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Aconselhamento fora do ritmo

Os gestores de conta estão a dar música aos seus clientes: os objetivos comerciais do banco sobrepõem-se aos interesses dos aforradores

Deco Proteste 02 de Setembro de 2013 às 08:51
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Os intermediários financeiros não estão a cumprir a Diretiva dos Mercados de Instrumentos Financeiros. Esta regulamentação obriga os bancos e outras instituições financeiras a fazerem um inquérito aos seus clientes para aferir quais os produtos mais adequados ao seu perfil. Porém, apenas 7% dos inquiridos portugueses revelou que preencheu um questionário sobre o seu perfil de investidor, o que é uma falha muito grave dos intermediários financeiros, mostra o nosso mais recente inquérito aos aforradores. Não conhecendo os seus clientes, é natural que as recomendações que os investidores recebem sejam muitas vezes desadequadas. A falha é ainda comprovada pelo facto de apenas em 52% dos casos o investidor ter sido questionado sobre os seus objetivos de investimento, em 42% sobre o horizonte temporal de investimento e em 31% sobre a sua tolerância ao risco, todos fatores decisivos na escolha de um produto.


O nosso inquérito, que, além de Portugal, foi realizado na Bélgica, em Espanha e em Itália, indica que os gestores de conta e os funcionários bancários são a principal fonte de conselhos financeiros recebidos pelos investidores lusos. Mais de 90% dos aforradores que recorreram a algum tipo de aconselhamento obteve-o através do gestor de conta ou do funcionário que estava ao balcão do banco.


A desadequação dos instrumentos financeiros aconselhados resulta frequentemente numa baixa satisfação com o conselheiro financeiro. Em Portugal, o nível de satisfação global atribuído pelos investidores é de 6,5 numa escala de 0 (muito insatisfeito) a 10 (muito satisfeito). Entre os países analisados, apenas os espanhóis se mostram mais insatisfeitos do que os portugueses no aconselhamento financeiro que recebem, ao passo que os italianos estão razoavelmente agradados com os seus conselheiros financeiros.


Informação deficiente
O item de avaliação que gera maior satisfação dos investidores (mas, ainda assim, com uma avaliação inferior a 7) é o da disponibilidade dos conselheiros financeiros. Entre os aspetos que suscitam menor satisfação, destacam-se sobretudo a comparação entre produtos de diferentes intermediários financeiros, a proatividade para disponibilizar informação adicional e o conhecimento das preferências do cliente. Embora estejam disponíveis para os seus clientes, nem sempre a informação partilhada pelos conselheiros financeiros é suficiente. Na maioria dos casos, elementos como comissões de subscrição e de resgate e a maturidade do produto (data de vencimento) não foram referidos pelo intermediário financeiro. Além disso, o risco, a liquidez (facilidade em reaver o dinheiro em qualquer altura), as penalizações por resgate antecipado e o regime fiscal são também muitas vezes omitidos.


Em contrapartida, aquilo que os investidores mais esperam do seu conselheiro financeiro é que explique os assuntos corretamente (77% dos casos) e que seja bem qualificado (70%), o que denota uma clara divergência com aquilo que, na prática, sucede em muitas situações.


Falta de independência
Nem tudo o que lhe diz o seu gestor de conta ou o funcionário ao balcão é de confiança. De facto, a independência dos conselheiros financeiros é outro dos aspetos que levanta dúvidas aos investidores. Com efeito, numa escala de 1 a 10, em que 1 corresponde a claramente influenciados por objetivos comerciais e 10 totalmente independentes, os portugueses atribuíram um grau de independência de 6,4 ao seu principal conselheiro financeiro, um valor relativamente baixo e que mostra que os objetivos comerciais do banco por vezes sobrepõem-se aos interesses dos clientes. Além disso, à pergunta sobre se sentiu pressão do seu conselheiro financeiro para subscrever o produto recomendado, um quinto dos inquiridos disse que sentiu alguma ou muita pressão. Ainda assim, a grande maioria (85%) diz que confia, pelo menos na maior parte das vezes, nos conselhos que recebe do seu conselheiro financeiro. Além disso, apenas 43% dos inquiridos estariam dispostos a pagar para ter a certeza de que os conselhos de investimento que recebem são completamente independentes, apesar de, em 58% dos casos, as pessoas terem mencionado a independência como uma das características que esperam que o seu conselheiro financeiro tenha.


Crise não altera hábitos
Outro aspeto que procurámos avaliar é se o comportamento financeiro mudou depois da crise financeira de 2008. E, também aqui, as conclusões não são as ideais: 62% dizem que não notaram qualquer diferença nos conselhos e nas informações que recebem por parte do seu principal conselheiro financeiro. Os restantes 38% notaram alguma diferença, nomeadamente no que diz respeito à informação prestada sobre o produto, aos riscos que lhe estão inerentes e, finalmente, sentiram que são encaminhados para aplicações financeiras com um risco menor.

Por sua vez, do lado dos investidores, apenas 61% diz que alterou o seu comportamento no que diz respeito a investimentos desde o início da crise financeira, principalmente no sentido de privilegiar produtos de baixo risco, averiguar bem as garantias e a liquidez do produto.


Esteja informado
Aconselhamos os nossos leitores a averiguar sempre todos os detalhes dos produtos financeiros antes de os subscrever, a não investir em aplicações cujo funcionamento desconhece e a não acreditar em tudo o que lhe dizem, porque, como se comprova pelo nosso estudo, pode não ser suficiente para tomar uma boa decisão e, por vezes, até pode haver imprecisões ou erros na informação que lhe é transmitida. A PROTESTE INVESTE vai continuar a esclarecer os investidores sobre todos os temas relacionados com investimentos, a identificar as melhores oportunidades para aplicar as suas poupanças e a lutar pelos legítimos interesses dos pequenos aforradores. Boas ou más decisões de investimento podem significar muitos euros acumulados a mais ou a menos no futuro.

 

 

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