Empresas Roqueiro deixa o baixo para combater corrupção na Petros

Roqueiro deixa o baixo para combater corrupção na Petros

Walter Mendes está a tentar salvar o sistema de pensões dos trabalhadores da Petrobras.
Roqueiro deixa o baixo para combater corrupção na Petros
Bloomberg
Bloomberg 12 de agosto de 2018 às 11:00

À frente da Petros, um fundo de pensão de 80 mil milhões de reais no Brasil, Walter Mendes enfrentou défices multibilionários, processou ex-dirigentes e deixou de lado uma das suas paixões - tocar baixo numa banda de rock.

 

E Walter Mendes está pronto para mais.

 

Mendes, presidente da Petros, o sistema de pensões da Petrobras, prepara-se para novas batalhas judiciais para tentar recuperar pelo menos parte do dinheiro perdido pelo fundo nos últimos anos devido a investimentos duvidosos que agora são alvo de investigações de corrupção.

 

"Acabámos de entrar com o nosso primeiro processo de responsabilização e compensação", revelou Mendes, numa entrevista, no escritório da Bloomberg em São Paulo. "Certamente não será o último."

 

A Petros exige uma indemnização de 584 milhões de reais a 10 ex-directores e conselheiros, incluindo dois ex-presidentes, por prejuízos na aquisição de uma participação na Itaúsa - Investimentos Itaú SA da construtora Camargo Corrêa, em 2010, a preços considerados injustos.

 

As lutas de Mendes com o passado do fundo ficaram claras desde o início. No seu terceiro dia no cargo, em 2016, a polícia iniciou uma investigação sobre supostos actos de corrupção nos maiores fundos de pensão do país, entre eles a Petros. Ele negociou uma cooperação plena com os procuradores em troca de um acordo para evitar buscas nos escritórios do fundo ou nas residências dos funcionários, cena que se tornou comum no Brasil.

 

O executivo de 62 anos iniciou uma investigação interna na Petros, propôs mudanças nos estatutos do fundo e contratou quatro dos maiores escritórios de advocacia do Brasil para avaliar quais os processos judiciais que vale a pena perseguir. E ele tem pressa: parte dos 80.000 trabalhadores que contribuem para a Petros está a pagar um valor extra para ajudar a cobrir o défice - de quase 31 mil milhões de reais nos últimos dois anos no principal fundo -, e alguns destes trabalhadores estão a processar a Petros por isto.

 

Não faltam exemplos de más decisões de investimento. Uma delas foi a participação na Sete Brasil Participações, empresa criada para construir uma frota de sondas, que faliu devido a um enorme escândalo na Petrobras. A Petros também investiu na Companhia Brasileira de Tecnologia Digital, empresa que lutou na Justiça com a Apple pelos direitos de marca iPhone no Brasil - e perdeu. Mendes preferiu não detalhar quais são os outros processos que o fundo está a analisar.

 

Como parte da reforma, Mendes reorganizou a área de investimento do fundo, que, segundo o próprio, andava a tomar decisões irracionais, e criou controlos internos para impedir nomeações políticas. Além disso, acelerou o ritmo de desinvestimentos, levantando mais de 6,4 mil milhões de reais com a venda de participações em empresas como Itaúsa e CPFL Energia, além de activos imobiliários. A maior parte do dinheiro foi usado para comprar títulos do governo conhecidos como NTN-B, que pagam uma taxa de juros fixa mais a inflação, considerando que a queda do mercado no Brasil tornou os rendimentos mais atraentes, disse Daniel Lima, director de investimentos da Petros, na mesma entrevista.

 

"Aumentámos o nosso fundo de caixa, ganhámos flexibilidade e, por isso, não precisamos de vender mais nenhum activo", garantiu Lima. Embora o fundo não tenha pressa, a conclusão da tão aguardada venda da sua participação na produtora de minério de ferro Vale pode acontecer até o fim do ano, segundo o mesmo responsável.

 

A luta pela melhoria da Petros teve um custo pessoal. Ao mudar de São Paulo para o Rio de Janeiro, sede do fundo, Mendes teve de deixar de tocar baixo no Black Zornitak, uma banda de rock com músicas inspiradas em finanças como "Too Big To Fail" e "Manager’s Advice". Colegas de banda incluem nomes bem conhecidos do mercado financeiro do Brasil, incluindo Marcelo Giufrida, CEO da Garde Asset Management.

 

"O nosso maior desafio é como criar estruturas para evitar uma interferência política e actos incorrectos depois de sairmos", disse Mendes. "Quem sabe depois de eu passar este desafio na Petros volto para o show business?"

 

(Texto original: A Rocker Puts Down his Bass to Fight Corruption at $22 Billion Fund)