Produtos estruturados - Não se deixe enganar pela publicidade
Aliciados pela publicidade de remunerações elevadas, cada vez mais portugueses estão a investir em produtos estruturados. Mas a maioria são demasiado complexos, têm "truques" difíceis de perceber, e que podem traduzir-se em perdas. Conheça a diferença entre os "slogans" e a oferta real dos bancos nacionais.
A crise actual afastou muitos portugueses dos mercados accionistas. Em busca de refúgio, muitos têm procurado produtos de risco mais baixo. A grande maioria seguindo os "slogans" apelativos dos bancos nacionais que, nos últimos meses, reforçaram a criatividade dos produtos comercializados. Cativados por taxas de remuneração de 8 ou 10% com asteriscos, foram muitos os investidores que deslocaram as suas poupanças para produtos estruturados, com uma complexidade tal que torna difícil a sua compreensão. Resultado: os investidores arriscam-se a ficar amarrados a produtos financeiros de baixo retorno e, em alguns casos, com perda de capital.
"Valor duplo", "duplo investimento" ou "super rendimento" são apenas alguns exemplos de expressões fáceis de entrar ao ouvido e ainda mais de agarrar a atenção de quem, confrontado com a necessidade de fazer render o seu dinheiro, procura novas soluções de investimento. São também estes os nomes de três produtos estruturados que fazem parte da actual oferta da banca tradicional. Mas, ao contrário do que o nome indicia, nenhum deles tem uma fórmula mágica.
O "Valor duplo multi-opção", do Millennium bcp, é um dos melhores exemplos de como os produtos estruturados podem ser uma rasteira para o seu dinheiro. Constituído em 50% por um depósito com uma taxa de juro fixa de 5% brutos no primeiro ano, e com os outros 50% aplicados num entre dez fundos de investimento do próprio banco, incluindo Planos Poupança Reforma (PPR), este produto pode levá-lo a incorrer em perdas. Isto porque, assumindo um investimento inicial de 5.000 euros e considerando a rendibilidade em 12 meses (-9,04%) do fundo Millennium Moderado (um dos menos negativos do leque de opções), o investidor pode chegar ao final de um ano com um saldo de 4.874 euros. Um prejuízo de 226 euros.
Também o Banif oferece um modelo semelhante, o "Duplo investimento", que tem mais de metade do capital aplicado num fundo de investimento imobiliário de baixa liquidez. Ainda assim, com maior retorno (4,25% em 12 meses). A mesma simulação permite gerar uma mais-valia final de 222,23 euros.
Se acha que estes produtos já são muito complicados, espere até confrontar-se com a alta complexidade da oferta do Santander Totta. O depósito de capital garantido "Super rendimento BRIC" oferece-lhe, no máximo, 16% em 24 meses. Contudo, pressupondo a valorização de dois índices bolsistas, um deles de mercados emergentes, mas o investidor ganha apenas 70% da diferença no desempenho entre os dois. Tendo em conta as rendibilidades históricas dos índices, a simulação do Jornal de Negócios resulta num ganho de 640 euros. Mas se está convicto no potencial de valorização dos dois índices, o investimento directo poderá dar-lhe um retorno de 1.095 euros. Este sim, mais perto do "super".
Enquanto o Santander lhe promete "bossa nova", o BPI dá-lhe o "samba". Dependente da valorização do real contra o dólar americano, no "Brasil 14% + 2008/2010" o seu investimento poderá render entre 14% e 140%. Ou seja, o saldo final poderá chegar aos 12 mil euros. Basta que a moeda brasileira suba ou mantenha o valor actual em relação à divisa dos Estados Unidos. Se não acontecer, o capital é sempre garantido.
A mesma segurança é oferecida pelo "Caixa Oil 10%", mas o potencial deste estruturado é bem distinto. O retorno final é limitado a 10%, mas é necessário que todas as petrolíferas que compõem o cabaz a que o produto está indexado – Eni, Total e Repsol – valorizem nos próximos 12 meses.
Em busca de melhores opções
O "segredo" para quem investe num produto estruturado é saber ler nas entrelinhas. Aí reside a diferença entre ganhos e perdas. É que a complexidade da estrutura deste tipo de aplicação, por vezes, não compensa o risco. Existem no mercado outras opções mais simples e também conservadoras, que oferecem retornos senão melhores, pelos menos semelhantes. Alguns, de menor risco. É o caso dos tradicionais depósitos a prazo e dos certificados de aforro. Quem aplicar os mesmos 5.000 euros num depósito a prazo, e assumindo o juro médio de 4,19% bruto praticado pelas instituições financeiras nacionais, em Maio, poderá ter um retorno de 167,60 euros no final de 12 meses. Montante que supera, por exemplo, o potencial do "Valor duplo multi-opção" do Millennium bcp. É também bastante próximo do retorno simulado para o "Duplo Investimento" do Banif. E com grande facilidade de mobilizar o capital, o que não se verifica em alguns dos estruturados, uma vez que muitos deles obrigam ao investimento num fundo gerido pelo próprio banco.
Também os certificados de aforro, um dos instrumentos de poupança mais populares em Portugal, podem ter mais vantagens. Apesar de as novas regras terem penalizado o seu rendimento, os certificados continuam a oferecer rendibilidades próximas de alguns estruturados. Com a garantia de ter elevada liquidez e não incorrer em perda de dinheiro. A mesma simulação aplicada aos certificados, tendo por base um juro de 3,966%, perfaz um total de 5.198,30 euros num ano.
Bancos "on-line" são os mais criativos
Os bancos "on-line" são os mais criativos na construção de produtos estruturados. Procuram cativar os investidores com a oferta de depósitos com as taxas de juro mais altas do mercado, mas só aparentemente. É que esta componente garantida do investimento é muito curta, durando, na maioria dos casos, dois a três meses. É este o caso do "Activo mais melhores talentos", comercializado pelo ActivoBank7, que oferece um juro bruto de 6%, que convertido nos dois meses representa uma taxa líquida anual de 0,8%. O mesmo acontece com as restantes ofertas "on-line". O Banco Best, por exemplo, chega a oferecer uma taxa bruta de 10% no terceiro mês do depósito dual "Market Neutral". Comum, é o facto de a maioria do dinheiro investido ser aplicada em fundos de investimento. Face ao cenário simulado, com base em rendibilidades históricas que não são garantia de retornos futuros, o produto do ActivoBank7 é o mais vantajoso. Mas desde que a escolha recaia no fundo de obrigações da PIMCO.

