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Obrigado, António. O nada não existe

O António Lobo Antunes foi ali espreitar o outro lado da vida. Em mim, está sempre vivo. Até sempre.

O António é meu amigo e, naturalmente, o melhor escritor do mundo.
O António é meu amigo e, naturalmente, o melhor escritor do mundo. Miguel Baltazar
10:09

Conhecemo-nos depois de uma zanga bruta. Sou amigo do António e o António é meu amigo. Sim. No presente, Embora o António tenha morrido ele ficará comigo. O António Lobo Antunes dizia frequentemente: “o nada não existe”. Agarro-me a esta frase para garantir a sua perenidade.

O António é meu amigo e, naturalmente, o melhor escritor do mundo.

O António trabalha muito para atingir a perfeição literária. “Como uma mula”, diz ele. É generoso. Um filigranista das palavras. A posteridade diz-lhe pouco. “Que é isso, rapaz”?

O António é bondoso, aceitou fazer um livro comigo: “O que faria eu se estivesse no meu lugar – 10 conversas de vida com António Lobo Antunes”. Cada uma com uma hora de gravação. “Depois disso não se diz nada de jeito”. Foi uma viagem maravilhosa.

A nossa amizade é eterna. Gosto muito do António e tenho a veleidade de achar que ele também gosta muito de mim. Vai ser sempre assim.

O António parte fisicamente, mas permanece. Durante anos almoçámos uma vez por semana. Aprendi muito com ele. Sobre literatura, mas acima de tudo sobre a natureza humana. O António escritor é um escarafunchador de sentimentos. É exigente. Parece irascível, mas é bondoso.

Conheci-o quando li o “Cu de Judas”. Disse então à minha professora de português que era um génio. Depois fui acompanhando a sua vida através dos livros que escrevia. Até que, por graça de um amigo comum, conheci o homem. O António. Fiz-lhe uma entrevista com a Lúcia Crespo. Ele ficou irritado e desancou-me ao telefone. Fiquei triste. No mesmo dia voltou a ligar, pediu-me desculpa e disse que tinha feito uma avaliação errada.

Somos do mesmo signo e do mesmo clube. Também passeámos pelo mesmo bairro, o de Benfica, e trocámos memórias sobre a avenida Gomes Pereira onde agora a sua biblioteca vai morar. Escuto muitas histórias que vou guardar para a vida. Os seus olhos azuis dão brilho às palavras.

“Só não quero que se me parta o lápis” como aconteceu ao Simenon, afirma o António com frequência. Percebo-o e digo que sim com a cabeça. O António é irascível, mas isso apenas serve para esconder a sua ternura.

Senta-se pacientemente à secretária e escreve com aquele letra microscópica que só ele consegue ler em blocos que são as folhas de receitas do pai. Fuma desalmadamente. Escrever é um trabalho de persistência. Quem acha que escreve bem à primeira é um tonto. Tens razão, António.

O António ajudou-me a lutar contra o cancro, partilhando a mnemónica que usou quando travou a mesma batalha: “vou-te matar cabrão, vou-te matar cabrão”. Debaixo da máquina de radioterapia usei a frase durante 32 dias.

Agora, o António foi ali espreitar o outro lado da vida. Em mim, está sempre vivo. Até sempre.

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