Portugal tem uma posição geográfica privilegiada, portos de águas profundas e acesso ao mercado ibérico e europeu. Ainda assim, continua a perder alguma competitividade para Espanha em áreas como o transporte rodoviário, o transporte aéreo e, em determinados períodos, o transporte portuário. A leitura de Afonso Almeida, presidente da Direção da APLOG, aponta para uma combinação de custos, constrangimentos logísticos e falta de capacidade em algumas infraestruturas. Um dos fatores identificados é o custo dos combustíveis. “O custo do gasóleo é mais barato em Espanha, com impostos mais baixos. Esta questão é uma vantagem competitiva para as transportadoras espanholas”, refere o responsável.
Segundo Afonso Almeida, a diferença não está apenas nos custos de operação. Os terminais de carga aérea de Lisboa e do Porto estão “obsoletos, com falta de espaço”, enquanto os procedimentos aduaneiros e de segurança podem atrasar os processos e a expedição das mercadorias. Os portos também entram nesta equação. Na perspetiva do presidente da APLOG, os portos portugueses perderam quota no mercado ibérico, enquanto os espanhóis cresceram. A explicação, diz, resulta da combinação entre custos energéticos, burocracia, infraestruturas de carga insuficientes e menor escala logística. “A combinação do custo energético, burocracia, infraestruturas de carga insuficientes e menor escala logística faz com que muito trânsito mercantil prefira Espanha. A falta de investimento da última década talvez seja também a resposta”, explica Afonso Almeida.
A geografia não basta
A localização de Portugal, por si só, não chega para transformar o país numa plataforma logística europeia. Para Afonso Almeida, é necessário garantir que a localização é acompanhada por uma rede capaz de ligar diferentes modos de transporte e mercados. Entre as prioridades, o responsável identifica uma intermodalidade mais eficaz, ligações ferroviárias internacionais robustas, uma estratégia estável de longo prazo e a aceleração da Janela Única Logística. A modernização dos portos e das cadeias logísticas deverá acompanhar também os objetivos de redução de emissões e eletrificação das operações.
O problema é que a resposta exige tempo. Portugal está a investir mais do que no passado recente e tem atualmente um conjunto relevante de projetos portuários e ferroviários, mas, na visão da APLOG, o ritmo continua aquém do necessário para responder às mudanças nas cadeias de abastecimento. Entre os investimentos que destaca estão o novo terminal Vasco da Gama, em Sines, a expansão do terminal de contentores e do Ro-Ro no Porto de Leixões, o aumento da capacidade de transporte de mercadorias na linha de Leixões, a ligação ferroviária internacional de Sines a Espanha e o corredor internacional sul, entre Évora e Elvas.
O programa Portos 5+ surge igualmente como uma das principais apostas, com cerca de três mil milhões de euros de investimento privado, 15 novas concessões em dez anos e 300 milhões de euros destinados à melhoria dos acessos ferroviários e rodoviários, segundo Afonso Almeida.
Crescer sem perder investimento
Há capacidade logística, mas Lisboa e Porto começam a atingir os seus limites nas áreas logísticas mais valorizadas e a nova oferta ainda não acompanha totalmente a procura, defende o presidente da APLOG. Sines surge como uma exceção. “A zona industrial de Sines está a crescer de uma forma muito relevante com investimentos muito importantes de diversos setores”, destaca o responsável. Para a APLOG, um dos maiores obstáculos à captação de novos investimentos está, contudo, fora da própria operação logística. Está nos processos administrativos necessários para os concretizar. “O maior constrangimento para atrair mais investimentos de diversos setores passa pela melhoria nos processos burocráticos de autorizações/licenciamentos de imensas entidades”, assinala Afonso Almeida.
A demora nas respostas e nos processos de implementação terá, segundo este responsável, contribuído para que alguns investimentos acabassem por ser direcionados para Espanha, onde considera que as respostas são mais rápidas.
Custos e pessoas pesam na operação
A pressão sobre os custos e a falta de mão de obra qualificada estão a dificultar o crescimento. Segundo a APLOG, os custos laborais aumentaram mais de 5% em 2026, enquanto a escassez de profissionais limita a capacidade de crescimento e aumenta os encargos das empresas.
A energia e os combustíveis acrescentam outra pressão. Em algumas indústrias, representam entre 20% e 35% dos custos de produção e, no transporte, o gasóleo pode representar cerca de 40% dos custos, estima Afonso Almeida.
Para o presidente da APLOG, não basta avançar com novas infraestruturas. É preciso também tornar mais simples e mais rápido o funcionamento das empresas. Licenciamentos, fiscalidade, justiça e burocracia continuam a pesar nas decisões de investimento. É neste contexto que Portugal terá de responder ao desafio de ganhar competitividade sem perder mais carga e investimento para Espanha.