António Costa Silva: "A Europa está a morrer a cada dia que não toma uma posição clara"

A UE mostra-se "medrosa" em enfrentar o "jacaré norte-americano", mas deve fazê-lo, este ano, se quer salvar a ordem internacional. O antigo ministro da Economia lembra ainda que o excesso de petróleo atual é tal que seria possível parar a produção por três meses.
António Costa Silva: "A Europa está a morrer a cada dia que não toma uma posição clara"
Inês Santinhos Gonçalves 06 de Janeiro de 2026 às 11:54

Se nada for feito para travar Donald Trump, "vamos ter a lei da selva instalada nas relações internacionais". O alerta é deixado por António Costa Silva, antigo ministro da Economia, que lamenta a postura excessivamente cautelosa da União Europeia (UE) sobre o ataque dos EUA à Venezuela.

"A Europa está a apagar-se, está a morrer a cada dia que não toma uma posição absolutamente clara", diz, em entrevista ao programa do Negócios no canal NOW, acrescentando que a UE "tem estado muito apática, muito medrosa, em confrontar o jacaré norte-americano".

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Costa Silva não poupa nas palavras para dizer que o Presidente norte-americano violou os "princípios basilares do respeito pela integridade territorial dos países" ao atacar a Venezuela e capturar Nicolás Maduro, e "rasgou a carta das Nações Unidas" - se agir sobre estará também a "rasgar a carta da NATO".

O antigo ministro da Economia lembra que Trump está a fazer desmoronar um sistema que os EUA ajudaram a construir, de ordem internacional, dando respaldo - e até um empurrão - à Rússia e à China, que o têm tentado minar. "O mundo vai ser dominado por estes três líderes: Vladimir Putin, que é o líder mais sangrento da Rússia desde Estaline; por Xi Jinping, que é o líder mais ideológico e mais perseverante desde Mao Tsé-Tung; e o Presidente Trump, que é um líder egocêntrico, errático, vaidoso, superficial, e que tem um modelo de decisão baseado em impulsos", descreve.

Trump quer transformar os EUA num mega petroestado, mas o mercado do crude está já saturado. António Costa Silva, ex-ministro da Economia

É neste contexto que o papel da UE em 2026 se torna central, "para defender o mínimo de regras no sistema internacional e para evitar desde já esta ação que ele [Donald Trump] está a ameaçar sobre a Gronelândia. Vai moldar o que é o futuro das relações internacionais".

António Costa Silva diz que o líder norte-americano quer transformar os Estados Unidos "num mega petroestado", mas alerta que o mercado do crude está já saturado. O caminho para a eletrificação - muito impulsionado pela China e a sua indústria automóvel - e o excesso de produção estão a fazer baixar os preços do petróleo e nem uma intervenção no Estado com as maiores reservas mundiais parece alterar este cenário.

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"[Com] esta intervenção, mesmo que se produza mais petróleo, não vai ser absorvido pelo mercado", afirma Costa Silva, que conta com uma longa carreira no setor energético. A oferta é tal, neste momento, que permite parar temporariamente a produção sem que falte esta matéria-prima: "Nesta altura temos no mundo cerca de 30 mil milhões de barris de petróleo a mais, que podem ser utilizados. Isto é, se parássemos a produção de petróleo hoje no mundo, durante três meses podíamos abastecer todo o planeta".

Sobre o reatar das relações comerciais com Portugal - que de 2013 para 2024 passaram de 190 milhões em exportações para 10 milhões -, caso se verifique uma mudança de regime, o antigo ministro da Economia diz-se cauteloso. "Tendo a olhar sempre para os números para fazermos uma análise fria e racional. O regime de Hugo Chávez e depois de Nicolás Maduro foram altamente danosos para a economia venezuelana. De 2013 até ao fim do ano passado, o PIB venezuelano colapsou cerca de 75%. Se olhar para a inflação, a Venezuela vive em hiperinflação, chega a atingir 500% e já houve no passado 1000% de inflação", descreve.

A esta cenário junta-se uma elevada taxa de criminalidade e dificuldade em garantir necessidades básicas à população, como acesso a comida e medicamentos. "É impossível regular um país assim", lamenta.

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