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Criação de emprego trava quebra de rendimento real entre famílias mais pobres

Apenas os rendimentos mais baixos terão preservado ganhos face à inflação até junho. Mas, sobretudo, porque o ponto de partida era o desemprego. Cenário pode piorar na segunda metade de 2022.

O desemprego aumentou no último trimestre, mas está abaixo do verificado há dois anos. Contudo, sobe o peso dos desempregados de longa duração.
Desempregados e inativos que voltaram ao trabalho seguram ganhos ligeiros de poder de compra entre as famílias de menores rendimentos. João Cortesão
Maria Caetano mariacaetano@negocios.pt 18 de Outubro de 2022 às 11:00
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As transições para o emprego, num mercado de trabalho que se manteve dinâmico no primeiro semestre deste ano, terão travado ainda as perdas de rendimento disponível real entre as famílias mais pobres, mas a generalidade dos agregados terá conhecido já nos primeiros meses de 2022 perdas de poder de compra, que deverão agravar-se na segunda metade do ano.


O Banco de Portugal (BdP) estima as perdas de rendimento real para o conjunto das famílias em 1% no primeiro semestre, numa simulação que parte dos dados do último Inquérito à Situação Financeira das Famílias, de 2020, e que é publicada esta terça-feira no Boletim Económico de outubro da instituição.


Este valor tem em conta uma subida de 5,1% do rendimento disponível nominal das famílias, e uma taxa de inflação homóloga de 6,2% no primeiro semestre.


Já quando se exclui dos cálculos o efeito de subida de rendimento entre as famílias que tinham elementos no desemprego e que voltaram a trabalhar, a perda média de rendimentos em termos reais sobe aos 1,9%, de acordo com quadros complementares do estudo facultados ao Negócios pelo Banco de Portugal.


Neste caso, os quadros facultados do BdP permitem pressupor que a subida de rendimento nominal sem efeito dos ganhos de emprego ronde os 4,3%.

Mercado de trabalho estanca perdas maiores


O objetivo do exercício, que não é feito nos mesmos termos em que o INE dá a evolução do rendimento disponível expresso em contas nacionais e que assenta em alguns indicadores de rendimentos e riqueza menos atuais, é sobretudo o de avaliar os impactos diferenciados que a inflação e subida de juros estão a ter no rendimento de diferentes grupos de famílias.


A conclusão principal é a de que, entre os agregados com rendimentos mais baixos, a evolução do mercado de trabalho - aliada à subida do salário mínimo - poderá ter sustido, até meados do ano, a deterioração do poder de compra.


A simulação do BdP aponta para que as 20% famílias mais pobres no país, com rendimentos médios de 13.100 euros anuais, tenham tido ainda uma evolução positiva do rendimento até junho, num ganho real de 0.7%.


"O primeiro semestre do ano foi caracterizado por uma forte criação de emprego e uma significativa diminuição do desemprego em termos homólogos. Num quadro de já elevada participação no mercado de trabalho, esta evolução beneficiou as famílias de menor rendimento e riqueza", referem as conclusões da simulação. Estas também assinalam um "reforço" dado pela subida do salário mínimo, que neste ano cresceu 6% para 705 euros brutos mensais (os rendimentos de trabalho aumentaram 6,3% entre os mais pobres).


Mas, o ganho decorre grandemente da melhoria de situação das famílias com indivíduos que antes se encontravam em situação de desemprego ou inatividade e, por isso, sem salário e, nalguns casos mesmo, sem acesso a subsídio por desemprego. Naturalmente, registam as maiores subidas de rendimentos, quer em termos nominais, quer reais. E influenciam a média.


Retirando o efeito do emprego, o cenário muda bastante. As famílias mais pobres passam a registar uma perda de rendimentos de 1,6% em termos reais. Ou seja, para quem já estava integrado no mercado de trabalho, a evolução salarial não chegou para compensar a inflação.


Nas restantes famílias do país, mesmo que o efeito da criação de emprego não tenha sido suficiente para impedir perdas de rendimento, estas surgem agravadas quando este é desconsiderado, mostram os dados da simulação.


No segundo quintil mais pobre, com rendimentos médios de 18.700 euros, as famílias conhecem uma perda de real de rendimentos de 0,7%. É agravada para 1,5% quando ajustada das transições no mercado de trabalho.


Acima, nos rendimentos médios de 21 mil euros anuais, a perda é calculada em 0,9% quando se contabilizam também entradas no emprego, e de 1,8% sem elas.


Os resultados repetem-se nas famílias dos quintis do topo. Nos 20% de rendimentos médios de 25.900 anuais, os segundos mais ricos na distribuição, observa-se uma perda de 1% nos rendimentos em termos reais, que passa a 2% sem efeito do emprego. Já nas famílias mais ricas, a perda de rendimento real é de 1,7%, agravada para 2,3% quando se desconsidera quem passou a ganhar um salário e antes estava no desemprego.

Imobiliário segura melhorias na riqueza 


A simulação do Banco de Portugal tem em conta o impacto da subida de preços nos rendimentos salariais, subsídios de desemprego, pensões e outras transferências públicas, mas também no valor dos ativos detidos pelas famílias, com a valorização do imobiliário – quase dois terços do património das famílias – a impedir perdas na evolução da riqueza líquida.


Para o conjunto das famílias do país, verifica-se um aumento da riqueza líquida de 12,1% em termos nominais, e de 3,1% em termos reais. Nas famílias mais pobres, aqui, observa-se um maior crescimento da riqueza líquida, mas que resulta de terem maior peso de endividamento nos ativos que possuem: o facto de os ativos se valorizarem mais e a dívida permanecer inalterada traduz uma evolução mais favorável.


Estes ganhos, porém, traduzem-se em pouco, segundo o Banco de Portugal: "É importante ter presente que as famílias do primeiro quintil de riqueza detêm apenas 0,2% da riqueza total e, portanto, mesmo com um aumento muito significativo em termos percentuais, a riqueza destas famílias permanece muito reduzida face às das restantes famílias".


Ainda assim, estes efeitos, bem como aquele que resultou da criação de emprego no primeiro semestre, levam o estudo do BdP a afirmar que os resultados "sugerem que houve uma diminuição da desigualdade na distribuição do rendimento e da riqueza no primeiro semestre do ano".


Menos certa será a conclusão a retirar quando a instituição fizer o mesmo exercício para a segunda metade do ano, altura em que poderão ser medidos os efeitos da subida de taxas de juro no crédito à habitação nos rendimentos, em que a inflação será mais elevada, a economia deverá abrandar e o mercado de trabalho mostrar menos dinamismo. Por outro lado, pesará na futura avaliação do BdP o efeito dos apoios entregues neste mês pelo Governo e a evolução dos rendimentos salariais.

 

 

 

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