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Tsipras para Merkel: "Também querem Creta? O Partenon? Talvez toda a Acrópole, não?"

A cimeira dos líderes da Zona Euro, iniciada no domingo e terminada na segunda-feira de manhã, teve muitas histórias paralelas. Ao longo de 17 horas, houve tensão, gracejos, cedências, olhares carrancudos e carregados, sono, muito sono. E exasperação. O primeiro-ministro grego chegou mesmo a perguntar à chanceler alemã se queria mais alguma coisa… talvez grandes símbolos do país, como a maior ilha, o famoso tempo ou mesmo a Acrópole.

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merkel tsipras Reuters
15 de Julho de 2015 às 00:40

Domingo, 12 de Julho, 15 horas em Lisboa (16h em Bruxelas). Ainda não se imaginava que estava a começar a cimeira mais longa da história da União Europeia. Depois de um Eurogrupo iniciado sábado e prolongado pelo domingo, arrancavam os trabalhos dos chefes de Estado e de Governo da Zona Euro, naquela que foi considerada a última tentativa de manter a Grécia no euro.

17 horas depois, pelas 8h da manhã de segunda-feira, hora de Lisboa, chegava o fumo branco. Atenas e os seus credores tinham chegado a acordo. Ia a madrugada a meio e o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, já avançava que havia uma proposta de acordo em cima da mesa. Mas duas questões pendentes levaram a novas pausas, novas consultas, muito desespero por parte dos participantes cansados e dos jornalistas que não arredavam pé do edifício Justus Lipsius. Em causa estavam dois pontos em relação aos quais o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, não queria ceder. Mas cedeu. Em ambos.

Tsipras não queria o FMI envolvido no terceiro pacote de resgate, mas o Fundo vai manter-se. Está previsto, aliás, no ponto 8 do Tratado que criou o Mecanismo Europeu de Estabilidade - o fundo de resgate dos países da Zona Euro.

O outro finca-pé dizia respeito ao fundo independente de privatizações, onde ficaria o dinheiro obtido com as privatizações. A proposta era que estivesse sediado no Luxemburgo e que as vendas de activos gregos ascendessem a 50 mil milhões de euros – servindo esse dinheiro para os reembolsos da dívida. Aqui, nesta questão, houve cedências de ambos os lados. O fundo fica sediado em Atenas, tal como Tsipras desejava, e embora o montante tenha sido mesmo fixado nos 50 mil milhões de euros (o FMI defendia que fosse de sete mil milhões, Atenas queria que ascendesse a um máximo de 17 mil milhões), não será destinado na íntegra ao pagamento das dívidas aos credores, sendo metade direccionado para recapitalizar os bancos helénicos.

Foi este ponto relativo ao fundo de privatizações que demorou mais horas a resolver. Diz a Reuters que Alexis Tsipras não queria render-se no último "item" de uma exaustiva lista de exigências por parte dos seus credores, com uma implacável Alemanha pela frente [o ex-ministro das Finanças, Yanis Varoufakis, chegou mesmo a dizer várias vezes, na semana passada, que sempre tinha sido intenção de Berlim pôr a Grécia fora do euro. O seu então congénere, Wolfgang Schäuble, já admitiu ter pensado num Grexit, mas a chanceler diz que a ideia não era essa. Muitos críticos dizem, contudo, que a Alemanha quis – e conseguiu – humilhar o Governo de Tsipras].

Mas voltemos às negociações. Por esta altura, seriam 3h da manhã em Lisboa. Angela Merkel exigia, sem abrir mão das suas pretensões, que a Grécia colocasse nesse fundo 50 mil milhões de euros. E que esse dinheiro fosse controlado por um organismo no Luxemburgo, ficando assim fora do controlo do Governo de Atenas. Quanto à sede, a chanceler alemã acabou por recuar, mas não fez o mesmo em relação ao montante, se bem que tenha aceite que não se destine na totalidade a pagar aos credores, podendo a Grécia fazer uso de metade para recapitalizar a banca.

No entanto, até se chegar a este entendimento, Tsipras chegou mesmo a perguntar aos restantes líderes, com especial ênfase em Merkel, se queriam todas as suas jóias da coroa, de bandeja, contou à Reuters uma fonte próxima das conversações. "Talvez também precisem de Creta? Ou do Partenon? Talvez toda a Acrópole, não?", perguntou o chefe do governo helénico.

"Se eu concordar com este depósito de garantias, bem posso comprar um bilhete de avião para outro país", afirmou Alexis Tsipras, segundo relatou uma outra fonte à agência Reuters.

Pela noite dentro, muitos outros episódios se sucederam. Os jornalistas cansados dormiam no chão e nas cadeiras, outros batiam com os tampos das mesas em desespero. Bang, bang, bang, relatava o The Guardian, aludindo ao som dos tampos, uma revolução ruidosa junto da comunicação social. Outros brincavam para se manterem acordados e tiravam fotografias ou iam até à cafetaria beber mais um café. Outros ainda começaram um jogo de procura do presidente da Comissão Europeia, visto que Jean-Claude Juncker parecia ter desaparecido do mapa. Só voltou a ser visto horas mais tarde.

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Tsipras para Merkel: "Também querem Creta? O Partenon? Talvez toda a Acrópole, não?" Reuters

E, apesar de longa, mais longa se tornou. Às 07h30 era oficial. "Esta cimeira do euro é a mais longa cimeira da história da União Europeia, superando a do Tratado de Nice em 2000", escrevia Herman Grech, do Times of Malta.

Por essa altura, 16 horas e 10 minutos após o início da cimeira de líderes, já só faltavam apenas seis horas e meia para o próximo Eurogrupo, salientava o The Wall Street Journal.

Mas estava quase, quase, a haver luz verde. Por volta das 08h da manhã era anunciado o acordo. Soube o Financial Times, também por intermédio de fontes que vão contando as histórias paralelas da cimeira, que Donald Tusk terá dito, às 5h da manhã (hora de Lisboa), que ninguém saía dali sem um acordo. Isto porque alguns líderes começavam a falar em ir embora e porque Tsipras e Merkel chegaram mesmo a levantar-se para o fazer.

"Alexis Tsipras e Angela Merkel decidiram, após 14 horas de um angustiado debate, que tinham chegado a um beco sem saída. Sem qualquer margem para um compromisso, nenhum dos dois via qualquer razão para prosseguir. O Grexit parecia a única opção realista", conta o Financial Times. Mas Tusk levantou a voz e "salvou" o dia.

Conforme os dois líderes se levantaram e se dirigiam para a porta, o presidente do Conselho Europeu agiu no sentido de evitar que a exaustão e a frustração desencadeassem uma ruptura histórica na Zona Euro, revela o jornal britânico, citando uma fonte próxima dos acontecimentos.

"Desculpem lá, mas nem pensem que saem desta sala", disse-lhes o ex-primeiro-ministro polaco. Tsipras e Merkel voltaram a sentar-se. Os ânimos acalmaram e as conversações retomaram.

Uma hora mais tarde, o primeiro-ministro esloveno, Miro Cerar, acabou mesmo por abandonar o edifício devido a um encontro agendado no seu país com o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, ficando representado na cimeira pelo primeiro-ministro holandês, Mark Rutte. Pouco depois saiu também a presidente lituana, Dalia Grybauskait. Questionada pela CNBC sobre se já havia um acordo, respondeu: "quase, quase". E uma hora depois o quase transformou-se em "já está". 

(notícia actualizada às 02h19)

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