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"O ex-libris da indústria": Ministro da Economia otimista em Milão, mas empresas não escondem receios

António Costa Silva passeou pela MICAM, que arrancou este domingo em Milão, acompanhado pelo secretário de Estado, João Neves.

Ministro da Economia, António Costa Silva, na MICAM em Milão
Sílvia Abreu silviaabreu@negocios.pt 18 de Setembro de 2022 às 22:41
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Eram dez da manhã de domingo quando o ministro da Economia entrou na MICAM – a maior feira de calçado internacional –, onde estão presentes 41 empresas portuguesas. Depois de umas fotografias e uma pausa para o café, e ainda mesmo antes de entrar nos pavilhões do certame, deu por si a receber graxa - António Costa Silva ficou com os sapatos a brilhar.

Dar graxa ao ministro foi o mote para o início de uma campanha promocional da Associação Portuguesa dos Industriais do Calçado, Componentes, Artigos de Pele e Seus Sucedâneos (APICCAPS) em defesa do couro.

Os stands das marcas Cruz de Pedra, Felmini, Manuel Costa, J.Reinaldo e Profession Bottier foram algumas das paragens do responsável pela pasta da Economia. Em cada uma foi procurando pistas sobre o estado do setor, que tantas vezes identificou como "ex-libris do país".

"Vão ser tempos difíceis, mas temos de superar", respondeu Eduardo Avelar, da Profession Bottier. Já Joaquim Ferreira, da Felmini, que se dedica ao mercado a retalho, admitiu que o negócio está a correr bem, apesar de já "não ser com a facilidade de há meia dúzia de anos". "Pensei que havia mais dificuldades, mas não podemos falar muito alto", atirou.

Após citar os dados do primeiro semestre deste ano, em que o setor exportou 40 milhões de sapatos (95% da sua produção), no valor de 957 milhões de euros, António Costa Silva disse acreditar que esta será um ano de recordes. "Vamos bater o recorde das exportações", afirmou confiante.

Mas o otimismo do ministro, que reforçou a importância da acção colectiva nesta crise, não é partilhado por todos e os bons dados da primeira metade do ano não eliminam as preocupações quanto ao futuro.

"As pessoas acham que não compensa trabalhar assim"

Aos 75 anos, Manuel Costa, que tem já uma marca bem consolidada em Oliveira de Azeméis, a SMA, lançou uma própria marca em nome próprio – a Manuel Costa – com um estilo "mais virado para o conforto", explica ao Negócios. Um projecto bem diferente do outro, que "produz sapatos de moda e de salto para as melhores marcas do mundo de sapatos", acrescenta. Atribuí a decisão de se lançar a este desafio "já com 75 quilómetros nos pés" ao "bichinho dos sapatos", que tem desde que começou a trabalhar na área, há 54 anos.

Mas as preocupações de Manuel Costa são muitas e não as esconde. Quando o ministro da Economia visitou o seu stand não pôde estar presente, mas gostava de ter estado. "Deviam ter respeito quando falam dos operários, porque nós queremos que o funcionário trabalhe mais uma ou duas horas e ele não quer porque isso mexe com o escalão do IRS. Tive operários a quem fiz aumentos na ordem dos 60, 70 euros e que passado um mês me disseram: ‘fiz as contas e vamos ter que dar isto ao Estado, prefiro que seja o senhor Manuel a ficar com ele'", conta, apontando que a falta de mão-de-obra é o grande problema do setor.

"Estou muito preocupado com o futuro do setor em Portugal. Se não houver alguém na área dos nossos governantes que faça um estudo sobre aquilo a que chamamos mão-de-obra intensiva para o caso dos sapatos, o setor vai morrer como morreu noutros países", afirma, realçando que "as pessoas acham que não compensa trabalhar assim".

Já sobre o pacote de medidas anunciado na passada semana pelo governo, Manuel Santos pouco tem a dizer: "É sempre para os mesmos, já nem me candidato. Tenho que lutar, esfarrapar os joelhos, porque eu sei que é para os mesmos".

"Preços já colocam freio à procura"

José Pontes tem duas empresas em Guimarães, a Cruz de Pedra – que já vai na terceira geração - e a Campobello – que nasceu há 12 anos. Vem à MICAM há 15 anos, mas se no início dava gosto participar, hoje em dia afirma que "é quase uma obrigação", admitindo que vai apenas porque tem clientes que só trabalham aqui. "Cerca de 95% da nossa produção é para exportação, sobretudo para mercados na Europa e Estados Unidos", revela.

Para já, o negócio corre bem, diz, acrescentando que a Cruz de Pedra faturou sete milhões em 2021. Mas apesar de ter boas perspectivas quanto a este ano, não consegue esconder os receios quanto ao que aí vem. 

"As coisas estão agradáveis em termos de encomendas e trabalho, mas tendo em conta a situação económica não sabemos como vai ser. A inflação sobe, vemos os índices de confiança na Europa a baixar… os sapatos não são vistos como bens de primeira necessidade", assinala.

A mão-de-obra é também um dos assuntos que mais o preocupa, afirmando que a dificuldade em arranjar pessoas para trabalhar obriga a ordenados mais altos e leva a que as empresas do setor "se andem a roubar umas às outras".

José Pontes diz ainda temer que a conjuntura leve a um aumento dos preços do par de sapatos em Portugal. "O calçado português já é hoje em dia o segundo mais caro, com o mercado italiano a desaparecer, vamos ficando no topo da escala. E isso é algo que assusta", admite. Segundo os dados da APICCAPS, entre os principais produtores mundiais de calçado, o país tinha em 2021 o segundo maior preço médio de exportação, 28,60 dólares o par.

"Temos qualidade, mas há outras economias emergentes, como a Turquia ou Marrocos, que começam a ganhar conhecimento e um dia mais tarde vão tornar-se os nossos concorrentes", acrescenta.

Nesta colecção que agora apresenta, para a próxima estação Primavera-Verão 2023, diz que já foi obrigado a aumentar os preços do seu produto.

"Tentamos ao máximo estagnar os preços que tínhamos, mas começou a tornar-se incomportável", afirma. Nesta coleção, revela, os preços vão chegar às lojas com um aumento de 10 a 15%. "A evolução do preço costumava ser de 2%, 3%, 5%. Isto já coloca um freio à procura", conclui.

Sobre a falta de mão-de-obra, o ministro da Economia garantiu que Portugal está a avançar em múltiplas direcções, estando a preparar acordos de mobilidade de trabalhadores com países com mão-de-obra em excesso, como Marrocos, Índia e Indonésia.

 

 
A jornalista viajou para Milão a convite da APICCAPS

 

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