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Dívida da máfia italiana vendida a investidores internacionais

Nos últimos anos, foram vendidas obrigações endossadas a empresas de fachada acusadas de estarem ao serviço do grupo de crime organizado ’Ndrangheta, avança o Financial Times.

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Negócios jng@negocios.pt 07 de Julho de 2020 às 19:49
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Investidores internacionais compraram obrigações endossadas às receitas do crime do grupo mafioso mais poderoso de Itália, segundo documentos financeiros e jurídicos a que o Financial Times teve acesso.

 

Num dos casos, as obrigações – parcialmente subordinadas a empresas fantasma que tratam dos negócios do grupo mafioso ’Ndrangheta – foram compradas por um dos maiores bancos privados da Europa, o Banca Generali, numa transação em que os serviços de consultoria foram prestados pela EY, sublinha o jornal britânico.

 

Estima-se que tenha sido vendido o equivalente a mil milhões de euros destas obrigações privadas entre 2015 e 2019, de acordo com intervenientes do mercado obrigacionista.

 

Algumas destas obrigações eram garantidas por ativos que mais tarde se veio a saber que foram criados por empresas de fachada para o ’Ndrangheta.

 

O ’Ndrangheta não é tão conhecido fora de Itália como a máfia siciliana, mas tem vindo a ascender nas últimas duas décadas, tendo-se tornado um dos grupos criminais mais abastados e temidos no mundo ocidental, com atuação no tráfico de cocaína à escala industrial e à lavagem de dinheiro, extorsão e contrabando de armas, refere o FT.

 

A Europol, agência responsável por garantir o cumprimento da legislação da UE, ajudando os Estados-membros a lutar contra a grande criminalidade, estima que as atividades do ’Ndrangheta – que não assume a forma de uma organização centralizada mas sim a forma de centenas de clãs autónomos – gera receitas totais de 44 mil milhões de euros por ano.

 

Entre outros investidores nestas obrigações estão fundos de pensões, fundos de cobertura de risco e "family offices" (grupos especializados na gestão financeira de fortunas familiares) – todos eles procurando outras formas de receberem elevados retornos numa altura de baixas taxas de juro, segundo as pessoas envolvidas nestas transacções e citadas pelo Financial Times.

 

A maioria dos ativos titularizados nestas transacções eram legítimos, mas alguns deles provinham de empresas que mais tarde se descobriu serem controladas por alguns clãs do ’Ndrangheta – que conseguiam assim branquear dinheiro, aproveitando o apetite dos investidores por instrumentos de dívida exóticos.

 

Uma das transações obrigacionistas levada a cabo por investidores internacionais continha ativos vendidos por um campo de refugiados na Calábria, que haviam sido adquiridos pelo crime organizado.

 

A maioria destes negócios foi realizada de forma privada, sem obterem a notação de uma agência de rating nem serem negociados em mercados financeiros.

 

Quando contactado pelo FT, o Banca Generali disse não ter conhecimento de quaisquer problemas com os ativos subjacentes às obrigações que comprou para os seus clientes e que sempre recorreu a intermediários para fazerem a verificação contra operações de lavagem de dinheiro nas suas carteiras de base.

 

O CFE, uma boutique de investimento sediada em Genebra, criou o veículo que vendeu as obrigações a investidores como o Banca Generali. O CFE diz nunca ter comprado quaisquer ativos com o conhecimento de que estavam ligados a atividades criminosas.

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