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“Os taxistas lá terão a razão deles, mas eu preciso de ir ao médico”

Os taxistas condicionaram esta sexta-feira o trânsito no centro de Lisboa para reivindicar o fim da plataforma Uber, que acusam de ser ilegal. Mais de três mil carros desfilaram pelas ruas da capital, lançando o caos nos transportes públicos e deixando muita gente sem transporte.

Bruno Simões brunosimoes@negocios.pt 29 de Abril de 2016 às 18:23
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Debaixo de um sol intenso, Maria Ofélia Soares, de 88 anos, olha com espanto para as dezenas de táxis parados no meio da Avenida dos Estados Unidos da América, em Lisboa, ali bem perto da rotunda de Entrecampos. Parece estranhar que nenhum pare para a transportar. Será que não sabe o que está a acontecer? "Sei sei, estão a protestar contra a Rover, não é?", responde. Não é bem isso, é a Uber. "Ah, sim, isso. Pois, os taxistas lá terão a razão deles, mas eu preciso de ir ao médico e gostava que algum me levasse", desabafa.

 

Munida de uma bengala e com os óculos de sol colocados, Ofélia parece acreditar que ainda poderá ter sorte. "Precisava de ir ao médico e precisava de ir entregar o IRS, deixei tudo para hoje que era para não ter de sair duas vezes de casa", explica. O IRS ainda está em papel, pelo que pretende dirigir-se ao balcão serviço de Finanças. Os transportes parecem não ser opção, não tem nenhum familiar que a leve? "Tenho um filho que está no Parque das Nações, depois tenho outro que está em Oeiras", responde. Não será fácil ainda conseguir entregar o IRS dentro do prazo, que termina esta sexta-feira. Caso consiga pedir a algum familiar que faça a entrega pela internet, o prazo termina amanhã, mas tem de ter uma password.

 

Mais de três mil carros desfilaram pelas ruas da capital, lançando o caos nos transportes públicos e deixando muita gente sem transporte.
Mais de três mil carros desfilaram pelas ruas da capital, lançando o caos nos transportes públicos e deixando muita gente sem transporte.



Os mais de três mil táxis, segundo o presidente da Antral, que esta manhã partiram da rotunda junto ao Campus de Justiça, no Parque das Nações, provocaram engarrafamentos na cidade e nos transportes públicos, que esta manhã estiveram particularmente cheios. Para Agostinho Carvalho, de 69 anos, dono do táxi em que o Negócios acompanhou a marcha lenta, o objectivo é mesmo causar problemas.

 

"Isto não é contra ninguém, mas o maior impacto que pode ter é cortar vias de acesso e mostrar às pessoas que os táxis são importantes. As pessoas só dão importância quando deixam de ter as coisas", lamenta. Agostinho está reformado há quatro anos, mas não quis perder a oportunidade de lutar pela profissão em que trabalhou durante 35 anos. O filho mais novo é que conduz agora a viatura.

Taxistas com "instruções fortes" para não haver violência

 

A marcha decorreu praticamente sem incidentes, até porque havia "instruções fortes" para que não houvesse violência nem confrontos com eventuais motoristas da Uber que aparecessem pelo caminho. As palavras de ordem foram, durante todo o percurso, "Uber ilegal é crime nacional", que foram sendo repetidas ao megafone por vários elementos da Federação Portuguesa do Táxi e da Antral (Associação dos Transportadores Rodoviários em Automóveis Ligeiros).

 

Desde o início que a marcha estava impecavelmente organizada, com diversos elementos a distribuir bandeiras, a orientar o trânsito, a transmitir quando é que era preciso sair do carro ou continuar a marcha. Apesar de tudo, a marcha arrancou com um atraso de 22 minutos, e parou várias vezes pelo caminho. A primeira foi depois do aeroporto, na rotunda do Relógio. O objectivo, segundo um outro taxista, Agostinho Dias, era "bloquear isto tudo", ou seja, o trânsito, que ainda circulava no sentido contrário, em direcção ao aeroporto.

 

Agostinho Carvalho, 69 anos, foi o taxista que deu boleia ao Negócios durante a marcha lenta.
Agostinho Carvalho, 69 anos, foi o taxista que deu boleia ao Negócios durante a marcha lenta.



Os primeiros metros foram percorridos a passo de caracol, com a buzina e outro tipo de gaitas a serem constantemente premidas, assinalando, de forma a não deixar qualquer sombra de dúvidas, que a comitiva estava a chegar.

 

O 44 não passou

 

Junto à rotunda José Queiroz, onde a comitiva demorou quase 20 minutos a chegar (apesar de só distarem uns 500 metros do local de partida), a Dona Piedade, de 78 anos, estava "danada" porque teve de vir a pé desde a gare do Oriente até junto da pastelaria Gardunha, onde trabalha numa casa. "Eu estava à espera do [autocarro] 44 mas ele não apareceu…", lamentou. "Isto é chato, por causa deles vim a pé desde cascos de rolha. Apanhei a carreira até ao Oriente mas depois já não vi mais nada", acrescentou.

 

E o que pensa da manifestação dos taxistas? "Coitadinhos, eu não sei, acho que devem ter razão. Mas também me parece que eles cobram o que querem quando a gente anda com eles, não é?", interroga.

 

Mas também há quem defenda os taxistas, apesar do incómodo desta manhã. Ao longo de toda a marcha, diversas pessoas (na sua maioria idosas) batiam palmas e erguiam os polegares, saudando estes profissionais. Quando passou pela escola secundária das Piscinas, a comitiva foi recebida com gritos de diversas crianças, que filmavam e fotografavam os táxis. Um rapaz que aparentava ter 12 anos gritava, sozinho: "os taxistas unidos jamais serão vencidos". Seria filho de um taxista?

 

O Jau está a ladrar à Uber

 

Também Cátia Mota, empregada de limpezas de 29 anos, considera que o facto de a Uber não pagar as licenças e as taxas a que os taxistas são obrigados a torna ilegal, o que legitima o protesto. "Honestamente, acho que isto é desleal. Por isso concordo com esta greve dos táxis", afirma, lamentando ainda que as rotas da Uber sejam "muito mais compridas, por causa do GPS deles, que aumenta as distâncias".

 

À janela da rua Dom Carlos I, junto à Assembleia da República, o cão Jau, um rafeiro de seis anos, acompanha a marcha com a dona, Fátima Vieira, que está noutra janela a apreciar a comitiva. O cão ladra sempre que alguém se aproxima dele. "Ele está a ladrar à Uber. O meu marido está a ser muito prejudicado. Ele tem uma empresa de transporte de passageiros, trabalha com hotéis, e já nota que as pessoas começam a pedir Uber, já não precisam de pedir aos hotéis para os irem buscar", conta.

 

Mas de que é que se queixam os taxistas? "A mim chateia-me que eles não estejam legalizados. É concorrência desleal. A Uber quer liberalizar o sistema, mas ele tem que ser regulado. Além disso, eles não praticam preços fixos", enumera Agostinho Carvalho. O assessor de imprensa da FPT, Carlos Silva, explica que "o sector do táxi não pode concorrer com alguém que faz dumping", isto é, que vende serviços abaixo do que eles custam.

 

Os taxistas alegam que têm de pagar uma formação especial, são obrigados a possuir uma licença e um certificado de aptidão profissional, ao passo que os condutores da Uber só precisam de ter carta de condução. Ao Negócios, Carlos Ramos, da FPT, estima em 20% a quebra de negócio do sector dos táxis por causa da Uber. "Dêem-nos as mesmas condições ou obriguem a Uber a cumprir as mesmas condições que nós", apelou.

 

Mais de 5.000 carros? A polícia fala em menos de 3.000

 

Até ao início da tarde, a manifestação decorreu sem incidentes, tendo sido acompanhada em todo o percurso por um forte policiamento da PSP, que o subcomissário Hugo Abreu, responsável pelas relações públicas desta força da autoridade, não quis quantificar, falando apenas em centenas de agentes. "A Divisão de Trânsito assegurou o primordial da operação de policiamento, depois havia várias divisões e também 12 elementos da Equipa de Prevenção e Reacção Imediata (EPRI)", que se deslocam de motorizada, dois em cada, sendo que o de trás, de capacete e passa-montanhas, segura uma caçadeira.

A marcha estava impecavelmente organizada, com diversos elementos a distribuir bandeiras, a orientar o trânsito, a transmitir quando é que era preciso sair do carro ou continuar a marcha.
A marcha estava impecavelmente organizada, com diversos elementos a distribuir bandeiras, a orientar o trânsito, a transmitir quando é que era preciso sair do carro ou continuar a marcha.



O aparato desagradou a alguns taxistas. Quando viram esta equipa, um grupo deles comentou: "para que é que é preciso isto? Somos criminosos ou quê?".

 

Florêncio de Almeida estimou ao Negócios que no início da manifestação estariam cerca de 3.500 táxis, depois de passar no aeroporto. O assessor de imprensa da Federação Portuguesa do Táxi chegou a adiantar ao Negócios que, durante a paragem na câmara de Lisboa, estariam no total 5.000 carros na rua. O subcomissário Hugo Abreu põe água na fervura. "Deviam lá estar menos de 3.000 carros", adiantou, assinalando que não se trata de números oficiais.

 

Medina e Moreira juntos com os taxistas

 

Na câmara de Lisboa, onde os representantes dos taxistas estiveram reunidos com o presidente Fernando Medina durante largos minutos, o balanço foi positivo. De acordo com Carlos Ramos, presidente da FPT, Medina terá dito que "a Uber desenvolve uma actividade ilegal e que a forma como os serviços são prestados pela plataforma também é ilegal". "O presidente está completamente solidário com a nossa luta. É um incentivo moral receber frases como as que nos endereçou", afirmou Florêncio Almeida, da Antral.

 

A câmara de Lisboa afirmou, em comunicado enviado à Lusa, que "é urgente proceder a alterações na legislação de exercício da actividade de transporte passageiros". No Porto, o vice-presidente da Antral, José Monteiro, disse ter igualmente a solidariedade de Rui Moreira, presidente da câmara do Porto, onde também houve uma marcha esta manhã.

 

Os representantes da FPT e da Antral reuniram-se com a chefe de gabinete do presidente da Assembleia da República e com deputados de vários grupos parlamentares. Florêncio Almeida chegou a ameaçar que a manifestação não iria desmobilizar junto à Assembleia da República enquanto não chegasse um membro do Governo para se reunir com a delegação.

O PS anunciou, entretanto, que iria solicitar audições a diversas entidades ligadas ao transporte de passageiros.

 

O regresso de Uber

 

Para regressar à redacção, e uma vez que os táxis estavam (quase) todos estacionados junto à Assembleia da República, o Negócios chamou um Uber. O veículo demorou cerca de 10 minutos a chegar ao local combinado na aplicação, e era, de facto, bem mais apelativo que a maioria dos que se manifestara: uma carrinha BMW série 3, preta, impecavelmente cuidada por dentro e sem qualquer vestígio de sujidade.

 

O conselho que o motorista dá aos taxistas passa precisamente por aí. "Tentem melhorar o vosso serviço. Para que as pessoas não se queixem do mau cheiro, da falta de simpatia".

 

O condutor, ou parceiro Uber, chamava-se Ricardo e tinha 37 anos. Ao Negócios, contou que trabalhou no aeroporto antes de decidir trabalhar para esta plataforma de mobilidade. E recusa que esteja ilegal. "Tenho tudo em dia, pago vários seguros, pago impostos. E não é qualquer um que pode fazer isto. Temos de enviar uma série de documentação que é analisada pela Uber", enumera.

 

Mas Ricardo admite que "tem de ser feita qualquer coisa em termos de legislação". "Nós estamos legais, mas isto tem de ficar mais esclarecido, e não podemos aceitar que os taxistas nos façam o que quiserem", afirma. O condutor reconhece que tem receio de ser identificado e "isso não pode acontecer, não tenho de me esconder de ninguém". "Tenho receio por mim, pelo carro e pelos passageiros", explica, lembrando que já teve duas situações "caricatas" no aeroporto de Lisboa, sendo numa delas bloqueado por um táxi.

 

Durante a viagem que o Negócios fez, caíram no telemóvel de Ricardo pelo menos quatro pedidos de transporte, que não aceitou.

 

No final, a viagem de sete quilómetros e de 28 minutos custou 8,46 euros. Um valor em linha com o que é cobrado pelos taxistas.

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