Mais do que formar gestores preparados para o presente, as escolas de negócios procuram desenvolver MBA que preparem líderes para tomar decisões em ambientes complexos, ambíguos e altamente competitivos. Para Bernardo Samuel, country head of Permanent Recruitment na Adecco Portugal, as próximas gerações de MBA serão moldadas por tendências estruturais que estão já a redefinir o mercado global de talento. “Com o ritmo acelerado de transformação tecnológica, geopolítica e organizacional, poderão ser abordadas tendências como o domínio da IA e competências digitais avançadas”, refere, acrescentando que áreas como inteligência artificial, data analytics, machine learning e blockchain deverão integrar cada vez mais os planos curriculares.
A evolução dos modelos pedagógicos é outro fator determinante. Segundo o responsável da Adecco, as escolas estão a adaptar-se através de modelos de ensino mais flexíveis, combinando formatos presenciais, híbridos e online. Paralelamente, ganha espaço uma aprendizagem mais próxima da realidade empresarial, baseada em situações ambíguas e com integração interdisciplinar, bem como programas centrados em competências humanas. “Programas focados em liderança humana, em que competências como a liderança com propósito, valores e capacidade de inspirar serão valorizados”, sublinha este responsável.
Se há alguns anos os temas ambientais e sociais surgiam como módulos isolados, hoje tornaram-se parte estrutural dos programas de gestão. A integração da sustentabilidade e dos princípios ESG (Environmental, Social and Governance) nos currículos reflete a crescente pressão regulatória, social e empresarial para modelos económicos mais responsáveis. No The Lisbon MBA, essa integração é assumida de forma transversal. “Em média, 25% das horas letivas de todas as cadeiras abordam temas relacionados com ESG”, explica Maria José Amich, diretora-executiva do programa. O currículo inclui disciplinas como Business Ethics and Sustainability, Corporate Governance e Building Impact Ventures, permitindo ainda que os alunos desenvolvam projetos de consultoria com organizações focadas em impacto social. Para a responsável, a transição para modelos económicos mais circulares apresenta novos desafios à liderança empresarial. “A economia circular é precisamente o tipo de desafio para o qual os nossos programas preparam os líderes: exige pensamento sistémico, capacidade de inovar em modelos de negócio, e uma visão de longo prazo que vai além do resultado trimestral”, refere a responsável.
Também na Católica Porto Business School, a sustentabilidade passou a integrar o núcleo das competências de gestão. Luís Marques, diretor do MBA Executivo da escola, assume que estas matérias são trabalhadas ao longo de várias áreas do currículo, da estratégia às operações, incorporando métricas ESG e novos modelos de negócio associados à economia circular.
A Porto Business School segue uma lógica semelhante, pondo a sustentabilidade no centro da estratégia empresarial. “Na Porto Business School não tratamos a sustentabilidade apenas como um curso isolado, mas como uma prática transversal integrada nos currículos”, explica Ana Côrte-Real, faculty & corporate relations director e Executive MBA director. Nos programas MBA existe mesmo um Sustainability Track, em que os participantes analisam como os critérios ESG influenciam as decisões de liderança e os modelos de negócio.
No Iscte Executive Education, a abordagem parte de uma perspetiva pragmática da gestão. “Integramos sustentabilidade, eficiência de recursos e modelos circulares na estratégia e nas operações. A economia circular não é uma ideologia; é competitividade e é gestão de risco”, afirma o presidente, José Crespo de Carvalho.
Criar ecossistema de cooperação
À medida que o mercado de formação executiva se torna mais global e competitivo, cresce também o debate sobre a possibilidade de uma maior cooperação entre instituições de ensino. O exemplo mais visível dessa lógica em Portugal é o The Lisbon MBA, criado através de uma parceria entre a Católica-Lisbon e a Nova School of Business and Economics. “Nasceu precisamente de uma decisão corajosa e pouco comum: duas das mais reputadas escolas de negócio em Portugal e na Europa (…) escolheram somar forças no MBA”, recorda Maria José Amich. A colaboração estende-se ainda ao MIT Sloan, nos Estados Unidos, parceria que contribuiu para posicionar o programa entre os mais reconhecidos internacionalmente.
A ideia de ecossistema colaborativo é também defendida pela Católica Porto Business School. Luís Marques considera que “o futuro do ensino de gestão passa cada vez mais por ecossistemas de colaboração”. A escola desenvolve iniciativas conjuntas com várias instituições, incluindo programas com a Nova SBE e parcerias internacionais com escolas como a ESADE.
Na Porto Business School, Ana Côrte-Real reconhece que a competição entre instituições continua a ser um motor de melhoria, mas admite que existem áreas nas quais a cooperação pode gerar valor adicional. “Num contexto global cada vez mais competitivo, fortalecer o ecossistema de educação em gestão em Portugal é claramente do interesse de todos”, afirma.
A AESE Business School partilha uma visão semelhante. Para Agostinho Abrunhosa, diretor do AESE Executive MBA, o mercado nacional beneficiaria de uma maior colaboração entre escolas, sobretudo em investigação e reflexão estratégica sobre o futuro do país. “Acreditamos que é assim que uma escola de negócios cumpre a sua missão mais ampla: não apenas preparando líderes, mas contribuindo para o debate e para a construção de um país mais competitivo e justo.”
Competir globalmente, cooperar localmente
A mesma lógica é defendida por Joana Santos Silva, CEO do ISEG Executive Education e diretora do ISEG MBA, que destaca o potencial estratégico de uma marca coletiva para a educação em gestão portuguesa. “Se queremos que Portugal seja um hub global de talento, precisamos de competir internacionalmente e cooperar nacionalmente”, afirma.
José Crespo de Carvalho, do Iscte Executive Education, sublinha igualmente que a verdadeira concorrência ocorre num plano global. “Competimos globalmente, não apenas entre nós. Porém, quando o objetivo é elevar a qualidade da gestão em Portugal, a colaboração estratégica faz todo o sentido.”