Sampaio e Mello: Em Portugal, há um "dirigismo estatal" e "isso origina um enorme desperdício"
O professor de Finanças Públicas António Sampaio e Mello acredita que o país tem um modelo económico errado, assente no consumo a crédito, "que depois se paga sempre com uma crise". E alerta para o elevado endividamento.
O discurso é disruptivo, sem receio de colocar o dedo na ferida. O professor de Finanças Públicas António Sampaio e Mello afirma que "o grande problema de Portugal - e que temos desde há muito tempo, sobretudo desde a entrada na moeda única - é um modelo assente no consumo a crédito".
"O que o consumo representa no PIB é desproporcional à dimensão da economia e nós vamos acumulando dívida", alerta o catedrático que dá atualmente aulas na Wisconsin School of Business, nos Estados Unidos.
Sampaio e Mello é o próximo convidado do podcast "Conversas Visíveis" e, na conversa com Jorge Marrão e Joaquim Aguiar, explica que o Estado é um dos principais responsáveis pelo aumento do endividamento da economia nacional. "Se olhar para 2015 até 2020, vai ver que a dívida total da economia no Estado cresceu 18%, nos particulares cresceu 1% e nas empresas 3%. O principal contribuinte para a dívida que vamos acumulando é o Estado", frisou o professor catedrático.
Sampaio e Mello sublinha que "o modelo económico português está assente no modelo a crédito que depois se paga sempre com uma crise". "No momento em que as taxas [de juro] subirem a 4,5% entramos outra vez num ciclo vicioso imparável", acrescenta.
O professor da Wisconsin School of Business afirma também que, desde que "o PS tomou o poder", primeiro com José Sócrates e mais recentemente com António Costa, existe "um dirigismo estatal". "O Estado está em todo o lado. O Estado produtor, o Estado faz as regras e o Estado distribui. Quando o Estado está em todo o lado, isso origina um enorme desperdício. E também é um fator de corrupção. Um país pobre com um Estado grande é sempre, inevitavelmente, corrupto", detalha Sampaio e Mello.
Numa longa conversa com os cronistas da Mão Visível, o catedrático abordou também a questão da falta de indústria em Portugal, mas olhou ainda para o atual momento político nos Estados Unidos e para a crescente polarização entre o Partido Democrático e o partido Republicano.
António Sampaio e Mello é o primeiro convidado em 2022 do podcast "Conversas Visíveis", um formato conduzido pelos colunistas da "Mão Visível" e que estará disponível no site do Jornal de Negócios e nas plataformas Apple Podcasts e Spotify a partir desta quinta-feira, dia 13 de janeiro. O que são as Conversas Visíveis?
O que são as Conversas Visíveis?
As Conversas Visíveis são um novo projeto que é complementar da Mão Visível, o espaço de opinião que junta Álvaro Nascimento, António Nogueira Leite, Joaquim Aguiar, Jorge Marrão e Paulo Carmona. A cada quinze dias, dois destes colunistas vão conduzir um entrevistado pelos "mistérios da estrada da democracia em Portugal".
As Conversas Visíveis procuram identificar o que está na sombra da política, o que se esconde nos discursos e nas decisões, mas que acabará sempre por se revelar na realidade efetiva das coisas. O compromisso assumido pela equipa da Mão Visível é o de que irá falar sobre as sombras e os mistérios da democracia portuguesa, onde se escondem os fatores que geram endividamento sem estimularem crescimento, onde se agravam as desigualdades sociais e onde persiste o crescimento da despesa pública e da expansão de funções do Estado.