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OCDE: (Quase) nenhuma empresa portuguesa quer cotar em bolsa

Mais de duas centenas e meia de empresas não listadas questionadas pela OCDE dizem que não tem o objetivo de dispersar capital em bolsa. Manter o controlo é o principal motivo apontado.

Sérgio Lemos
Patrícia Abreu pabreu@negocios.pt 04 de Junho de 2020 às 10:14
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O mercado de capitais português tem sentido dificuldades em atrair novas empresas e em segurar as que estão listadas. Apenas nas duas últimas décadas, a bolsa portuguesa perdeu mais de dois terços dos emitentes e as perspetivas para novas entradas no mercado são desanimadoras. Segundo um estudo conduzido pelo OCDE, são (muito) poucas as que equacionam estudar uma dispersão de capital em bolsa nos próximos três anos.

 

Nas duas últimas décadas, o mercado acionista português passou de ter 148 empresas listadas para apenas 55, o resultado de saídas de bolsa, que não foram acompanhadas por novas operações. Segundo um inquérito realizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) junto de mais de duas centenas e meia de empresas, no âmbito de um projeto dinamizado pela Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), que visa contribuir para o desenvolvimento do mercado de capitais português, a maioria das companhias portuguesas não tem como objetivo cotar em bolsa.

 

Ainda que o reduzido número de empresas cotadas na bolsa se tenha tornado mais nos últimos anos, fruto da saída de grandes capitalizações, como a Brisa, BES ou a Portugal Telecom, o relatório realça que a maioria das saídas de bolsa ocorreram antes da crise financeira de 2008. E se foram muitas as companhias a fazerem o seu rumo para fora do mercado, poucas foram as que entraram. Olhando para o mercado principal da bolsa portuguesa, desde dezembro de 2013, mês que os CTT se estrearam na bolsa que mais nenhuma fez uma oferta pública inicial (IPO).

 

Numa tentativa de perceber o que está a afastar as empresas do mercado de capitais e qual o papel que a bolsa pode ter enquanto canal de financiamento, a OCDE questionou 270 empresas nacionais e a conclusão não deixa dúvidas: "a grande maioria das companhias questionadas não considera a possibilidade de se tornar uma empresa listada". Em 270, apenas 11 admitem que estão a ponderar uma entrada em bolsa nos próximos três anos. Destas 11, seis dizem que querem cotar em Portugal, enquanto duas revelam preferência por um mercado no estrangeiro.

 

Questionadas sobre as razões de quererem dispersar capital em bolsa, a maioria aponta a maior visibilidade e o prestígio como o principal motivo para avançar para o mercado, bem como uma maior monitorização externa. O melhor acesso a outras fontes de financiamento, menores custos de capital e levantar capital são outras das razões apontadas para avançar para o mercado.

 

Banca como alternativa

 

Entre as 259 que adiantaram não considerar uma dispersão de capital, 30 delas revelou já ter levantado informação sobre o processo de entrada em bolsa, contudo acabaram por deixar cair a intenção de dispersar capital. Mais de três terços das empresas aponta a regulação complexa, requisitos de "compliance" e governo das sociedades e reduzida liquidez do mercado como as principais razões para não avançar para o mercado.

 

Além dos entraves apontados, dois terços das empresas referem que os bancos garantem melhores opções de financiamento, face à bolsa. Por outro lado, as próprias empresas consideram-se demasiado pequenas, realçando ainda o tempo consumido pelo processo para o IPO e os custos associados.

 

Entre as empresas que nem planeiam um IPO, nem consideraram essa hipótese em momento algum, a larga maioria aponta a questão do controlo, argumentando que "os nossos acionistas não querem partilhar o controlo com outros".

Mais uma vez, os custos de estar cotado, o baixo nível de liquidez e a regulação são outros dos entraves referidos por mais de metade das empresas.

Mas o que teria de mudar, então, para que as empresas considerassem entrar em bolsa? Mais de 80% das empresas inquiridas diz que requisitos mais simplificados ao nível do reporte e da "compliance", procedimentos de cotação mais simples, um enquadramento para segmentos de mercado alternativos e requisitos de "governance" flexíveis iriam contribuir para criar um ecossistema de mercado bem-sucedido em Portugal.

 

Tal como acontece na maioria das economias europeias, o tecido empresarial português é dominado por pequenas e médias empresas, mas em Portugal a dimensão é ainda mais reduzida. Mais de 95% das sociedades não financeiras em 2016 eram micro-empresas, enquanto as pequenas e médias empresas representavam 4% e 0,6%, respetivamente. Apenas 0,1% das empresas portuguesas tinha mais de 250 empregados, conclui o relatório. Um fator que também pode contribuir para o reduzido interesse no mercado como uma alternativa de financiamento.

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