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Portugal e os minerais críticos

Associação Portuguesa da Sustentabilidade Mineira considera que esta é uma oportunidade estratégica para a Europa, para a NATO e para o desenvolvimento nacional.

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Portugal tem décadas de tradição mineira
Portugal tem décadas de tradição mineira GettyImages

Num momento em que o mundo atravessa uma reconfiguração profunda das cadeias de valor globais, os minerais críticos assumem-se como um dos pilares centrais da segurança económica, industrial e militar. Esta é a visão da Associação Portuguesa da Sustentabilidade Mineira, que vê a crescente fragmentação geopolítica, as restrições à exportação de matérias-primas estratégicas por parte de grandes produtores e o aumento da procura associado à transição energética, à digitalização e ao reforço das capacidades de defesa posicionarem a Europa e a NATO perante um desafio estrutural: garantir acesso seguro, sustentável e independente a recursos essenciais.

Neste contexto, dizem os responsáveis da Associação, Portugal surge como um dos países europeus com maior potencial para desempenhar um papel relevante nesta nova arquitetura de abastecimento.

A evidência geológica, aliada a décadas de tradição mineira, aponta para a existência, e para a forte possibilidade de desenvolvimento, de recursos significativos de minerais críticos no território nacional. Entre estes destacam-se o tungsténio, o cobre e o zinco, bem como outros metais essenciais para a indústria moderna, todos eles com aplicações diretas em setores estratégicos como a defesa, a energia, a mobilidade elétrica e as tecnologias avançadas.

O cobre e o zinco, por exemplo, são fundamentais para a transição energética e para a eletrificação da economia. O cobre é um elemento-chave em redes elétricas, energias renováveis e veículos elétricos, enquanto o zinco desempenha um papel crítico na proteção de infraestruturas e no aumento da durabilidade de materiais. Ambos são igualmente relevantes em aplicações industriais e militares, sendo indispensáveis para a robustez das cadeias de valor europeias, explica a Associação Portuguesa da Sustentabilidade Mineira.

80% da produção mundial encontra-se concentrada na China

Por sua vez, o tungsténio representa um dos materiais mais estratégicos no domínio da defesa e da indústria de alto desempenho. Utilizado em munições, blindagens, sistemas de mísseis e componentes de elevada resistência térmica e mecânica, este metal é essencial para as capacidades militares modernas. No entanto, mais de 80% da produção mundial encontra-se concentrada na China, criando uma vulnerabilidade estrutural para os países ocidentais, informa a Associação. Paralelamente, os países da NATO consomem entre 25.000 e 32.000 toneladas de tungsténio por ano, evidenciando a sua importância estratégica.

Neste enquadramento, a possibilidade de desenvolvimento de novos projetos mineiros em Portugal assume uma relevância inequívoca. Como reconhecido por entidades ligadas à defesa nacional, o acesso a fontes seguras e confiáveis de matérias-primas críticas é determinante para a autonomia industrial e para a resiliência das cadeias de abastecimento europeias e da NATO. Porém, o impacto potencial do setor mineiro vai muito além da dimensão geopolítica, alertam os responsáveis da Associação.

A exploração mineira moderna, quando desenvolvida com rigor técnico, inovação e responsabilidade ambiental, pode constituir um dos motores mais relevantes de crescimento económico sustentável. Estudos independentes demonstram que projetos desta natureza podem mobilizar investimentos de larga escala, gerar milhares de empregos diretos e indiretos e produzir impactos significativos ao nível do produto interno bruto, das exportações e das receitas fiscais, defende a Associação. Para Portugal, isto representa uma oportunidade única em várias dimensões.

Aumentar as exportações, o emprego e atrair investimento

Em primeiro lugar, ao nível da balança comercial. A produção de minerais críticos, com elevado valor acrescentado e forte procura internacional, pode contribuir de forma decisiva para o aumento das exportações, reforçando a posição externa do país e reduzindo a dependência de importações estratégicas.

Em segundo lugar, ao nível do emprego e dos salários. A exploração mineira contemporânea exige mão de obra altamente qualificada, como engenheiros, geólogos, técnicos especializados, criando empregos mais bem remunerados e promovendo a valorização do capital humano nacional. Este efeito é particularmente relevante nas regiões do interior, onde a falta de oportunidades económicas continua a ser um desafio estrutural.

Em terceiro lugar, ao nível da atração de investimento e da criação de novas cadeias de valor. A existência de recursos minerais críticos pode funcionar como catalisador para o desenvolvimento de atividades industriais a jusante, incluindo o processamento, a metalurgia avançada e a produção de componentes para setores como a defesa, a energia e a indústria tecnológica. Esta dinâmica pode posicionar Portugal como um hub industrial emergente no contexto europeu.

Coesão territorial

Adicionalmente – prosseguem os responsáveis da Associação Portuguesa da Sustentabilidade Mineira –, o setor mineiro pode desempenhar um papel determinante na coesão territorial. O desenvolvimento de atividades estruturantes em regiões do interior tem o potencial de dinamizar economias locais, atrair população, reforçar serviços públicos e estimular o empreendedorismo, contribuindo para um desenvolvimento mais equilibrado do território nacional.

Importa ainda sublinhar que esta oportunidade surge num momento de forte alinhamento estratégico ao nível europeu. O Regulamento das Matérias-Primas Críticas estabelece metas claras para aumentar a produção interna, reforçar a capacidade de processamento e reduzir a dependência de fornecedores externos considerados de risco. Portugal, pela sua geologia, estabilidade institucional e posicionamento geográfico, reúne condições únicas para contribuir de forma relevante para estes objetivos.

Contudo, a concretização deste potencial exige uma abordagem clara, coordenada e estratégica. É fundamental assegurar um enquadramento regulatório eficiente e previsível, capaz de atrair investimento e acelerar o desenvolvimento responsável de projetos. Em paralelo, é essencial garantir elevados padrões ambientais e sociais, promovendo uma atividade mineira moderna, transparente e alinhada com as expectativas da sociedade.

O cobre e o zinco, por exemplo, são fundamentais para a transição energética e para a eletrificação da economia.
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