Num setor tradicional como a construção e a engenharia, a inovação deixou de ser opcional para se tornar um fator crítico de competitividade, resiliência e criação de valor a longo prazo. “Mais do que inovação de rutura ou de ciclos curtos, trata-se de uma inovação ligada à execução, à escala e à sustentabilidade das infraestruturas”, referiu ao Negócios Rui Coutinho, chief innovation officer e membro da Comissão Executiva da MEXT, Mota-Engil Next. Esta visão, diz o responsável, traduz-se numa abordagem estrutural e deliberada à inovação, que esteve na origem da criação da MEXT, Mota-Engil Next, “uma plataforma que integra inovação no core do negócio, com prioridades claras, governação definida e alocação disciplinada de capital”. A inovação deixa de ser um conjunto de iniciativas pontuais e assume-se como “um pilar estratégico do grupo, alinhado com uma visão geracional e com a criação de valor sustentável ao longo do tempo”.
Digitalização e sustentabilidade como eixos estruturais
As prioridades de inovação da Mota-Engil refletem, segundo Rui Coutinho, uma leitura clara das grandes transições que moldam o setor, a transição digital e a transição para a sustentabilidade. São áreas onde o investimento “exige tempo, capital paciente e um profundo conhecimento industrial”.
Através da MEXT, o grupo concentra a sua atuação em domínios como a digitalização da construção, a sustentabilidade das infraestruturas, a eficiência operacional, novos materiais e novos modelos de negócio, nomeadamente em energia, mobilidade, cidades inteligentes e gestão avançada de ativos. “Trata-se de fazer apostas estruturantes, orientadas para impacto real e capacidade de escala, e não de seguir tendências de curto prazo.”
No meio de tudo isto, surge a tecnologia que está a redefinir a forma como os projetos são concebidos, planeados e executados. “Ferramentas digitais avançadas, sistemas inteligentes de monitorização, automação e plataformas de apoio à decisão permitem maior precisão, melhor coordenação e uma antecipação mais eficaz de riscos”, explica Rui Coutinho, para quem, na Mota-Engil, a transformação tecnológica é gerida em diferentes horizontes, desde melhorias incrementais no core até apostas mais transformadoras, com modelos de risco e retorno ajustados a cada contexto. “A MEXT desempenha um papel central ao identificar, testar e integrar soluções com aplicabilidade real em obra, garantindo que a inovação é efetivamente escalada”.
A adoção tecnológica é guiada por pragmatismo, “tecnologia ao serviço da eficiência, da segurança e da resiliência operacional, incluindo a integração seletiva de soluções digitais e de inteligência artificial em áreas como engenharia, segurança e manutenção preditiva”.
Escala, regulação e coordenação
Portugal enfrenta o desafio de modernizar as suas infraestruturas num contexto marcado pela transição energética, pressão climática e escassez de recursos. “A inovação será determinante, exigindo maior coordenação entre empresas, setor público, academia e startups”, sublinha Rui Coutinho. Reduzir fragmentação regulatória e complexidade administrativa será, no seu entender, igualmente crucial para permitir que soluções inovadoras ganhem escala além-fronteiras.
Para a Mota-Engil os projetos mais relevantes são aqueles que combinam impacto real, sustentabilidade e capacidade de escala, desde infraestruturas inteligentes a soluções digitais aplicadas à construção e energias limpas. “A inovação é avaliada pela sua capacidade de gerar valor mensurável e de resistir ao tempo e aos ciclos económicos. Trata-se de uma inovação menos orientada para a visibilidade imediata e mais focada na construção de resiliência e relevância a longo prazo”.
Sustentabilidade como desafio de engenharia
Na Mota-Engil, sustentabilidade e inovação são vistas como partes da mesma equação. A inovação é entendida como principal motor para reduzir emissões, otimizar recursos e aumentar a resiliência das infraestruturas. Segundo Rui Coutinho, a estrutura acionista familiar e a visão de longo prazo “permitem integrar a sustentabilidade de forma profunda e consistente, facilitando o investimento em projetos com horizontes de retorno mais longos, mas com elevado impacto ambiental e social”.
A sustentabilidade é tratada como “um desafio de engenharia, execução e escala”, suportado por tecnologia e governação clara. “A MEXT reforça esta ambição ao acelerar a adoção de soluções sustentáveis com aplicação concreta no terreno, garantindo que o compromisso se traduz em resultados mensuráveis”.
Os dados e a digitalização assumem também um papel central na modernização das operações, permitindo antecipar riscos, otimizar recursos e gerir ativos ao longo de todo o seu ciclo de vida. Rui Coutinho diz mesmo que este é um eixo estratégico crítico. “A MEXT atua como catalisador da adoção de soluções digitais avançadas, promovendo uma operação cada vez mais suportada por informação fiável, integrada e em tempo real”. Esta transformação é acompanhada por métricas claras de valor esperado e impacto realizado, “garantindo foco, disciplina e responsabilização”. E assume que digitalizar não é um fim em si mesmo, mas um meio para reforçar a resiliência operacional e a competitividade estrutural do Grupo.
Cultura, governação e execução
Promover inovação numa organização global implica cultura, alinhamento estratégico e estruturas de governação claras. “Exige também a capacidade de equilibrar autonomia local com coerência global”.
Rui Coutinho detalha que na Mota-Engil a inovação é estimulada através da partilha de conhecimento entre geografias, da ligação ao ecossistema externo e de uma forte cultura intrapreendedora. “A MEXT não substitui as unidades de negócio; atua como orquestradora, incubadora e catalisadora, garantindo coerência estratégica, velocidade e impacto”. Este modelo representa uma “via intermédia entre capital de risco e aquisições: inovação desenvolvida internamente, com liberdade empreendedora, mas suportada por capital paciente, conhecimento industrial profundo e uma governação estruturada”.
A parceria com o Prémio Nacional de Inovação (PNI) enquadra-se nesta visão. Para Rui Coutinho, o PNI assume um papel relevante ao dar visibilidade a modelos de inovação assentes na execução, no longo prazo e na criação de valor sustentável, sobretudo num contexto em que empresas familiares representam uma parte significativa do emprego e do PIB, mas comunicam menos o seu contributo. “Para o grupo e para a MEXT, esta parceria contribui também para distinguir inovação com impacto concreto, evitando abordagens meramente simbólicas ou de curto alcance”.
Rui Coutinho acredita que o PNI continuará a afirmar-se como referência nacional, dando visibilidade a projetos, equipas e lideranças que estão a moldar o futuro da economia portuguesa. Num momento de grandes transições, conclui, é fundamental reconhecer inovação que combina visão, disciplina e capacidade de execução.