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AMT alinhada com Concorrência defende operadores fora da gestão dos terminais rodoviários

A Autoridade da Mobilidade e dos Transportes também advoga pela separação vertical para "não haver juízes em causa própria" no acesso aos terminais rodoviários e por mudanças nas sanções face às coimas "baixíssimas" e à impossibilidade da retirada de licenças de forma definitiva a quem incumpre.

Ana Paula Vitorino, presidente da AMT, foi ouvida numa audição sobre acesso aos terminais rodoviários.
Ana Paula Vitorino, presidente da AMT, foi ouvida numa audição sobre acesso aos terminais rodoviários. Miguel Baltazar
07 de Janeiro de 2026 às 13:17

A Autoridade da Mobilidade e dos Transportes (AMT) defende o fim da possibilidade de operadores serem em simultâneo concessionários dos interfaces e terminais rodoviários em linha com , advogando pelo lançamento de concursos para a gestão, embora admita ser "ficção" pensar que tal possa acontecer em menos de cinco anos, assim como um regime "reforçado" de sanções.

A posição da AMT foi apresentada no âmbito de uma série de audições no Parlamento, iniciadas em dezembro, a requerimento da Iniciativa Liberal sobre a falta de transparência, equidade e discriminação no acesso aos terminais rodoviários de serviço expresso do país, nomeadamente, nas regiões centro e sul de Portugal continental, numa altura em que a Flixbus e Rede Expressos mantêm um braço de ferro por causa do acesso ao terminal de Sete Rios, o mais importante da capital.

Mas, segundo revelou, esta quarta-feira, a presidente da AMT, a operadora alemã interpôs outros três recursos: um contra a Transdev (Coimbra), outro contra a Rodoviária do Tejo (Fátima) e outro contra a Rodoviária do Oeste (Caldas da Rainha), as duas primeiras pertencentes também ao Grupo Barraqueiro.

Na audição da Comissão de Infraestruturas, Mobilidade e Habitação, a presidente da AMT revelou ainda que a grande maioria dos terminais não observa a legislação: "Dos 163 terminais inscritos na base de dados do IMT [Instituto da Mobilidade e dos Transportes] apenas 32% é cumprem - e mal. Mesmo entre os que têm [o seu próprio regulamento] muitos deles não dão cumprimento ao que é exigido no regulamento 3/2025 da AMT nomeadamente quanto às regras de acesso e seriação de pedidos de acesso – a maior parte não é claro e muitos deles inclusive nem sequer publicam o tarifário associado aos vários serviços, que não é só estacionamento".  

Apesar disso, rejeitou que haja "uma bandalheira nos transportes", como acusou um deputado do Chega, apontando que "há um quadro regulatório que é aplicado", mas que "nem todos são bem comportados". "Nós aplicamos contraordenações, mas isto não é um regime ditatorial, graças a Deus, pelo que existe reclamação da outra parte. Há alguns que reagiram com ação contra a AMT e temos de responder. Todos estão sujeitos à mesma legislação".

Propostas para mudar a lei

Para a presidente da AMT, a atual lei, de 2019, que regula as condições de acesso a interfaces e terminais rodoviários de passageiros, é "boa, mas "curta", dado que lhe faltam "disposições fundamentais para gerir o sistema com equidade". "Houve evoluções múltiplas e variadas por toda a Europa e está na altura de serem internalizadas".

E, neste sentido, apontou, a "grande alteração" a introduzir passa pela "segregação vertical", de modo a "evitar a acumulação de funções" e a "promover a neutralidade do gestor", porque um terminal rodoviário não é uma garagem particular: "Não pode a entidade que é gestora ser ela também utilizadora desse terminal (...). Não se pode ser juiz em causa própria".

Este é o ponto nevrálgico na guerra aberta entre a Flixbus e a Rede Expressos em Sete Rios.  A Rede Expressos insiste em recusar dar acesso à concorrência ao terminal, argumentando que não só "não é viável", como "colocaria em causa a segurança de passageiros, trabalhadores e bens" e  (AMT) que , contestando que haja capacidade disponível para acolher novos operadores na infraestrutura, que gere, mas é da propriedade da Câmara Municipal de Lisboa. Face ao impasse, os alemães da FlixBus, que falam em  por força do bloqueio, contra a empresa controlada pelo Grupo Barraqueiro pela .  

A AMT defende em concreto que se devem "criar regras de gestão de concessão por via concursal", mas com limitação de prazos. "Somos contra a gestão 'ad eternum': Há formas de introduzir concorrência e nas infraestruturas é ir ao mercado de X em X tempo e, portanto, lançar concursos para a gestão dos terminais". E também a criação de um regime de acesso à atividade de gestão de terminais e a certificação obrigatória dos mesmos.

Ana Paula Vitorino reconheceu que o atual cenário - que não se cinge a Sete Rios ou a Lisboa - resulta de uma "herança pesada" e que "separar completamente a gestão do terminal da sua utilização "não é uma coisa que se mude de um dia para o outro". E apontou, aliás, que pensar que tal pode estar feito "em menos de cinco anos é ficção", não só porque são precisas alterações legislativas como "um prazo para adaptação do mercado".

A dirigente da AMT quis esclarecer, no entanto, que não quer dizer que seja obrigatório ser um privado a gerir as infraestruturas, a maior parte delas da propriedade dos municípios. "O que dizemos é que tem de ser feito com regras claras, que tem de haver requisitos para fazerem essa gestão que tem de ser feita de forma independente relativamente à operação. Aliás, existem variadíssimos municípios que têm os seus próprios sistemas, as suas próprias empresas de transportes públicos".

E se forem privados há outras vias de garantir essa separação. "O país tem larga experiência nisso, em que concorrem não as empresas-mãe, mas as entidades criadas especificamente para aquele fim. Na ferrovia existem mecanismos de salvaguarda, como declaração de interesses. A empresa X mudar para o nome X1? Não pode ser só assim, mas pode haver outras maneiras de haver participação, até porque o nosso mercado é relativamente pequeno e é difícil existir novos protagonistas e é natural que possam surgir parcerias".

Sanções mais duras

Outra proposta da AMT - também em linha com a AdC - vai no sentido de se criar "um regime reforçado de sanções", com o organismo a advogar, como resultado de "benchmarking" que fez a nível europeu, que seja "em função do volume de negócios".

Mas Ana Paula Vitorino deixou claro que as mexidas devem ir além das coimas "baixinhas" e entrar nas sanções acessórias. "Qualquer pessoas pergunta: Se não cumpre porque não lhe tiram a licença? Porque não há base legal. Podemos impedir que sejam dadas mais, mas não retirar. Não existe regime legal claro e que propomos que passe a existir".

A AMT sugeriu também, num relatório que afirmou ter acabado de enviar ao Governo e ao Parlamento, que seja criada "uma plataforma digital com elementos de caracterização física dos terminais, como repositório oficial e fonte única de informação nacional" para que "qualquer operador possa chegar a esta base e saber as regras e lugares de paragem disponíveis".

 

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