Barcos de borracha dos refugiados estão a dar-lhes emprego

Há um projecto em Berlim que visa dar emprego a migrantes, reutilizando coletes salva-vidas e os barcos de borracha em que muitos deles se fizeram transportar para chegarem à Europa. São transformados em acessórios de moda, como malas.
Jornal de Negócios
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Carla Pedro 23 de julho de 2018 às 23:23

Chamam-lhe "upcycling", que é como quem diz "reutilização criativa": um processo de transformação de subprodutos, resíduos, produtos inúteis ou indesejados em novos. E foi nisso que pensaram a alemã Vera Guenther e a sua parceira de projecto Nora Azzaoui (na foto abaixo) ao ponderarem sobre como poderiam dar nova vida ao "lixo" que fica nas praias onde muitos requerentes de asilo e migrantes chegam à procura de uma nova vida.

A ideia surgiu-lhes quando passaram ambas alguns meses na ilha grega de Chios, ajudando os refugiados, a quem forneciam água e roupa seca. "Desde 2015, mais de um milhão de refugiados chegaram às zonas costeiras da Grécia. À medida que vão seguindo caminho, os seus botes ficam nas praias", explica a página do projecto.

Ambas se aperceberam que nos vastos areais, além dos barcos de borracha, ficava também muita roupa ensopada e coletes salva-vidas. Fizeram uma recolha de donativos para comprarem uma máquina de lavar roupa e tornar a roupa utilizável de novo. Mas e quanto ao resto?

 

Regressadas a Berlim, continuaram a pensar no assunto, tentando pensar numa forma de aliar aquele "lixo" e, ao mesmo tempo, dar emprego a migrantes que chegam ao seu país.

Se bem o pensaram, melhor o fizeram. Vera e Nora criaram a Mimycri, que produz acessórios de moda a partir dos coletes salva-vidas e dos botes de borracha usados pelos refugiados que pedem asilo à Alemanha.

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Com este projecto, pretendem criar emprego aos migrantes, ao mesmo tempo que lhes dão uma oportunidade de mostrarem os seus talentos, contou Vera à Reuters.

A Mimycri foi então criada na qualidade de organização sem fins lucrativos e, desde então, tem feito nascer muitas malas, carteiras, mochilas e outros acessórios de moda.

Migrantes talentosos, como o paquistanês Abid Ali, cortam e cosem e fazem nascer produtos de um "lixo" que ninguém parecia querer guardar. Mas assim, sob a forma de um acessório, a lembrança é diferente. E pode até funcionar como uma catarse para muitos.

"Para mim, trabalhar com barcos de borracha que já foram usados não me faz confusão. Por vezes penso ‘sim, eu vim num destes botes’, mas não me faz confusão", explicou à Reuters Abid Ali, que tem 20 anos de experiência como alfaiate.

Os grupos ambientalistas têm alertado repetidamente para a ameaça do plástico nos mares e também para estes "resíduos" deixados nas praias pelos migrantes que chegam à Grécia.

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Um relatório da organização ambientalista internacional WWF, divulgado no passado dia 8 de Junho para assinalar o Dia Mundial dos Oceanos, concluiu que "95% dos resíduos que flutuam no Mediterrâneo são compostos por plásticos" e pediu um acordo internacional para eliminar esta poluição.

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