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Consórcio luso aposta 57 milhões na construção de três fábricas de insetos em Portugal

A Agenda InsectERA, que agrega também a criação de uma unidade produtiva de quitosano, entre outras estruturas, integra 38 empresas e centros de investigação e prevê atingir a industrialização de, pelo menos, 43 novos produtos e serviços à base de insetos para o mercado.

Rui Neves ruineves@negocios.pt 17 de Novembro de 2021 às 11:00
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Consumo de insetos: esta prática de dois mil milhões de pessoas começa a ser equacionada no mundo ocidental, sendo desde 2013 defendida pela Organização para a Alimentação e a Agricultura (FAO) como solução estratégica para o aumento da sustentabilidade alimentar e de alternativas nutricionais.

 

A propósito, já é possível comprar em Portugal alimentos à base de insetos, depois de, em junho passado, a Direção-Geral da Alimentação e Veterinária (DGAV) ter autorizado o consumo de produtos que contenham sete espécies: duas de grilo, um besouro, dois tipos de larva e dois gafanhotos.

 

Neste quadro, um consórcio de 38 empresas e centros de investigação nacionais está apostado em investir 57,4 milhões de euros para "colocar Portugal na vanguarda da indústria dos insetos", com a criação de três novas fábricas de produção de insetos, uma de produção de quitosano, um suplemento natural com base em cascas de crustáceos, e um centro logístico.

 

A localização destes investimentos ainda não está fixada, mas Santarém surge no topo da lista de preferências, seguindo-se as regiões do Alentejo e de Leiria, adiantou ao Negócios fonte próximo do consórcio.   

 

Agenda InsectERA, eis como se chama o consórcio promotor de um projeto "pretende desenvolver a industrialização, comercialização e exportação de produtos inovadores à base de insetos, com soluções para a área alimentar (animal e humana), indústrias da cosmética e dos bioplásticos, bem como para o setor da biorremediação, através da criação de soluções de valorização de resíduos orgânicos", avança, em comunicado enviado às redações, esta quarta-feira, 17 de novembro.

 

Um projeto de investimento candidatado ao Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), com as entidades que fazem parte do consórcio promotor a comprometer-se com um financiamento próprio de 19,3 milhões de euros.

 

"A um horizonte de quatro anos", o investimento prevê alocar 25,6 milhões de euros a I&D e 29,5 milhões de euros em investimento produtivo, "contemplando ainda montantes relevantes para recursos humanos, qualificação e internacionalização das organizações envolvidas e promoção dos resultados", detalha a Agenda InsectERA, que prevê "gerar cerca de 140 novos postos de trabalho e mais de 23 milhões de euros em receitas em 2025, ano de conclusão dos investimentos".

 

Além das quatro unidades industriais e de um centro logístico, o projeto contempla "investimentos com obras de construção ou adaptação, aquisição de equipamentos produtivos, incluindo sistemas de climatização, de processamento e de biodigestão, equipamentos de laboratório de controlo de qualidade, embalamento e instalação de painéis solares".

 

Com este programa de investimento, a Agenda InsectERA prevê atingir "a industrialização de, pelo menos, 43 novos produtos e serviços à base de insetos para o mercado".

 

O consórcio envolve três produtores de insetos em Portugal (Ingredient Odissey, Thunderfoods e The Cricket Farm Co.), a consultora de inovação tecnológica INOVA+, os laboratórios colaborativos B2E CoLab, Colab4Food, FeedInov CoLab e IPlantProject CoLab, empresas como a Auchan, Mendes Gonçalves, Agromais, Silvex, Mesosystems, Sorga, Savinor, Nutrifarms, PetMaxi, Sensetest ou Solfarco, assim como as universidades do Porto, Lisboa e Aveiro, a Nova de Lisboa e a Católica, o INEGI e o INESC TEC, entre outras entidades.

 

"Afirmar Portugal num setor inovador atualmente dominado por outros países"

 

"Os insetos são uma solução que vem reforçar a sustentabilidade ambiental no setor agroalimentar, trazendo mais eficiência à cadeia de valor e maior respeito pela utilização de recursos naturais. Com o envolvimento de todo o setor agroalimentar poderemos colocar Portugal na vanguarda desta indústria, protegendo o 'know how' português e elevando a tecnologia nacional a outro patamar", afiança Daniel Murta, porta-voz da Agenda InsectERA e CEO da Ingredient Odissey.

 

"Este é um investimento estratégico, podendo tornar-se num marco histórico, uma vez que permite que Portugal se afirme num setor inovador atualmente dominado por outros países", enfatiza o mesmo responsável.

 

Já Nuno Soares, business vevelopment officer da INOVA+, considera que "o apoio contínuo a esta Agenda Mobilizadora tira partido da nossa experiência na estruturação de projetos de I&D e Inovação de elevada complexidade, escala e com efeitos estruturantes na economia", com "a submissão do projeto no quadro do PRR" a representar "uma janela de oportunidade para apostar em novos nichos e áreas de mercado com potencial disruptivo e aproximação aos países europeus pioneiros nesta área".

 

A Agenda InsectERA pretende, assim, "investir para endereçar um mercado de crescimento exponencial e explorar inovadoras soluções tecnológicas na utilização de insetos como matérias-primas".

 

De resto, lembra a Agenda InsectERA, "até 2030 estima-se uma produção de 260 mil toneladas de produtos à base de insetos na Europa, entre os quais insetos inteiros, ingredientes de insetos e produtos incorporados com insetos comestíveis", enquanto "no setor europeu da alimentação para animais, a previsão é de uma produção de 500 mil toneladas em 2030, quando até ao início de 2021 eram produzidas apenas 10 mil toneladas de ração à base de proteína de insetos".

 

No entanto, assegura, "existem outras opções de exploração do potencial da produção de insetos em áreas ainda pouco exploradas como a da cosmética e dos produtos de bio refinaria".

 

A Agenda InsectERA tem como objetivos principais "o desenvolvimento de produtos, processos e serviços de base biotecnológica e suportados na valorização de recursos sustentáveis (insetos); contribuir para a diversificação e fortalecimento da competitividade do tecido empresarial português face a economias internacionais; colocar no mercado internacional de novos produtos e serviços, assentes em desenvolvimentos de base científica; e promover investimentos sustentáveis em cadeias industriais, que incidam sobre a redução de consumos de energia por fontes não renováveis e a redução de consumos de produtos importados, para além da redução de emissões de CO2".

 

Criação de 13 novas linhas de produtos para alimentação humana com base em insetos  

 

A Agenda InsectERA está estruturada em quatro eixos principais de atuação com objetivos definidos. A saber:

 

- O eixo InFood, para a utilização de insetos como fonte nutricional alternativa saudável e sustentável em produtos alimentares inovadores, tem como meta um mínimo de 13 novas linhas de produtos para alimentação humana com base em insetos;

 

- O eixo InFeed, para a utilização de insetos como fonte nutricional numa alimentação animal mais sustentável e de origem local, tem como meta um mínimo de 5 novas linhas de produtos (rações) para alimentação animal;

 

- O eixo InIndustry, para a utilização de produtos derivados de insetos como novas matérias-primas para a indústria, como a da cosmética ou do bioplástico, tem como meta o desenvolvimento e industrialização de quatro novas matérias-primas (quitosano, óleo de inseto, ácido láurico e extratos naturais de insetos) para indústrias de soluções farmacêuticas, cosmética e plástico, bem como um mínimo de nove produtos finais inovadores;

 

- O eixo InBiorremediation, para a utilização de insetos como ferramenta de biorremediação e solução para desafios ambientais, como a eliminação de efluentes pecuários e resíduos orgânicos urbanos, tem como meta investimentos em I&D e criação de um centro de investigação em biorremediação na Estação Zootécnica Nacional (INIAV).

 

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