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Redes de origem chinesa controlam operações de fraude ao IVA na Europa, alerta procuradoria

Organismo de investigação europeu sublinha que há uma clara evidência de "uma indústria criminal" que foi ignorada ou tolerada por demasiado tempo.

Criminosos na China usam sistemas bancários clandestinos para direcionar os fluxos financeiros e mantêm estruturas operacionais complexas na UE
Criminosos na China usam sistemas bancários clandestinos para direcionar os fluxos financeiros e mantêm estruturas operacionais complexas na UE Jessica Lee / Lusa - EPA
07:36

A fraude ao IVA e tarifas aduaneiras no espaço comunitário em investigação pela Procuradoria Europeia ascende a 45 mil milhões de euros e levanta preocupações quanto ao domínio das redes criminosas chinesas, que controlam toda a cadeia de fraude.

Segundo dados oficiais divulgados no Relatório Anual de Atividades de 2025 da Procuradoria Europeia (EPPO, na sigla inglesa) esta segunda-feira, os 45,01 mil milhões de euros de fraude ao IVA e tarifas aduaneiras representam apenas 27% das investigações em curso no organismo (981 em 3.602 investigações), mas correspondem a 67% do total de 67,27 mil milhões de euros em prejuízos estimados aos orçamentos comunitário e dos Estados-membros da União Europeia (UE).

Segundo o organismo, este crime em específico, que afeta diretamente as fontes de receitas comunitárias e nacionais, evidencia "uma indústria criminal que foi ignorada ou tolerada por demasiado tempo".

A EPPO "observou recentemente um alarmante elevado nível de fraude orquestrada por grupos criminosos de larga escala, relacionado com a importação e venda de bens com origem fora da UE", sublinhando a crescente complexidade dos crimes, a especialização associada, que leva à necessidade de cooperação entre grupos criminosos.

"No que se refere à entrada de bens na UE com origem na China, em particular, redes criminosas compostas por indivíduos de origem chinesa assumiram o controlo de toda a cadeia de fraude", refere o relatório.

O documento explica que exploram a cadeia de abastecimento a partir da China, usam sistemas bancários clandestinos para direcionar os fluxos financeiros e mantêm estruturas operacionais complexas na UE para gerir todas as fases da atividade criminosa.

Estas redes "estão largamente presentes nos principais portos e terminais comerciais na Europa, onde procuram controlar o processo de entrada alfandegária", acrescenta o documento.

O controlo alfandegário das fronteiras externas da UE, nomeadamente portos e aeroportos, já tinha sido alvo de alerta no relatório anterior, sendo uma preocupação específica do procurador europeu português, José Ranito.

Em 2025, uma das maiores operações da EPPO foi a operação Calypso, desencadeada em vários países, visando a entrada ilegal de produtos da China e que no porto de Pireu levou à apreensão de 2.435 contentores, a maior operação do género na UE.

A EPPO sublinha ainda que este tipo de criminalidade, "difícil de detetar de uma perspetiva puramente nacional", tem um impacto relevante em alguns setores da economia, onde estes grupos "já ultrapassaram a mera infiltração", dominando toda a atividade e "sufocando operadores económicos legítimos com concorrência desleal".

Este tipo de crime, altamente lucrativo e de baixo risco associado, está também associado a outras atividades ilícitas de maior risco, como tráfico de droga ou tráfico humano, refere ainda o documento.

Em 2025, a EPPO abriu 2.030 novas investigações, mais 35% do que em 2024, e os casos de fraude com subsídios e pagamentos representam 68% das investigações em curso, mas apenas 27% no total de prejuízos em investigação pelo organismo.

Os vários programas de Recuperação e Resiliência (PRR) em curso na UE são responsáveis por 512 casos em investigação, o que "demonstra um aumento acentuado em comparação com 2024 (de 66,7%).

"Devido ao elevado número de desembolsos esperados em dezembro de 2026, o risco mantém-se elevado para fraude e corrupção", alerta.

O documento aponta ainda para uma taxa de condenações em julgamento de 95% e 275 acusações produzidas em 2025, mais 34% do que em 2024, tendo ainda sido concedidas autorizações judiciais de congelamento de bens no valor de 1,13 mil milhões de euros, mas apenas concretizadas em 288,93 milhões.

A EPPO tem atualmente 24 Estados-membros e funciona como um Ministério Público independente e altamente especializado.

Entrou em atividade a 01 de junho de 2021 e tem competência para investigar, instaurar ações penais, deduzir acusação e sustentá-la na instrução e no julgamento contra os autores das infrações penais lesivas dos interesses financeiros da União (por exemplo, fraude, corrupção ou fraude transfronteiriça ao IVA superior a 10 milhões de euros).

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