Empresas O euromilhões saiu na Chinatown da Varziela

O euromilhões saiu na Chinatown da Varziela

"Invasão" asiática em 2001 repovoou uma infraestrutura que arriscava a desertificação. A indústria "privatizou" os armazéns a peso de ouro e deu espaço ao maior centro de abastecimento do País.
António Larguesa 29 de fevereiro de 2012 às 14:00
Paisagem urbana chinesa | Um passeio pela Varziela pode trazer reminiscências das ruas mais tradicionais de Pequim.


Ainda a EDP não sonhava ser comprada pela "Three Gorges" e em Vila do Conde já os chineses "salvavam" a Zona Industrial da Varziela de ser igual a tantas outras no País: semi-vazias e sem expressividade económica. Em 2001, um asiático comprou o primeiro armazém. Uma década volvida, 250 das 300 empresas são chinesas, fazendo da maior área industrial deste concelho o principal centro de abastecimento para as lojas em território português, com compradores também em Espanha.

Ao final da manhã, ainda é relativamente calmo o movimento em torno dos armazéns mais periféricos. Uma ou duas bicicletas circulam com um caixote em esferovite atrelado, distribuindo o pequeno-almoço (mais tarde também os almoços) pelos comerciantes, que não param o serviço para comer. A maior parte vem do restaurante chinês (um dos quatro existentes) ao fundo da rua 10, a mais movimentada. À uma da tarde, apenas três mesas estão ocupadas por chineses sozinhos, que sofregamente vão sorvendo os "noodles", enquanto ouvem as notícias na CCTV4, a televisão oficial que recebem por satélite.

Mas por agora, só o ruído dos aviões a sobrevoar o parque em movimento descendente rumo ao Sá Carneiro, agita o ambiente bucólico. A proximidade do aeroporto é um dos motivos para a concentração naquele espaço. Tal como a boa ligação rodoviária ao Porto e a várias outras zonas urbanas do Norte, densamente povoadas, ou a adjacência ao porto de Leixões e à antiga SCUT A28, que liga à Galiza.

"A Varziela seria muito triste sem os chineses, ficaria sem vida, seria igual a tantas outras zonas industriais", relata ao Negócios o presidente da Liga dos Chineses em Portugal, Y Ping Chow. As primeiras empresas fixaram-se na Varziela no final da década de 1980, nas imediações da Fábrica de Mindelo (têxtil), que em breve será transformada num centro empresarial chinês (ver pág. 44). Em 1996, a Siemens (depois Qimonda, agora Nanium) ocupou o lado poente da estrada nacional 13, mas, quando dobra o século, "a zona estava em dificuldades, tornando-se atractiva para a concentração de actividades comerciais étnicas", lê-se no estudo "O comércio de origem chinesa e o espaço comercial da Varziela", publicado em 2009 por Susana Guimarães e José Rio Fernandes.



A frase
"A Varziela seria muito triste sem os chineses, ficaria sem vida. Seria igual a tantas outras zonas industriais que há por aí espalhadas pelo País."
Y Ping Chow - Presidente da Liga dos Chineses em Portugal


"A primeira loja, arrastou a segunda e as outras. Os chineses gostam de ficar ao lado uns dos outros, cooperam e também fazem concorrência entre eles. Senão também não há melhoramento", diz Y Ping. Hoje são 1.500 chineses que fazem desta "uma zona bastante forte para a economia local". A maioria é de Zhejiang, província no Leste, das cidades de Wenzhou e Qingtian, ligadas à diáspora na Europa e Estados Unidos. Vendem sobretudo vestuário, calçado e quinquilharias.

Diversificação pelo luxo Começam a surgir outros negócios para servir a comunidade chinesa. O de vinhos e automóveis foi dos últimos a abrir.


O vizinho bom, o vizinho mau
e o luxo que pontifica
A "JB Cash&Carry" chegou à Varziela em 1998 e José Miguel, o responsável desta loja de revenda de material para papelarias, livrarias e bazares, lembra que "antes de chegarem os chineses a zona estava ligeiramente desertificada". E se à vizinhança não há "nada a apontar", e "em termos de segurança, as coisas ficaram muito melhores porque eles ocuparam os armazéns e estão por aí 24 horas por dia", já a intensa procura asiática fez disparar o valor por metro quadrado.

Muitas empresas acabaram por sair face a convites de aquisição por parte das congéneres chinesas. "Os portugueses venderam-lhes os armazéns por 150, 200 mil contos. A esses saiu-lhes o Euromilhões. Agora eles daqui não saem porque compraram os armazéns todos por um preço elevado", corrobora o dono do restaurante português "Vila Ser", localizado a dez metros da agência do BES, muito frequentada pelos chineses.

Serafim Ferreira foi um dos primeiros a chegar nos anos 1990 e não esconde ao Negócios não ser um entusiasta do predomínio asiático – "não sou racista, até fui criado em França", desculpa-se –, queixando-se da "concorrência desleal". Há 25 anos que não vai de férias. Conduz um Renault. É assim que verbaliza a inveja por ver os chineses cirandar em topos de gama. "Isto é Xangai, ninguém paga a ninguém. Só o que eles deviam pagar de impostos dava para pagar à troika", tenta contabilizar, agastado com a quebra de 50% face a "quando havia muita indústria no parque".



A frase
"Antes de eles chegarem, a Varziela estava ligeiramente desertificada. Em termos de segurança, as coisas ficaram melhores porque ocuparam os armazéns e estão por aí 24h por dia. Em termos de vizinhança não temos nada a apontar."
José Miguel Responsável da loja "JB Cash&Carry" (revenda para papelarias, livrarias e bazares)


Há poucos meses, Serafim viu da janela do estabelecimento "carros que só se vêem nos filmes". Era a inauguração da garrafeira Yang, onde "os consumidores finais são quase só chineses e compram vinho de gama alta", relata Joaquim Rego, um cinquentão que recentemente ascendeu de motorista a ajudante de loja. Tal como viria a acontecer noutros estabelecimentos, os proprietários chineses apontam automaticamente para o funcionário português (quase todos têm um), a quem confiam a tarefa de "porta- -voz" da empresa. São raros os vinhos na montra que não chegam aos dois dígitos. Alguns batem mesmo nos três, como o Barca Velha 1991 (Casa Ferreirinha), que marca 259 euros. Mais cara só a garrafa do Douro, de meio metro, exposta em ostentação no centro de uma loja que ainda cheira a tinta fresca.

O tradicional e muito alcoólico "baijiu" – um licor de arroz que celebra ocasiões especiais, como o fecho de negócios ou casamentos – é o único "representante" chinês. A par, é claro, das motorizadas "Alfa Star", apreciáveis réplicas de "Vespas", estacionadas à porta e que se vendem na mesma loja. Uma porta lateral, em vidro, liga ainda a garrafeira a um mini stand, onde um carro de alta cilindrada aguarda comprador. É que se no início proliferavam apenas os armazéns de roupa, começam a multiplicar-se também lojas de serviços, como restaurantes, supermercados, gabinetes de contabilidade, cabeleireiros e massagistas. "Está a aparecer de tudo um pouco para prestar serviços a este aglomerado de pessoas", destaca o líder da comunidade chinesa.

Podíamos estar num qualquer "hutong" de Pequim. Uma das ruas principais do complexo está ocupada, ao início da tarde, por carros, motas, bicicletas, gente igualmente no meio da estrada, contentores do lixo verdes e muito papelão, que vai sendo recolhido para reciclagem numa bicicleta com atrelado.

Os carrinhos de supermercado, usados como estendal para a roupa, fazem já parte da paisagem da Varziela – ou "eles fazem do passeio público o seu jardim", volta a queixar-se Serafim. Quase indiferentes ao rebuliço, dezenas de chineses encostam-se às paredes caiadas a contar notas. À nossa passagem lançam um olhar curioso, primeiro, e envergonhado, depois.

Henrique consegue identificar bem este espelho de paisagem urbana oriental. Em 2005 visitou o "Império do Meio" com o antigo patrão. Voltou cinco anos depois e já não achou "tanta piada". É o único português na "Génese do Sucesso", que vende manequins e expositores para lojas de vestuário e acessórios.

Além do preço, diz, a grande vantagem é estar junto aos que vendem a roupa, o calçado e as bijuterias que enchem as lojas. Porém, se "há dois anos vendia-se muito bem", hoje mostra o bloco com poucos apontamentos, antecipando a expressão verbal do "negócio um bocado em baixo nesta altura".

Y Ping Chow diagnostica que "está mais ou menos a manter-se o número de chineses, embora haja alguma deslocação e encerramentos" na "Chinatown" do Norte português. "Mas hão-de vir mais para preencher os lugares vazios", confia Y Ping Chow, neto de um dos primeiros imigrantes a chegar em 1930 e filho do chinês que há mais tempo vive em Portugal.



A frase
"Quando os chineses chegaram, os portugueses saíram. Venderam-lhes os armazéns por 150, 200 mil contos. A esses saiu-lhes o euromilhões. Eles agora daqui não saem porque compraram os armazéns todos por um preço elevado."
Serafim Ferreira Propietário do Restaurante e Snack-bar "Vila Ser"