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Leão aconselha “moderação” ao BCE para não repetir “erro de há 11 anos”

Perante o "desafio completamente novo" colocado pela inflação elevada, o ex-ministro das Finanças acredita que a resposta do Banco Central Europeu (BCE) não deve, contudo, ser demasiado agressiva.

João Leão, ex-ministro das Finanças. Rodrigo Antunes / Lusa
Lusa 01 de Outubro de 2022 às 10:29
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Moderação no ritmo da subida das taxas de juro pelo BCE, numa Europa cuja economia está a ser fortemente atingida pela guerra, é sugerida pelo ex-ministro das Finanças João Leão, que destaca a credibilidade de Portugal nos mercados internacionais.

 

Em entrevista à Lusa, na qual se escusou a comentar medidas concretas para o Orçamento do Estado para 2023 (OE2023), o antigo ministro das Finanças admitiu que se subestimou o fenómeno da inflação, acreditando-se inicialmente ter um caráter mais temporário.

 

"Foi em parte subestimado, é verdade, devia-se ter tido mais atenção a este fenómeno, mas também foi muito agravado por alguma coisa que não se separava, que foi a invasão pela guerra", disse.

 

Perante o "desafio completamente novo" colocado pela inflação elevada, o ex-governante acredita que a resposta do Banco Central Europeu (BCE) não deve, contudo, ser demasiado agressiva.

 

"Aconselho alguma moderação ao BCE porque a Europa está a ser mais afetada do que os Estados Unidos pelo impacto da energia. Os preços de energia estão a aumentar mais na Europa do que nos Estados Unidos, sobretudo na questão do gás. É importante ter algum cuidado com o ritmo, porque essa moderação na economia que o BCE está a querer atingir já está a ser atingida pelo efeito da energia", disse.

 

Ainda que assinale compreender que a instituição liderada por Christine Lagarde "não pode deixar de procurar manter a sua credibilidade", ao mesmo tempo que mantém as expectativas de inflação ancoradas nos 2%, é preciso, diz, um "equilíbrio", que admite ser "difícil de fazer".

A "prudência" aconselhada é para "garantir que não estamos a cometer um erro, como foi cometido há 11 anos, em que o BCE subiu excessivamente as taxas de juro e depois agravou demasiado... a economia europeia entrou numa forte recessão", afirma.

 

"Enquanto durante a pandemia a política orçamental e a política monetária estavam completamente alinhadas e ambas a lutar pela recuperação da economia, agora temos aqui um desafio novo em que a política monetária e a política orçamental estão em sentidos que não são fáceis de coordenar", frisa.

 

Um dos reflexos é, exemplifica, em junho, a Euribor a seis meses que estava negativa e atualmente "já está perto dos 2%", sendo de esperar, estima, "que nos próximos meses atinja os 3% e mesmo os 4%".

 

"Vai criar desafios que é preciso pensar", sublinha, reafirmando a importância de "atenção na reforma e no ritmo com que se sobe as taxas de juro", porque existe "um aumento da inflação que no curto prazo gera uma grande redução do rendimento das famílias e isso tem um efeito negativo sobre a economia".

 

Quando questionado sobre o impacto para o financiamento de Portugal, o ex-ministro que foi também secretário de Estado do Orçamento entre 2015 e 2019, assinalou que existe desde julho uma nova atenção por parte dos investidores perante o financiamento dos países, mas acredita que Portugal figura bem.

 

"Houve em julho, focado na Itália e na Grécia, mas se olharmos com atenção, Portugal ficou protegido desse impacto. Os juros em Portugal aumentaram, mas aumentaram em linha com o aumento que se verificou na Alemanha e em França. Os 'spreads' praticamente não variaram. Houve uma ligeira alteração dos 'spreads', mas manteve-se muito próximo do que era antes. A perceção de risco para Portugal não se agravou", disse.

 

Para João Leão, tal revela "que Portugal chegou a esta crise bem preparado, com uma dívida pública com uma forte redução, com contas certas e com uma trajetória e um quadro para a evolução da dívida pública nos próximos anos que também oferece garantias e confiança aos investidores".

 

"Portugal neste momento tem um 'spread' face à Alemanha de 1%, quando Itália tem 2,5%. Em 2016 era o oposto", aponta.

 

O antigo ministro destacou que "não é de espantar que ainda no mês passado, no meio desta crise, uma agência de 'rating' principal, a S&P, decidiu aumentar o 'rating' da dívida de Portugal".

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