Tensões comerciais ditam queda de 80% nos lucros da Altri em 2025
Depois de um ano "financeiramente difícil", o grupo antecipa um impacto significativo das tempestades nos resultados do primeiro trimestre. Já a guerra no Irão, diz, tem no curto prazo efeitos nos custos energéticos, mas dependendo da duração pode afetar os da logística, químicos e madeira.
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A Altri registou um resultado líquido de 21,4 milhões de euros em 2025, o que reflete uma queda de 80,1% face aos 107,2 milhões apurados um ano antes.
Em comunicado à CMVM, a produtora de pasta de papel adianta que as receitas totais atingiram 702,8 milhões de euros, menos 17,8% face aos 855,3 milhões de 2024, o que justifica com a “evolução menos favorável dos preços das fibras hardwood, como consequência de um ambiente global menos favorável para o setor”.
Já os custos totais reduziram-se 4,4% para 608,7 milhões, levando o EBITDA a situar-se em 94,1 milhões de euros, um valor que compara com 218,3 milhões em 2014, refletindo um recuo de 56,9% “essencialmente afetado pelos preços da pasta nos mercados internacionais (impacto das tarifas) e desvalorização do dólar", diz.
A Altri refere que o mercado global de pasta registou uma evolução bastante volátil durante o ano de 2025 e que “a reativação de início de 2025 foi interrompida pelos anúncios dos EUA de, a partir de abril, estabelecer tarifas a grande parte das importações, levando a um abrandamento da procura global de pasta”. O grupo acrescenta que “com as medidas e tarifas a aplicar pelos EUA a estabilizarem, começámos a ver algum dinamismo na procura nos últimos meses de 2025 e início de 2026”.
José Soares de Pina, CEO da Altri, sublinha na mensagem que acompanha a divulgação das contas de 2025 que “num cenário marcado por grande volatilidade nos preços das fibras, tensões comerciais e flutuações cambiais, mantivemos a nossa capacidade de adaptação”, tendo a empresa produzido 1,1 milhões de toneladas de fibras, um crescimento de 1,1% face a 2024.
“Num ano financeiramente difícil, a evolução dos custos foi novamente num sentido de melhoria pelo segundo ano consecutivo, refletindo o empenho das nossas equipas, a disciplina operacional e a busca constante pela otimização de processos”, sublinha.
“O ano de 2026 parece evidenciar sinais de melhoria para o setor, especialmente na Ásia, onde a recuperação da procura tem sustentado a progressão dos preços. Apesar das incertezas geopolíticas globais, os fundamentos do mercado mantêm-se sólidos”, diz ainda o CEO.
Tempestades com impacto nos resultados
Relativamente aos constrangimentos registados durante o primeiro trimestre de 2026, decorrentes do impacto provocado pelas intempéries em Portugal, a Altri, diz José Soares de Pina, prevê “uma normalização da situação no curto prazo”.
O grupo refere que as tempestades afetaram as suas unidades industriais, sendo que “além de danos patrimoniais e perdas de inventário, maioritariamente cobertos pelas apólices de seguro ativas, acresceram paragens, necessárias para restabelecer o normal funcionamento operacional”.
Os principais efeitos sentidos nas unidades industriais foram, diz, um dia de paragem na Celbi (e 3 dias com volumes de produção condicionados), 11 dias de paragem na Biotek (e 3 dias com volumes de produção condicionados) e 1 dia de paragem na Caima (e 6 dias com volumes de produção condicionados).
Além destas restrições, houve ainda desafios adicionais relacionados com a logística, refere ainda, indicando que o porto da Figueira da Foz, principal canal de escoamento da pasta para o mercado europeu e receção de matéria-prima, “encerrou durante várias semanas e só em março começa a retomar a normalidade”.
Apesar de frisar que já em março, “praticamente todo o funcionamento operacional do grupo foi retomado”, a Altri alerta que “as restrições sentidas durante as semanas das intempéries terão impacto significativo nos resultados do primeiro trimestre de 2026 dados os custos logísticos acrescidos, menor nível de produção, maiores consumos de energia (causados pela instabilidade nas unidades industriais) e menor produção de energia excedentária".
Já relativamente à guerra no Irão, a Altri diz que “os efeitos que sentimos a curto prazo são essencialmente relacionados com o aumento dos custos energéticos”, ainda que “mitigados pelos instrumentos de cobertura contratados”. No entanto, salienta que “dependendo da duração, poderemos ver impactos indiretos adicionais que se relacionam com prováveis pressões inflacionistas de custos com logística, químicos e madeira, via aumentos dos preços dos fornecedores, a refletir os seus próprios custos mais elevados”.
Investimento aumenta
O investimento líquido total realizado pela Altri em 2025 foi de 48,4 milhões de euros, o que compara com 30 milhões de euros em 2024.
A dívida líquida atingiu 329 milhões em dezembro, o que compara com 213,6 milhões no final de 2024, um aumento que diz que era “já expectável no nível de investimento relacionado com os vários projetos de diversificação. O rácio de dívida líquida/EBITDA era de 3,5 vezes.
Na apresentação das contas, o grupo salienta que continua a desenvolver vários projetos de diversificação e crescimento alinhados com o seu plano estratégico, onde se insere a recuperação e valorização do ácido acético e furfural de base renovável na Caima, que deverá estar concluído no primeiro semestre de 2026, e a migração da produção da Biotek para fibra solúvel com conclusão prevista para o final deste ano.
Sobre o projeto Gama, na Galiza, o grupo “reitera que se mantém empenhado na avaliação do projeto, aguardando decisão sobre a licença ambiental integrada, condição importante na tomada da decisão final de investimento, assim que todas as condições estiverem reunidas”. Como refere, em 2025 "o projeto obteve a Declaração de Impacto Ambiental favorável, e foi ainda reforçado o compromisso com a região e os produtores de madeira", acrescentando que “tem ainda dado passos para garantir uma alternativa para a conexão elétrica, apesar da exclusão do projeto da planificação elétrica espanhola até 2030, com o objetivo de manter o estatuto de Projeto Industrial Estratégico”.