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A IA é uma ameaça? A sala começou por dizer que não e acabou a dizer que sim

Na conferência de sustentabilidade do Negócios, Adolfo Mesquita Nunes alertou para riscos de soberania e liberdade, enquanto Stephan de Moraes defendeu que as oportunidades superam largamente os perigos.

20:58
Adolfo Mesquita Nunes e Stephan de Moraes em painel da Conferência Negócios Sustentabilidade moderado por Helena Garrido
Adolfo Mesquita Nunes e Stephan de Moraes em painel da Conferência Negócios Sustentabilidade moderado por Helena Garrido David Cabral Santos
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A inteligência artificial (IA) é uma ameaça? No início da sessão “Eu tenho razão! A IA é uma ameaça. A IA não é uma ameaça”, moderada pela jornalista Helena Garrido na Grande Conferência Negócios Sustentabilidade, a maioria da sala respondeu que não. No final, depois do frente a frente entre um crítico da IA e um entusiasta da ferramenta, a maioria mudou de posição.

Adolfo Mesquita Nunes, partner da Pérez-Llorca, assumiu o lado mais crítico, mas recusou a etiqueta de tecnopessimista. “Sou entusiasta”, garantiu. O problema, explicou, não está nas “milhões e milhões de oportunidades” que a tecnologia pode trazer, mas antes nas transformações profundas que ela provoca “do ponto de vista de soberania, de autonomia, de conhecimento, de distribuição de poder”.

Para o antigo governante, a ameaça aumenta à medida que Estados, empresas e cidadãos delegam poder em sistemas controlados por entidades privadas. “A dimensão da ameaça será proporcional à delegação de poder, de conhecimento, de soberania, de autonomia, que nós delegámos na inteligência artificial”, avisou. Em causa está a possibildade de áreas centrais da vida coletiva, da defesa à justiça, passarem a depender de empresas que não respondem perante os eleitores.

Do outro lado, Stephan de Moraes, managing general partner da Indico Capital Partners, reconheceu que “todas as grandes transformações comportam alguma ameaça”, mas defendeu que, neste caso, os benefícios são muito superiores aos riscos. A IA pode ser uma mudança “equivalente, ou até mais profunda, que a descoberta da luz”, porque aumenta a eficiência humana, liberta pessoas de tarefas repetitivas e democratiza o acesso ao conhecimento. “Estamos a falar de uma equalização enorme pela democratização da inteligência”.

A divergência esteve sobretudo no peso dado aos riscos, com Adolfo Mesquita Nunes a insistir que a questão é política: perceber quem manda, quem regula e quem responde perante os cidadãos. “Achar que não é ameaça nenhuma ter sistemas que não sabemos quem constrói a decidir a nossa vida” é, para si, um erro. “Não sei se sou livre num mundo assim”, quando o acesso à informação e muitas decisões passam a ser mediadas por algoritmos.

Stephan de Moraes contra-argumentou que existem contrapoderes suficientes, nomeadamente por via dos governos e reguladores, para evitar uma concentração absoluta de poder. “O poder é muito mais distribuído do que se pensa”, afirmou, rejeitando a ideia de que as grandes tecnológicas sejam inevitavelmente “os novos donos do mundo”. Para o investidor, a IA abre ainda oportunidades em áreas como novos materiais, energia, medicina personalizada ou da resposta ao envelhecimento demográfico.

“O facto de alguém como eu, pela primeira vez na vida, estar a defender a regulação deve ser um sinal”, apontou Adolfo Mesquita Nunes, que se considera um liberal clássico e favorável à iniciativa privada. O objetivo, disse, é garantir que esta revolução está “ao serviço das pessoas”.

A votação final mostrou, porém, que os alertas foram suficientemente convincentes para a assistência do auditório da NOVA SBE, que inverteu o sentido de voto e considerou, por maioria, que a IA é uma ameaça.

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