A crescente complexidade da economia e a transformação tecnológica estão a tornar o mercado de trabalho cada vez mais competitivo. Neste cenário, a par das capacidades de trabalho, currículo e perfil de liderança, a formação avançada reveste-se de um papel diferenciador. Mestrados e pós-graduações continuam a ser valorizados pelas empresas como forma de aprofundar competências e preparar profissionais para funções com cada vez mais exigência e responsabilidade. “O tecido empresarial português está num forte processo de modernização e internacionalização, o que exige quadros que trazem metodologias atualizadas e uma visão estratégica que, por norma, é consolidada nestes ciclos de estudos. A principal vantagem é a especialização técnica e a diferenciação competitiva. O nosso mercado laboral exige a licenciatura como base, mas revê nos mestrados ou nas pós-graduações uma maior análise crítica, disciplina e um domínio mais profundo no manuseamento de ferramentas específicas que as empresas necessitam para resolver problemas mais complexos”, assegura Érica Pereira, Professional Talent Solutions director, da Randstad Portugal.
O valor destas formações, todavia, deixou de estar apenas no diploma e passou a medir-se pelo impacto real que estas podem ter no desempenho profissional. “Podem ser uma vantagem, mas deixaram de ser um fim em si mesmas. O que o mercado valoriza não é o diploma pendurado na parede; é a evidência de pensamento estruturado, capacidade de resolver problemas complexos, atualização técnica e abertura à aprendizagem contínua”, salienta João Bernardo Gonçalves, executive manager da Michael Page, acrescentando: “Numa fase em que Portugal continua com dificuldades em recrutar talento ‘qualificado’ e com escassez de competências em vários setores, a formação avançada pode funcionar como sinal de investimento pessoal e de maior profundidade. Mas há uma condição: tem de ser relevante e alinhada com o que as empresas realmente precisam.”
“O mercado valoriza, e muito, a aplicabilidade prática. Mais do que a teoria pura, as empresas procuram profissionais que saibam converter o conhecimento académico em valor de negócio, além do networking e da exposição a casos de estudo reais que estas formações na maior parte das vezes proporcionam”, reforça Érica Pereira. Ou seja, a formação é importante, mas faz parte de um conjunto. “Na prática, olhamos primeiro para o impacto do profissional: resultados, liderança, capacidade de execução e exposição a contextos exigentes. Entre um bom CV académico e um ‘líder’ que já entregou algo real, o mercado continua a escolher quem sabe transformar contexto em resultado. Somos sempre a soma das várias experiências que trazemos para cima da mesa”, avisa João Bernardo Gonçalves.
Nem todos os mestrados são iguais. O nome da instituição ainda funciona como “um selo de qualidade”, determinando, muitas vezes, o tipo de rede de contactos a que o aluno terá acesso. “As faculdades com fortes parcerias empresariais facilitam a inserção dos jovens no mercado de trabalho e consequentemente a sua progressão profissional”, refere Érica Pereira. O responsável da Michael Page concorda. “A reputação da instituição pode abrir portas, sobretudo no início da carreira, porque funciona como sinal de exigência. No entanto, à medida que a carreira avança, o peso desloca-se da ‘marca da escola’ para a consistência do percurso. Ainda assim, há instituições que continuam a diferenciar-se pela ligação que conseguem fazer com o mercado, pela qualidade do corpo docente e pela capacidade de expor os alunos a desafios reais e práticos.” Ao escolher um curso e uma escola, o aluno deverá ter sempre isso em consideração.
Empresas procuram liderança
No que toca às empresas, o que procuram quando escolhem os seus colaboradores? “Vai depender da posição para a qual a empresa está a contratar. Para as funções de entrada em setores como a consultoria ou banca, o mestrado é quase obrigatório. Para cargos de gestão, a pós-graduação ou formação executiva é frequentemente um requisito para garantir que o candidato possui, para além do conhecimento técnico, visão de liderança atualizada”, explica a responsável da Randstad.
Para João Bernardo Gonçalves, não há uma resposta única. Depende da função, do setor e do momento... “O que vemos é que as empresas usam estas formações mais como critério de reforço do perfil do que como condição absoluta”, conta. E há diferenças entre profissionais com ampla experiência laboral e os que acabam de chegar ao mercado. “Nos recém-formados, o mestrado pesa mais porque ainda há pouca experiência. Funciona como sinal de especialização, ambição e potencial. Nos profissionais mais seniores, o peso baixa: aí a experiência, a liderança demonstrada e a capacidade de decisão tornam-se muito mais relevantes”, assume o executive manager da Michael Page. “Sem dúvida”, continua Érica Pereira. “Para recém-formados, é importante que a formação tenha foco na continuidade e profundidade académica. Quando se procuram trabalhadores mais seniores, o foco muda para a capacidade de aprendizagem, tanto quando é necessária a atualização de conhecimento (upskilling) como a importância na aquisição de novos conteúdos para poder desempenhar uma função diferente (reskilling). Neste âmbito, procura-se formação que consolida a experiência prática com novas tendências de gestão.”
Também as áreas profissionais e de especialização têm exigências diferentes. “Há maior valorização da formação avançada em áreas como a tecnologia, a engenharia, a indústria, as finanças, a saúde, a sustentabilidade e a transformação de negócio. São setores em que a complexidade e o ritmo de inovação exigem atualização constante”, diz João Bernardo Gonçalves. Érica Pereira acrescenta: “É nos setores da tecnologia e IA, consultoria estratégica, farmacêutica, energias renováveis e setor financeiro/ bancário que se procuram mais profissionais com este tipo de formação.”
Num contexto empresarial em rápida mudança, as empresas procuram cada vez mais perfis capazes de combinar diferentes competências. “A capacidade de combinar competências é decisiva – tanto humanas como analíticas e tecnológicas: capacidade de decisão, liderança de pessoas, pensamento crítico, literacia digital e adaptação à mudança!”, afirma João Bernardo Gonçalves. “O nosso tecido empresarial encontra-se em grande esforço de adaptação, denotando resiliência ao mesmo tempo que lida com a escassez de talento. O grande desafio prende-se exatamente com a retenção do talento e a integração ética da inteligência artificial. A oportunidade reside na transição energética e na digitalização, onde o nosso país pode ser um player de referência para a Europa”, analisa Érica Pereira, acrescentando: “Se considerarmos que um profissional ao frequentar formação executiva irá, entre outros, adquirir conhecimentos valiosos e atualizados sobre processos e literacia digital, este encontra-se naturalmente em vantagem face aos profissionais que não possam frequentar ou não tenham frequentado este tipo de formação."
A aprendizagem contínua é determinante
É inevitável: neste contexto, a transformação tecnológica e a crescente integração da inteligência artificial no mundo do trabalho estão também a influenciar as áreas de formação mais procuradas. “Neste momento destaco as áreas de inteligência artificial, cibersegurança, data & analytics, engenharia, finanças, estratégia, sustentabilidade, energia e transformação digital”, assegura João Bernardo Gonçalves. Érica Pereira concorda e acrescenta: “Conseguimos afirmar que, atualmente, as áreas de especialização particularmente valorizadas no mercado são as de gestão de dados e IA, finanças sustentáveis e cibersegurança. Num futuro próximo, áreas que se cruzam com a biotecnologia, a gestão e a ética tecnológica terão uma procura sem precedentes.”
Perante esta evolução, a capacidade de aprendizagem contínua surge como um fator determinante para manter a relevância profissional ao longo do tempo. “O mercado tem sede por profissionais que gostam de ir renovando os seus conhecimentos através de uma aprendizagem contínua. A escolha entre o mestrado e uma pós-graduação dependerá do tempo disponível e do objetivo de carreira imediato do profissional”, diz Érica Pereira. João Bernardo Gonçalves também considera que esta é essencial para que um profissional se mantenha relevante num contexto tão competitivo. “A principal garantia será a capacidade de aprendizagem contínua. A inteligência artificial está a acelerar a transformação das funções, mas também está a valorizar as competências humanas difíceis de automatizar: pensamento crítico, criatividade, liderança e capacidade de resolver problemas complexos. Será assim relevante quem se adaptar e usar a tecnologia como ferramenta. Foi sempre assim na nossa história”, refere João Bernardo Gonçalves. “A inteligência artificial alterou por completo a forma como realizamos o trabalho diário, automatizando tarefas rotineiras, valorizando o que é puramente humano, como a criatividade, a ética e o julgamento estratégico. Para permanecer relevante, é necessário que a aprendizagem seja contínua e que o curso não represente um destino final, mas um upgrade periódico necessário para conseguir navegar na incerteza”, alerta Érica Pereira.
“Estamos mais dinâmicos e com abertura à realidade internacional”, diz o executive manager da Michael Page sobre o tecido empresarial português, salientando que, porém, “existem problemas estruturais relacionados com produtividade, falta de talento e dificuldade em execução dos planos”. O que pode, então, ser um trunfo de um profissional com formação executiva? “A capacidade de trazer espírito crítico, capacidade interdisciplinar e exposição internacional. Neste momento, pensar em inovação é decisivo.”