O tempo das promessas de transformação que a inteligência artificial traria às organizações já lá vai, garantiram os participantes no debate “Como nos podemos adaptar à IA e robotização?”, moderado pela jornalista Helena Garrido na Grande Conferência Negócios Sustentabilidade. A grande questão hoje passa por perceber como é que a sociedade pode usar estas ferramentas sem perder conhecimento e o pensamento crítico.
Na Sociedade Ponto Verde, explicou a CEO Ana Trigo Morais, este caminho começou ainda antes da recente aceleração da IA. “Começámos em 2022, 2023 a pensar o que poderia mudar”, afirmou. A organização teve de “alocar recursos e pensamento” e “reorientar” o seu papel na cadeia de valor, convocando “novas formas de resolver os problemas”.
No setor da reciclagem, a tecnologia pode ajudar a melhorar processos, da georreferenciação à gestão de informação. “Há um tema fundamental que é o dos dados. Sem bons dados não é possível”, alertou Ana Trigo Morais, lembrando que é preciso apostar “numa política pública para fazer essa excelente captura de dados”.
Também no ensino superior, a adaptação deixou de ser opcional e a academia foi obrigada a absorver o avanço tecnológico. Para o dean da Católica Porto Business School, João Pinto, este setor tem “um papel importantíssimo no upskilling e reskilling” exigidos pela IA. Na universidade, foi criada em 2024 uma estratégia assente na ideia de que a tecnologia “está cá” e “vai criar disrupções”, com o objetivo de mostrar aos alunos e docentes que estas ferramentas devem servir “para complementar o seu raciocínio crítico”.
A estratégia inclui literacia, formação de professores e regras claras, com um código de conduta para todos. “Um aluno faz a dissertação através do ChatGPT, a seguir o docente avalia com o ChatGPT e, no final do dia, onde está o conhecimento?”, apontou, temendo o “colapso do conhecimento”.
Nas autarquias, Luís Almeida Capão vê a IA como uma oportunidade para aumentar produtividade e libertar equipas das tarefas rotineiras, repetitivas e sem valor acrescentado. “É uma capacidade enorme que as autarquias ganham para aumentarem a produtividade”, defendeu. O vice-presidente da Câmara Municipal de Cascais lembrou que, nas últimas duas décadas, os municípios deram “um salto estrondoso” na capacidade de trabalhar com dados de qualidade e que esse caminho deve prosseguir.
Essa evolução permite agora aplicar modelos de IA a áreas como o licenciamento, exemplificou, lembrando que em Cascais a automatização da entrada de processos começou em 2011, permitindo que “o técnico já só avaliasse o que precisava mesmo de avaliar”. Por outro lado, o autarca acredita que a IA poderá também ajudar a compensar as dificuldades de contratação no setor público, numa altura em que muito talento “está a fugir para o privado”.
Já Patrícia Gonçalves, da Diáspora Jovem - Tecnologia e Inovação, centrou-se sobretudo no impacto da IA e da robotização no emprego, lembrando que embora haja mais-valias nas ferramentas, os riscos não devem ser subestimados. “O CEO da Microsoft diz que a IA é como uma bicicleta, um andaime para o conhecimento humano, e um ano depois despede 15 mil trabalhadores”, exemplificou.
Os mais jovens, diz, poderão tornar-se “maestros” na criação e gestão de agentes de IA, acrescentando uma dimensão ética ao processo. Na indústria, porém, a robotização continua a enfrentar limites e, em tarefas de fábrica com maior detalhe e nuance, “não estamos a ter os resultados desejáveis”.
A tecnologia poderá assumir tarefas “mais árduas para o corpo e para a mente” e ter impacto positivo, por exemplo, na investigação aplicada a doenças. O essencial, defendeu, é usar estas ferramentas “não para substituir o meu raciocínio, mas para complementar”.