externa, mas como parte do fluxo clínico do dia a dia – tudo mudou. Deixámos de ser uma aplicação de suporte à decisão e passámos a ser a infraestrutura para automatização clínica. Hoje operamos em áreas críticas como os serviços de urgência, em que reduzimos os tempos de espera em mais de um terço e duplicamos a capacidade de resposta dos médicos.

Sendo simultaneamente médico e CEO, como gere a tensão entre prudência clínica e ambição de escala tecnológica nas decisões estratégicas da empresa?

Como CEO, sei que o mercado de IA em saúde está em corrida e quem não escala perde. Como médico, sei que um erro clínico em escala é exponencialmente pior do que um erro isolado. A nossa ambição está em multiplicar a capacidade do sistema para responder a quem precisa. É aí que prudência clínica e escala tecnológica deixam de estar em tensão e passam a estar alinhadas.

Defende que os hospitais do futuro serão “mais simples e mais pequenos”. Essa transformação é essencialmente tecnológica?

Depende sobretudo de reorganização e reengenharia de processos. A tecnologia é o meio, mas a transformação só é real se melhorarmos o modelo de cuidados. Hospitais “mais simples e mais pequenos” não significa menos acesso, significa hospitais reservados a quem precisa mesmo deles, os doentes críticos, mas com cuidados alternativos – digitais, remotos, personalizados – para os doentes mais simples. Os resultados desta abordagem são mensuráveis. Os nossos clientes registam reduções superiores a 30% nos tempos de espera em urgência e de 35% nos internamentos hospitalares. Mas estes números só acontecem porque a tecnologia se integra diretamente nos sistemas de informação dos serviços, contribuindo para cuidados de saúde mais eficientes, proativos e escaláveis.

Onde traça hoje a linha entre apoiar a decisão médica e começar a substituí-la? Essa linha é fixa ou evolui com a tecnologia?

Hoje, a linha é clara: a tecnologia organiza, sugere e acelera, mas não decide autonomamente. Trabalhamos com algoritmos em modelo human-in-the-loop, no qual toda a decisão clínica final passa por um profissional de saúde. Agora, será que esta linha se mantém fixa para sempre? Não. À medida que a tecnologia amadurece, à medida que a validação clínica se consolida e a regulação europeia evolui, é natural que alguns processos hoje feitos por humanos passem a ser automatizados com segurança. Mas o nosso princípio é claro: essa fronteira move-se com evidência, não por pressa. O médico continua a decidir, mas decide melhor e mais rápido. Foca-se nos casos mais adequados para si. É aí que está o verdadeiro impacto.

Os resultados estão validados e são mensuráveis, mas, ainda assim, a adoção nos sistemas de saúde tende a ser lenta. O que continua a travar essa aceleração?

É verdade que, historicamente, a adoção de inovação nos sistemas de saúde é lenta, e por boas razões: estamos a falar de tecnologia que toca em decisões clínicas, com responsabilidade sobre vidas humanas. A prudência é apropriada. Mas hoje, no caso da UpHill, esse padrão está a quebrar-se. Em Portugal, apoiamos 50% das Unidades Locais de Saúde que, juntas, cobrem mais de 5 milhões de cidadãos em Portugal, várias regiões autónomas em Espanha, e estamos a entrar no NHS britânico. Dito isso, há um travão real que ainda persiste, e não é tecnológico nem regulatório: é organizacional. Implementar IA clínica em escala exige rever processos, requalificar equipas, repensar circuitos de cuidados. Isso é trabalho humano e leva tempo. Mas é trabalho que vale a pena, e que cada vez mais sistemas estão dispostos a fazer.

A UpHill conseguiu, com uma equipa reduzida, implementar soluções em contexto real em que muitos incumbentes falharam. O que fizeram de estruturalmente diferente?

Três coisas, estruturalmente diferentes. A primeira é o ponto de partida: a UpHill foi fundada por médicos. Partimos sempre do problema clínico real, e isso muda tudo na arquitetura do produto e na velocidade de adoção pelos profissionais de saúde. A segunda é a integração. Integramo-nos diretamente nos sistemas de informação hospitalares e nos circuitos de cuidados. A terceira é a credibilidade regulatória. A certificação como dispositivo médico de Classe IIa na União Europeia é uma barreira que muito poucos atravessam, mas que nos permite operar dentro de sistemas nacionais de saúde com a confiança que esse contexto exige.

Como se pode ultrapassar o receio dos utentes e pacientes em relação à tecnologia de inteligência artificial?

O medo da IA em saúde nasce muitas vezes do desconhecido, e a melhor forma de o combater é explicar, em linguagem clara, como funciona a tecnologia, o que faz, o que não faz, e quem é responsável por cada decisão. Esta é uma responsabilidade partilhada entre empresas, sistemas de saúde, reguladores e comunicação social.

Com uma nova ronda de investimento no horizonte, o principal fator limitador do crescimento da UpHill é o acesso a capital ou a capacidade de transformar práticas e comportamentos?

O fator limitador hoje não é nenhum dos dois, mas sim a velocidade de execução. Estamos num momento de enorme competitividade global em IA clínica: há muitos atores a entrar no mercado, há capital disponível e a oportunidade é gigantesca. A verdadeira corrida é por quem consegue executar em escala, com resultados clínicos e financeiros positivos. E nós estamos na linha da frente. Quanto ao capital, todas as semanas recebemos contactos de investidores a quererem investir na UpHill. É o sinal mais claro de que há ainda muito por fazer e de que estamos a fazê-lo bem.

A entrada no NHS inglês é vista como uma oportunidade de expansão comercial ou como um teste de validação?

A UpHill está já testada e certificada no Reino Unido como dispositivo médico pelo MHRA (equivalente ao INFARMED). Comercial e reputacionalmente, o NHS é uma das maiores oportunidades de expansão e validar tecnologia num contexto destes é, por si só, uma marca de confiança que abre portas noutros mercados. Não vamos para o Reino Unido porque é difícil, mas porque os problemas que sabemos resolver são, em larga medida, os mesmos que já estamos a resolver aqui.

Os nossos clientes registam reduções superiores a 30% nos tempos de espera em urgência e de 35% nos internamentos hospitalares. Eduardo Freire Rodrigues, CEO da UpHill.

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