pixel

Negócios: Cotações, Mercados, Economia, Empresas

Mestrados para profissionais

Mais exigência, mais foco, mais maturidade e maior capacidade de retirar valor da formação. Os mestrados para quem já trabalha estão em ascensão, com um número cada vez maior de profissionais com mais de 30 anos a regressar à universidade.

11:20
Percurso académico estende-se pela vida
Percurso académico estende-se pela vida GettyImages

Durante muito tempo a universidade representava o fechar de um ciclo. A vida de estudante tinha terminado e era tempo de começar uma carreira profissional. Com uma licenciatura nas mãos, dizia-se adeus à vida académica sabendo que o regresso era muito pouco provável. Hoje, o paradigma mudou. A licenciatura é o primeiro passo de um percurso académico que se vai estender ao longo da vida, entre pós-graduações, mestrados, cursos livres e executivos.

Num mercado de trabalho em profunda convulsão e marcado por transformações profundas, impulsionadas pela digitalização, pela inteligência artificial e por mudanças económicas e geopolíticas, o conhecimento adquirido há uma década já não é suficiente para fazer frente às exigências das organizações. E os profissionais encontram-se hoje deparados com a necessidade de regressar à universidade e especializar-se, atualizar conhecimentos e competências, para se manterem relevantes – e não correrem o risco de uma carreira estagnada.

“Para os profissionais, investir em formação executiva é uma forma de reforçar competências e ganhar uma visão mais estratégica das organizações. Para as empresas, é também um investimento no desenvolvimento das suas equipas e na capacidade de responder a contextos cada vez mais complexos. Hoje, a formação ao longo da vida tornou-se essencial. As funções evoluem rapidamente e manter relevância profissional exige atualização constante de conhecimentos e competências ao longo da carreira”, salienta Patrícia Teixeira Lopes, vice-dean da Porto Business School.

Flexibilidade, relevância prática e diversidade de perfis

As universidades responderam rapidamente a esta nova procura, criando programas a pensar em profissionais com carreira cimentada, seja a nível de conteúdos seja pela sua compatibilidade com atividade profissional.  “Os mestrados dirigidos a profissionais têm vindo a ganhar crescente relevância em muitos países e também em Portugal. Estes programas distinguem-se sobretudo por três características fundamentais: flexibilidade, relevância prática e diversidade de perfis na sala de aula”, sublinha Óscar Afonso, diretor da Faculdade de Economia da Universidade do Porto (FEP). “Em primeiro lugar, são normalmente organizados em regimes compatíveis com a atividade profissional, com horários pós-laborais, formatos híbridos ou módulos concentrados. Esta flexibilidade permite que os participantes conciliem a formação com a sua carreira”, explica o responsável da FEP. Em segundo lugar, prossegue, estes mestrados têm “uma forte orientação aplicada”. “O ensino tende a privilegiar estudos de caso, projetos com empresas, resolução de problemas reais e desenvolvimento de competências diretamente relevantes para o contexto organizacional”, destaca. Por fim, a própria composição das turmas constitui um elemento diferenciador. “A presença de participantes com diferentes experiências profissionais e setores de atividade cria um ambiente de aprendizagem particularmente rico, em que o conhecimento académico se cruza com a experiência prática. Em muitos casos, os participantes aplicam imediatamente os conhecimentos adquiridos nas suas organizações, o que reforça o impacto direto da formação na prática profissional”, garante.

Aliás, segundo José Crespo de Carvalho, presidente do Iscte Executive Education, é essa mesma possibilidade de tratar um caso real que o profissional tenha em mãos num dado momento um dos traços distintivos destes mestrados. “Os mestrados profissionais distinguem-se porque partem da experiência do participante e transformam-na em método: traz-se o caso real e sai-se com capacidade de decisão e execução”, afiança. Mas é preciso ter foco e evitar a tentação de formações em excesso. “‘Acumular’ cursos sem grande objetivo pode ser ruído; escolher bem um percurso, um journey formativo com impacto, é investimento. Depois dos 30 muda tudo: há urgência, há menos tempo e há mais critério. Por isso, o desenho tem de respeitar a vida real. Mestrado vs. pós-graduação: mestrado quando se quer profundidade, credencial e trajetória mais estrutural; pós-graduação quando se quer foco, velocidade e uma competência crítica no imediato. Mas diria que depende muito, também, da forma como os participantes olham para as experiências”, explica José Crespo de Carvalho.

A verdade é que, normalmente, estes profissionais com uma extensa carreira atrás de si tendem a encarar estes mestrados com uma outra seriedade. Quem o diz é Paulo Alves, vice-diretor na Católica Porto Business School e diretor de mestrados da escola. “Um mestrado feito por quem já trabalha tende a ser vivido de forma diferente: mais intencional, mais exigente e mais orientado para aplicação imediata. O estudante-profissional traz experiência, problemas reais, sentido crítico e urgência de impacto. Isso enriquece muito a sala de aula e torna a aprendizagem especialmente fértil”, assegura

A presença de participantes com diferentes experiências profissionais e setores de atividade cria um ambiente de aprendizagem particularmente rico, em que o conhecimento académico se cruza com a experiência prática. Óscar Afonso, diretor da Faculdade de Economia da Universidade do Porto.
Mais notícias