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António Horta Osório: “A redução da dívida devia ser uma prioridade”

Um dos principais condicionalismos para o futuro de Portugal está na dívida pública que, por causa da pandemia, voltou a ultrapassar os 130% do PIB. “Se as taxas de juro passarem para 2%, significará mais 2,5 cento do PIB, cerca de 5 mil milhões de euros”, alerta António Horta Osório.

Filipe S. Fernandes 02 de Dezembro de 2021 às 14:00
António Horta Osório vê o PRR como uma oportunidade para criar mais concorrência. Duarte Roriz
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A subida das taxas de juro não é só uma questão de política monetária mas é inevitável porque as taxas de juro negativas na Europa não fazem sentido a médio prazo. "A questão é o grau de subida das taxas de juro, mais do que se devem ser aumentadas ou não, defendeu António Horta Osório, chairman do Credit Suisse.

A este tema crucial para o sistema financeiro juntam-se as questões globais mais importantes que são a questão da interrupção das cadeias de produção do comércio internacional, ligada a tendências protecionistas, e do enorme aumento do custo de energia e o aumento generalizado dos preços e se isso se vai traduzir em expectativas de aumento da inflação.

"O risco que os bancos centrais correm é se a inflação prova não ser temporária, o que poderá provocar um ajustamento monetário muito mais intenso do que seria necessário, e se as taxas de juro subirem agressivamente terão impacto muito grande nas economias, sobretudo nas mais endividadas, como Portugal", considerou António Horta Osório.

Um dos principais condicionalismos para o futuro de Portugal está na dívida pública que, por causa da pandemia, voltou a ultrapassar os 130% do PIB. "Deveríamos ter como prioridade reduzir a dívida porque, mais tarde ou mais cedo, as taxas juros subirão e o encargo dessa dívida pode tornar-se incomportável. Se as taxas de juro passarem para 2%, significará mais 2,5% do PIB, cerca de 5 mil milhões de euros", alerta António Horta Osório.

O exemplo irlandês

Neste contexto, "Portugal tem um desafio muito importante de longo prazo, e de que não se fala muito, ou seja, porque é que Portugal cresce 1% ao ano nos últimos 20 anos, isto é, nada, e, por exemplo, a Irlanda cresce 5% ao ano?", questionou António Horta Osório. Neste período, os irlandeses dobraram o crescimento médio, portanto, o salário médio líquido por pessoa em Portugal é de cerca de mil euros por pessoa e na Irlanda é o dobro.

Tem causas profundas, como a falta de concorrência, de inovação, e do desafio demográfico da população. Nos próximos 30 anos, se nada for feito, Portugal vai ter menos um milhão de pessoas. "Isto parece-me um problema muito importante para posicionar em termos de médio e longo prazo. Os sucessivos governos pensam em ciclos mais curtos mas a sociedade portuguesa tem de pensar nisto", disse António Horta Osório.

O chairman do Credit Suisse considera que a sociedade portuguesa tem de discutir a alocação de recursos do Estado. "Temos um rácio de despesa pública sobre o PIB da ordem dos 42, 43%, o que há dez anos era de cerca de 50%", mas Portugal está a alocar o dinheiro para despesas correntes em vez de investimentos.

António Horta Osório vê no PRR uma oportunidade para criar mais concorrência que "leva à qualidade e a melhores serviços para os consumidores, apoiar a inovação, a investigação e o desenvolvimento das empresas portuguesas, o que se traduziria num crescimento maior. Basta olhar para o que fizeram a Irlanda ou faz Singapura e outros países da nossa dimensão, que têm crescido muito mais".

A marca digital O Jornal de Negócios realizou a 18 de novembro de 2021, no Hotel Ritz, mais uma edição do Grande Encontro: Banca do Futuro. "O digital tem sido um tema transversal, o que revela o cunho digital tanto do Jornal de Negócios, que foi o primeiro jornal económico digital em Portugal, como a Claranet, que foi o primeiro fornecedor de internet comercial do nosso país e hoje é líder nas tecnologias em Portugal", referiu António Miguel Ferreira, managing director Iberia and Latin America da Claranet na abertura da conferência. Esta contou com a abertura institucional de Mário Centeno, governador do Banco de Portugal, como keynote, Diogo Mónica, cofundador e presidente da Anchorage Digital. O primeiro debate foi sobre "Os Desafios das Moedas Digitais" e contou com Nuno Sousa, head of Business Development Financial Services da Claranet Portugal, Miguel Morais, Risk Advisory Leader da Deloitte, Norberto Rosa, secretário-geral da APB, e Paulo Costa Martins, sócio da Cuatrecasas. No segundo debate, "As Finanças Mais Verdes", estiveram presentes António Ramalho, presidente da Comissão Executiva do Novo Banco, João Pedro Oliveira e Costa, presidente da Comissão Executiva do BPI, Miguel Maya, presidente da Comissão Executiva do Millennium bcp, Paulo Macedo, presidente da Comissão Executiva da Caixa Geral de Depósitos, e Pedro Castro e Almeida, presidente da Comissão Executiva do Santander Portugal. A sessão encerrou com António Horta Osório, presidente do Credit Suisse. A moderação foi de Diana Ramos, diretora do Jornal de Negócios.