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Nos bastidores do corta-fitas do Banco CTT

Esta sexta-feira nasce o primeiro banco português de raiz em mais de oito anos – o último, o BIC Português, surgiu em 2008. O Negócios foi descobrir como o Banco CTT se transformou na maior abertura simultânea de uma instituição bancária em Portugal.

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Isabel, nome fictício, trabalha na estação dos Correios de Águeda, mas no dia da tomada de posse do novo Presidente da República está a trabalhar em Lisboa. Enquanto Marcelo Rebelo de Sousa deposita coroas de flores nos túmulos de Luís de Camões e Vasco da Gama, Isabel abre mais uma conta à ordem no Banco CTT. A nova cliente trabalha na direcção de comunicação dos Correios. É uma das primeiras 1.000 clientes do banco dos CTT que, a partir desta sexta-feira, tem porta aberta em 52 estações dos Correios espalhadas um pouco por todo o país.

 

Na agência piloto do Banco CTT, na sede da instituição, no Parque das Nações, não há tempo para acompanhar as quebras de protocolo do novo Chefe de Estado. Isabel está em Lisboa para os últimos dias de formação. Quarta-feira, 9 de Março, é o segundo dia de formação real como bancária. Na agência há mais três colegas dos Correios.

 

Desde 27 de Novembro, dia de abertura do balcão piloto do banco postal, tem sido um corrupio. Todas as semanas mudam as equipas de trabalhadores dos Correios que vêm de todo o país para treinarem a abertura de contas e entrega de cartões de débito, testarem o sistema informático e as ligações ao Banco de Portugal ou à SIBS. Para já, os clientes são apenas quadros dos CTT, com dias programados para os trabalhadores de cada área da empresa poderem abrir conta. Ninguém é obrigado a fazê-lo. Mas graças a este esforço, o Banco CTT abre com quase 1.000 clientes.

 

O segredo

 

Mais do que clientes, os trabalhadores dos Correios são o segredo do negócio do banco. Para já, são 500 a dar a cara pela instituição. À medida que o projecto entrar em velocidade cruzeiro, o número chegará a 2.500. 

 

Tal como Isabel, todos estes trabalhadores continuam a ser empregados dos Correios, mas também têm um contrato com o banco. Este documento é imprescindível para submeter os novos "bancários" às regras do sigilo da profissão, ao código de conduta e à hierarquia da instituição. Mas o Banco CTT não terá de pagar o salário total de quem vai atender os seus clientes.

 

Ao contrário do que acontece no resto da banca, para o banco dos Correios a força de vendas não é um custo fixo. Os gastos variam. "Quanto mais o banco usar as pessoas, mais paga aos CTT", explica Luís Pereira Coutinho, presidente da nova instituição. O controlo é feito a partir da utilização que os trabalhadores  fazem do seu computador.

 

A partir desta sexta-feira, os 500 trabalhadores dos Correios ao serviço do Banco CTT estão por sua conta. Os clientes já não são apenas os colegas da empresa. Qualquer pessoa que entre na estação dos Correios é um cliente a conquistar.

 

O arranque do Banco CTT é trabalhado a partir de uma 'sala de máquinas'. Luís Amado comanda as operações.
O arranque do Banco CTT é trabalhado a partir de uma "sala de máquinas". Luís Amado comanda as operações. Bruno Simão

A ditadura da bola

 

À hora mesma hora em que as 52 estações dos CTT passarem a funcionar também como agências bancárias – "a maior abertura simultânea de balcões", como gosta de repetir Francisco Lacerda, presidente dos Correios –, é altura de renovar os "post-its" que decoram as paredes da "war room" (sala de guerra) que nos últimos meses tem sido o centro de comando do projecto Banco CTT.

Na parede mais espaçosa há uma grelha com diferentes planos de acção, os "post-its" elencam as diferentes tarefas a desenvolver ou a alterar. Os papelinhos amarelos incluem códigos que rementem para folhas de cálculo que permitem gerir todo o processo a partir de um terminal de computador. Nas paredes de vidro, a vista para o Rio Tejo é entrecortada pela lista de segundas prioridades. Na sala de guerra não há tempo para contemplações.


Enquanto Marcelo sobe, sozinho, a rampa do Palácio de Belém, a "war room" está praticamente vazia. Há cada vez mais espaços brancos nas paredes, sinal de que a maior parte dos planos de acção está executada. Mas as diferentes equipas, conhecidas pelo nome de personagens de BD americana, como Capitão América, ainda têm muito que fazer.  "Agora é o arranque da segunda fase do processo", que vai prolongar-se por três anos, avisa Pereira Coutinho.

 

Todos os dias, às 19:00, a sala de guerra enche-se de uma multidão de responsáveis das diferentes equipas de trabalho, para fazer o balanço diário do lançamento do Banco CTT. Chegam a estar 40 pessoas numa sala com pouco mais de 30 metros quadrados. A reunião devia durar 20 minutos, mas prolonga-se quase sempre por uma hora e meia. Todos obedecem à ditadura da bola. "Só pode falar quem tiver a bola na mão", revela Luís Amado, administrador com o pelouro da área operacional.

As olheiras carregadas do banqueiro são proporcionais ao ritmo de trabalho dos dias que antecedem o cortar da fita no Banco CTT. "Às vezes há reuniões às 2:00 da manhã. Há equipas a trabalhar 16 horas por dia, porque o nosso fornecedor de tecnologia – a empresa britânica Mysis – tem uma fábrica em Bangalore", na Índia, justifica.

 

Fim do papel, mas não dos cheques

 

Na sala ao lado, estão as equipas responsáveis pela digitalização dos processos. Na parede, uma colagem de folhas com uma extensão de mais de dois metros reproduz o diagrama que permite que, no momento em que está a ler este texto, seja possível abrir uma conta no Banco CTT sem levar um papel para casa. "Só quem quiser é que vai ter papel".

 

A uma semana e meia da inauguração, só faltava concluir o projecto relacionado com o pagamento de cheques. O banco que nasce com ADN digital não conseguiu fugir a este meio de pagamento. "Bem tentámos", garante Luís Amado, confessando que numa reunião sobre este último projecto, em que havia 32 pessoas, nenhuma tinha um cheque consigo.

 

Mas os Correios, que será um dos clientes importantes, é dos maiores utilizadores de cheques do país. E a partir desta sexta-feira, 18 de Março, no Banco CTT, o cliente é quem mais ordena. 

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