“Houve alheamento do mundo empresarial do PTRR”

Dos 900 contributos entregues no âmbito da consulta pública ao PTRR, só cerca de 100 foram de empresas privadas, as quais serão chamadas a financiar um terço do plano de 22,6 mil milhões de euros. Novo episódio do podcast Partida de Xadrez vai para o ar esta segunda-feira.
O PTRR é o tema do 53º episódio.
Negócios 12:00

O PTRR – Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência, apresentado pelo Governo três meses depois do comboio de tempestades que assolou o país, apenas motivou, no âmbito da consulta pública, 105 contributos de empresas privadas, o que “traduz alheamento do mundo empresarial relativamente a esta realidade”, afirma Gonçalo Moura Martins no 53.º episódio do podcast Partida de Xadrez que vai para o ar esta segunda-feira no site do Negócios e nas principais plataformas.

Do total de cerca de 900 contributos recebidos, os das empresas privadas foram menos do que os de cidadãos individuais ou de empresas públicas. O gestor salienta que o PTRR “vai mexer com o setor privado”, seja como fornecedores e subcontratados, seja como financiadores de um terço dos 22,6 mil milhões de euros estimados, mas, frisa, “não colheu grande interesse do ponto vista das empresas”. “Não sei se esse alheamento não vai contribuir para mais um documento muito estatizante que depois não tem aderência na sociedade empresarial do país”, frisa.

PUB

Em seu entender, este é “mais um plano governamental que se pretende, à semelhança do PRR, ser agregador de um conjunto de planos setoriais que se foram sucedendo, muitos deles sem visibilidade de execução”. “São tantas as medidas e necessárias, muitas delas já previstas noutros programas, que é difícil não estar de acordo com a generalidade delas”, mas resta saber “se existem condições, vontade política e capacidade de recursos para as implementar”, afirma acrescentando que a capacidade de execução é a questão que se coloca

Sobre os 7,6 mil milhões de euros que o plano prevê de financiamento através do setor privado, incluindo parcerias público-privadas e concessões, António Ramalho considera esse valor realista e frisa que “significa uma visão mais moderna e mais adaptada do Estado”. “Os fundos europeus só vão financiar 4,2 mil milhões? Ainda bem que começamos a pensar seriamente que os fundos europeus não duram para sempre, porque este modelo à escala europeia está condenado”, diz.

PUB

Os dois gestores concordam que o PTRR agora apresentado “corrige o primeiro documento quer em ambição, quer em coerência”. No entanto, António Ramalho lamenta que “ficamos sem saber quais são os objetivos intercalares, quais são os instrumentos de execução e sobretudo qual é o retorno do investimento que está nele previsto”.

O plano “tem uma boa sistematização e até tem uma quantificação do seu modelo de financiamento. A crítica que faço é que não há um ‘accountability’ de resultados, nem uma calendarização mais precisa”. “Quando se iniciam projetos de investimento sem saber exatamente o que é que esperamos como objetivo do ponto de vista do benefício futuro, eles ficam sempre coxos porque não vão ter esse controle e esse escrutínio quantitativo”, aponta.

PUB

Por outro lado, frisa, “falta a matriz de risco”. “Se a ideia dominante começa a ser a de que somos capazes de nos proteger contra qualquer evento extremo que vá acontecer, não só estamos a ser demagogos, porque isso será impossível, como ainda por cima estamos a alocar inadequadamente fundos de hoje para realidades que podem ou não acontecer”, avisa.

Saber mais sobre...
Saber mais Milhões Mil Milhões de euros Empresa Portugal
Pub
Pub
Pub