Entrada de países do Golfo na guerra é "como uma manada de elefantes a entrar numa fábrica de vidro"
Nuno Ribeiro da Silva assume que o impacto energético da guerra poderá aumentar caso outros países do Golfo, que estão entre os maiores produtores de petróleo e gás do mundo, entrem no conflito. Portugal está protegido da escassez física da matéria-prima.
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A possibilidade de que outros países do Médio Oriente possam entrar na guerra que opõe Estados Unidos e Israel ao Irão é equivalente a "uma manada de elefantes a entrar numa fábrica de vidro", uma vez que "há uma parte muito importante do petróleo e do gás que alimenta e é redistribuída pelos importadores que está envolvida" neste conflito, explica no programa do Negócios no NOW, Nuno Ribeiro da Silva, consultor e especialista em energia.
O responsável antecipa ainda que, numa altura em que os mercados vivem períodos de enorme volatilidade em que "há essencialmente uma preocupação com a perspetiva futura a curto prazo", o nervosismo dos investidores poderá aumentar a par da "confusão em torno de quem está envolvido no conflito". Ainda assim, Portugal é um dos países que está relativamente protegido desta turbulência, argumenta o antigo secretário de estado da Energia entre 1986 e 1991.
"Na Bacia Atlântica estamos relativamente confortáveis, somos afetados através do aumento dos preços, mas do ponto de vista físico há grandes produtores de petróleo e gás na Bacia Atlântica, quer na América do Norte, Central e do Sul, quer no Norte de África e na costa ocidental africana, ou seja, temos uma situação de certo conforto", explicou o especialista.
Se, por um lado, os países africanos têm sido beneficiados pelo aumento do preço do barril nos mercados internacionais, o que poderá dar um contributo positivo às suas finanças, por outro, "tudo o que implique instabilidade naquela zona do Médio Oriente e do Estreito de Ormuz e do Mar Vermelho, faz com que produtores fora desse estrangulamento ganhem alguma credibilidade e atratividade, pelo menos porque não estão expostos a esse risco", salienta Nuno Ribeiro da Silva.
No casos mais próximos de Portugal, "temos Angola, e Moçambique com o gás natural que começou a produzir e que tem reservas extremamente significativas, e também a Namíbia, onde a Galp está envolvida, temos ainda a relação com a Argélia e o gás argelino" e no ano passado, "o Brasil foi o principal fornecedor de petróleo a Portugal", recorda.
"Baixar o IVA de 23% para 10% é uma medida não desejável e desaconselhada"
Quanto às medidas que têm sido tomadas a nível nacional para fazer face à subida do preço dos combustíveis, como o desconto que tem sido aplicado no ISP, o antigo CEO da Endesa diz que tem de existir "um escalonamento das medidas que podem ser ativadas para mitigar estas situações de crise e, sobretudo, distinguir o que é uma crise conjuntural do que possa vir a ser uma crise mais estrutural - que não acredito que venha a acontecer já".
O responsável pede "prudência" nas medidas e afiança que "não é, de todo, desejável que se tomem medidas com uma profundidade que afete o caminho das políticas energéticas, apenas porque há uma trovoada". O exemplo da decisão do governo espanhol que baixou o IVA de 23% para 10% "é uma medida não desejável e desaconselhada pela própria União Europeia", sinalizou.