Revistas ao preço da chuva
Vender revistas para salas de espera é o lema da Multimagazine. A ideia foi posta em prática por dois amigos que, um dia, se viram no desemprego.
Vender revistas para salas de espera é o lema da Multimagazine. A ideia foi posta em prática por dois amigos que, um dia, se viram no desemprego. Se é verdade que quem espera sempre alcança, não é menos verdade que quem espera desespera. É da crença neste segundo ditado popular que nasceu a Multimagazine, uma micro-empresa com seis meses de vida, que comercializa revistas para salas de espera com o objectivo de ajudar os utentes a passar melhor o tempo.
A ideia é simples: a empresa coloca, mensalmente, 15 revistas nas salas de espera , para todos os gostos, por cerca de 12 euros mensais. Um valor que permite ao cliente, sobretudo clínicas e consultórios médicos, economizar mais de 75 por cento do valor que representaria a sua compra em banca. Estes títulos são sobras de edições recentes que a Multimagazine compra por um preço simbólico às editoras.
A ideia de tornar mais agradável a passagem por uma sala de espera foi importada da Bélgica por João Esteves, 32 anos, um dos promotores do projecto. Por razões familiares, João estudou Ges
tão em Turismo e trabalhou cinco anos como gerente numa loja de produtos informáticos naquele país do Norte da Europa onde conheceu o conceito. Nas visitas a Portugal, sondava se tal negócio teria hipóteses no mercado luso.
Durante quatro anos, a ideia de clonar o projecto em Portugal fermentou na sua cabeça. Acabou por acontecer quando, de regresso a território nacional, João se viu a engrossar as estatísticas do desemprego. Um amigo de longa data, Miguel Maurício, de 33 anos, com formação em "marketing", estava, exactamente, nas mesmas condições, por isso, decidiram criar os seus próprios postos de trabalho.
No centro de emprego, onde estavam inscritos, candidataram-se a um subsídio não reembolsável disponível para esse fim.
A candidatura não foi fácil. Desde logo, era necessário um projecto de viabilidade. Sem dinheiro para o custear, pensaram que teriam de ficar por ali. Não ficaram. Mexeram-se e souberam que a Câmara Municipal de Loures apoiava empreendedores, mesmo de fora do concelho, ajudando-os, precisamente, a preparar este tipo projectos. Lá encontraram o apoio, o ânimo e, claro, o projecto que lhes permitiu aceder ao subsídio.
Vinte mil euros foi de quanto precisaram para arrancar: cinco mil euros para o capital social , que lhes saiu do bolso, mais 15 mil euros de subsídio para comprar material informático e duas carrinhas para fazer a distribuição. O escritório, na Praça de Alvalade, em Lisboa, não representou qualquer custo porque resultou do apoio de um terceiro sócio, só de capital, que lhes cedeu instalações.
João e Miguel, são desde Março, sócios-gerentes da Multimagazine e contabilizam 130 clientes, menos do que esperavam nesta altura, "talvez fruto do espectro da crise e das férias de Verão que atrasaram decisões". Operam na Área Metropolitana de Lisboa mas ambicionam ter uma actuação nacional e atingir os mil clientes em dois anos. Starbucks, British Hospital, Instituto do Coração, são alguns dos clientes que angariaram através do contacto directo, quase porta-a-porta, com que se dão a conhecer.
A maior dificuldade que têm enfrentado está no desinteresse de alguns gestores que - apesar de cada revista destas sair mais barata do que um jornal -, consideram que "as revistas cor-de-rosa que lá têm são mais do que suficientes". João e Miguel discordam: são os pequenos pormenores que marcam a diferença em relação à concorrência e ter leitura de qualidade e recente demonstra respeito pelos clientes.
Por enquanto, as contas estão longe de estar equilibradas. Mas os gestores estavam preparados para resistir sem ordenado mais de seis meses. Nesta fase, já "não devemos nada a ninguém, só a nós próprios", sublinha João Esteves. Agora, precisam de trabalhar para chegar aos 300 clientes. Nessa altura, o negócio será sustentável e não precisarão de ir todos os dias jantar a casa dos pais.