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Objetivo de 10 GW em 2030 é “muito ambicioso”

António Sarmento, CEO da Wavec - Offshore Renewables, e Clara Moura Santos, vice-presidente para Operations and Maintenance da Principle Power, duvidam de que a capacidade em infraestruturas esteja instalada para se ter 10 GW em eólicas offshore em menos de uma década.

Rute Coelho 14 de Dezembro de 2022 às 14:30
Para 2030 prevê-se uma capacidade instalada em 30 turbinas eólicas de 500MW DR
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Dois dos principais players no futuro mercado das eólicas offshore em Portugal apresentaram uma visão realista da capacidade instalada para se atingir a meta de produção de 10 GW de eletricidade por esta via em 2030, fixada pelo Governo de António Costa, no debate sobre "Energia eólica offshore: o potencial de Portugal e da Europa", uma iniciativa do Jornal de Negócios e do Fórum Oceano, organizada pelo Jornal de Negócios e o Fórum Oceano, com o patrocínio da Câmara Municipal de Oeiras e com o apoio institucional do gabinete do secretário de Estado do Mar. Este webinar conta com o patrocínio da EDP.

António Sarmento, CEO da Wavec - Offshore Renewables, e Clara Moura Santos, vice-presidente para Operations and Maintenance da Principle Power, não duvidam do potencial de Portugal na eólica offshore, mas estão certos de que dificilmente o país conseguirá cumprir a meta dos 10 GW de energia produzida a partir dos ventos turbinados em plataformas marítimas em menos de uma década.

No entanto, ambos concordam com os sinais positivos enviados para o mercado através deste objetivo ambicioso e do leilão internacional que será lançado em 2023. "Provavelmente os 10 GW poderão ser atingidos em 2035 ou mais tarde, o importante é que a indústria perceba que há vontade de explorar um recurso que exige muito investimento o que só é justificável com um horizonte mais ambicioso. Se concretizarmos até ao fim desta década 3 ou 4 GW já estamos muito bem. Vai ser muito difícil até por causa da cadeia de valor, é preciso a indústria estar preparada para entregar todos os equipamentos e serviços. E depois isto é uma questão europeia, ainda mais agora com a guerra da Ucrânia", afirmou António Sarmento, CEO da Wavec - Offshore Renewables (empresa que oferece soluções na área de energias renováveis marinhas, aquacultura offshore e engenharia dos oceanos).

Na Escócia, instalámos há um ano cinco plataformas com turbinas de 9,4 MW, é o maior parque flutuante do mundo e tem cerca de 50 MW de capacidade instalada. Clara Moura Santos
vice-presidente para Operations and Maintenance da Principle Power
O mesmo ceticismo pragmático é partilhado pela Principle Power, empresa portuguesa que desenvolveu três estruturas para o parque Wind Float Atlantic de Viana do Castelo, outras cinco para a Escócia e está a construir três plataformas para França, em parceria com a Ocean Winds - Offshore Wind Energy.

"Estamos no mercado de eólica offshore flutuante desde 2011. Primeiro testámos a tecnologia em protótipo, depois tivemos o parque Wind Float Atlantic, em Viana do Castelo, que é casa de oito plataformas com turbinas eólicas de 8,4 MW e mais ou menos 25 MW de capacidade instalada. Na Escócia, instalámos há um ano cinco plataformas com turbinas de 9,4 MW, é o maior parque flutuante do mundo e tem cerca de 50 MW de capacidade instalada", afirmou Clara Moura Santos, vice-presidente para Operations and Maintenance da Principle Power.

Obstáculos no processo

É com estes créditos firmados no que ainda é um nicho de mercado em Portugal que a executiva da Principle Power garante que o país precisa de elevar as condições para cumprir a tal meta dos 10 GW em 2030. "A tecnologia existe, está aprovada e pronta para a escala. Os portos existem, mas para projetos com três ou cinco turbinas eólicas. Quando estamos a falar de 30 turbinas eólicas num total de 500 MW temos de pensar que é preciso os materiais, a infraestrutura, e que tudo isto é alimentado por vários aspetos de suplly chain". São obstáculos normais no processo. "Estas dificuldades todas que vamos sentir em Portugal já foram sentidas noutros países com uma indústria offshore mais forte do que a nossa. O que é preciso é direção do Governo e dos policymakers para que isto possa acontecer", frisou Clara Moura Santos.

Um país que se apresente com riscos ou processos de licenciamento mal definidos é crítico. Corremos o risco de os nossos concursos ficarem desertos. António Sarmento
CEO da Wavec - Offshore Renewables
A Principle Power é "líder de mercado no fornecimento desta tecnologia" e afirma-se "em boas condições de suportar os promotores para apresentação das propostas no leilão" da offshore eólica em 2023.

António Sarmento, CEO da Wavec - Offshore Renewables, assegura que para além do cluster de energias marítimas de Viana do Castelo, "ao longo de toda a costa portuguesa é possível ter energia eólica offshore flutuante". O problema é que não há capacidade nem rede para suportar a quantidade de energia gerada prevista. "Há hoje dificuldade de fazer o aumento de potência que se prevê, por exemplo, com parques eólicos em terra", sublinha o executivo da Wavec. "Não sei de quem é a responsabilidade mas chegámos a uma situação crítica. O ponto mais crítico do plano de energia eólica offshore é a REN (Redes Energéticas Nacionais) ter capacidade para fazer as alterações que precisa de fazer no horizonte, a cadeia de fornecimento e de licenciamento, passar redes de alta tensão pelo país. São projetos bastante onerosos", observa António Sarmento. "É por isso também que alguns promotores têm estado a promover soluções em que a energia eólica é utilizada para produzir o hidrogénio verde como forma de fugirem a este constrangimento. Isto porque há certas indústrias que precisam de consumir gás e podem ser recipientes com quem eles contratam diretamente a energia." Na mira destas empresas estarão "grandes utilizadores, cimenteiras, indústria de papel, entre outros, que precisam de consumir grandes quantidades de energia em forma de combustível". Rute Coelho