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Issing: Comprar activos é "forma perigosa de fazer política monetária"

Otmar Issing ficou conhecido como o mais aguerrido "falcão" do BCE e veio a Sintra mostrar que, aos 78 anos, continua a merecer o epíteto. Queda dos preços, diz, é também "o corolário positivo e desejável do ajustamento" em curso.

Bloomberg
Eva Gaspar egaspar@negocios.pt 27 de Maio de 2014 às 16:06
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Otmar Issing (na foto), primeiro economista-chefe do Banco Central Europeu (BCE), veio a Sintra mostrar que, não obstante a frase-feita de que o mundo mudou, há coisas que não mudam, designadamente o que pensa dever ser o papel essencial dos bancos centrais: controlar a evolução dos preços.

 

Falando no I Fórum do BCE, que ao longo de dois dias reuniu na Penha Longa a "nata" da academia e dos decisores da área monetária, Issing desaconselhou abertamente o BCE a abrir ainda mais a "Caixa de Pandora" dos instrumentos não-convencionais, argumentando que os desequilíbrios graves que persistem na economia da Zona Euro não podem ser resolvidos pelo banco central. Se tentar fazê-lo, substituindo-se designadamente aos Governos, arrisca a criar "ilusões" e a converter-se "rapidamente no único bode expiatório de tudo o que possa correr mal".

 

Em sua opinião, o BCE não deve de todo desbravar mais terreno virgem com um programa de compras de activos, semelhante ao da Reserva Federal dos Estados Unidos ou do Banco de Inglaterra. "É uma forma perigosa de fazer política monetária", advertiu. Se o fizer, argumentou, o banco central estará a enviar os sinais errados aos Governos, que poderão sentir-se com margem de manobra para relaxar o controlo das contas públicas. Os próprios bancos, acrescentou, terão também menos incentivos para

Evitar a armadilha da deflação é também a sua primeira missão, mas é preciso ter em mente que a queda dos preços é igualmente o corolário positivo e desejável do ajustamento.
 
Otmar Issing

limpar os seus balanços e deixarem de apoiar empresas sem viabilidade apenas porque não querem reconhecer perdas irrecuperáveis em créditos que lhes concederam.

 

O actual presidente do Center for Financial Studies, instituto alojado na Universidade de Frankfurt, mostrou-se igualmente preocupado com os efeitos perversos de duas medidas que o BCE tem ou já pôs no terreno:  taxas de juro demasiado baixas durante demasiado tempo, devido ao apetite que abrem por investimentos arriscados e, consequentemente, ao surgimento de bolhas especulativas; e uma oferta excessiva de liquidez aos bancos que disse poder criar mais uma "fonte de distorção" do mercado com potencial para "desestabilizar a economia", ao invés de a estabilizar.

 

Em relação ao comportamento dos preços, Issing admitiu que o primeiro papel de um banco central é tanto controlar a sua subida como a sua descida exagerada. "Evitar a armadilha da deflação é também a sua primeira missão, mas é preciso ter em mente que a queda dos preços é igualmente o corolário positivo e desejável do ajustamento" que está em curso, e que forçou, sobretudo nos países da periferia do euro, Estados, empresas e famílias a cortar nos gastos, reduzindo a procura e, consequentemente, os preços.

 

"Os bancos têm de encontrar o equilíbrio certo" para tentar gerir as expectativas sobre os preços, acrescentou.

 

O também antigo economista-chefe do Bundesbank, que ficou conhecido como o mais aguerrido "falcão" do euro pela ortodoxia com que sempre defendeu o mandato do BCE centrado no controlo da inflação, tem sido um crítico da actuação do BCE, tendo por várias vezes considerado que o banco central, agora presidido por Mário Draghi – que estava na plateia em Sintra - tem vindo progressivamente a actuar fora da sua área de intervenção. 

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