As empresas a caminho da economia sem carbono

BNP Paribas, EDP, Sonae MC e ClimateSeed são exemplos de empresas que apostam na descarbonização das suas atividades e num modelo de sustentabilidade, verde, e socialmente responsável.
As empresas a caminho da economia sem carbono
A Embaixada de França recebeu o debate sobre a descarbonização da economia.
Sérgio Lemos
Filipe S. Fernandes 04 de julho de 2019 às 12:00
A 22 de Setembro, em Nova Iorque vão ser anunciados os Princípios de Banca Responsável, iniciativa que começou por reunir 28 grandes bancos dos cinco continentes entre os quais o BNP Paribas, revela Ana Jantarada, Sustainable Finance expert do BNP Paribas, durante o debate ‘Our role toward a decarbonised economy’, que decorreu durante a ‘Leading Change: Driving Sustainable Growth’, uma iniciativa do BNP Paribas, realizada na Embaixada de França no dia 26 de junho.

"Estamos comprometidos em construir um futuro mais verde, inclusivo e sustentável", refere Ana Jantarada, que adianta que estes princípios vão ao encontro "da estratégia empresarial do banco e todos deviam compreender que o futuro não é só para o lucro, é também para o planeta e para as pessoas".

Ana Jantarada deu conta do compromisso público do BNP Paribas de contribuir para "a transição energética e deu como exemplo o objetivo de " duplicar o investimento no setor das energias renováveis, de 15 mil milhões de euros, até 2020, meta que foi atingida em 2018, dois anos antes do que o previsto". Sublinhou ainda o financiamento a empresas de cariz social, incluindo o microfinanciamento.

"Em 2018, estendemos os nossos compromissos relativos aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 da ONU (ODS) e incluímos a ambição de contribuir para a sua implementação, cobrindo agora 9 dos 17 objetivos do desenvolvimento sustentável", referiu por sua vez António Martins da Costa, administrador da EDP.

Empresa social

O responsável considerou que o objetivo de desenvolvimento sustentável número 13, as mudanças climáticas, "está no centro" da atividade da empresa, que assumiu vários compromissos, como ter os edifícios neutros carbonicamente até 2022, reduzir as emissões de carbono em 93%, de 2025 até 2030 ou a frota executiva ser totalmente elétrica até 2030.

António Martins da Costa referiu que "a energia é um dos aspetos chaves num caminho sustentável, mas não é o único. Para cumprir os objetivos para 2050 serão necessários mais investimentos na área dos transportes e da refrigeração, do que na energia".

A ClimateSeed é um startup "green tech", subsidiária da BNP Paribas, que tem uma plataforma digital que torna a compensação de carbono voluntária simples e segura para as empresas, fundos de investimento e outras organizações. Define-se como uma empresa social que "tem lucros, mas não distribui dividendos", explica Edouard Blin, "chief operating officer" da ClimateSeed. A empresa tem o compromisso de reinvestir os seus lucros para maximizar o seu impacto ambiental e social, em programas educacionais de descarbonização ou apoio ao desenvolvimento de projetos sustentáveis.

Esta startup, que foi lançada em Novembro de 2018, utiliza a "compensação voluntária de carbono", a que chamam "Equilíbrio climático" ou seja 1 tonelada de CO2 emitida em um lugar pode ser equilibrada pela poupança de outra tonelada de CO2 em outras partes do mundo através do financiamento de projetos sustentáveis, em vários países da América do Sul, África e Ásia.

Economia circular

Pedro Lago, diretor de "Sustainability and Circular Economy Projects" da Sonae MC, salientou que "a sustentabilidade não é um tema novo" na empresa, que foi pioneira na adesão ao World Business Council for Sustainable Development (WBCSD), em 1995. A cadeia de distribuição alimentar tem dois grandes impactos diretos, como a energia e o transporte rodoviário. Neste último tem o projeto Backhauling, que em 2018 abrangeu 40 fornecedores, para evitar as rotas que seriam feitas em vazio pelos seus camiões.

A tarefa mais complexa é a mudança no sistema de alimentação e promoção do consumo sustentável. "O atual sistema não é sustentável porque assim não temos recursos para alimentar toda a população", sublinhou Pedro Lago. A Sonae MC integrou o estudo Cities and the Circular Economy for Food, que a Fundação Ellen MacArthur promoveu, e que teve o apoio da Fundação Gulbenkian, sobre a transição do sistema alimentar das cidades, como Porto, Bruxelas, Guelph e São Paulo, para um modelo circular.

A guerra aos plásticos e embalagens é uma "never ending story", disse Pedro Lago, e um problema ambiental de grande impacto. A Sonae MC assumiu o Compromisso Plástico Responsável Continente para a redução do consumo de plástico, tendo aderido ao New Plastics Economy, iniciativa da Fundação Ellen MacArthur em colaboração com o programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.

600 mil milhões para chegar à neutralidade carbónica

"Temos o conhecimento e as soluções para fazermos a transição energética, e prescindirmos completamente dos combustíveis fósseis", garante Júlia Seixas, professora da Faculdade de Ciência e Tecnologia da Universidade Nova, uma das oradoras do painel "Our role toward a decarbonised economy’, que decorreu durante a ‘Leading Change: Driving Sustainable Growth’, uma iniciativa do BNP Paribas.

"A neutralidade carbónica é um objetivo que se tornou normal, o que representa uma mudança de ‘mindset’. Nos últimos cinco anos todas as pessoas falam em neutralidade carbónica", referiu a professora nas áreas da Deteção Remota em Ambiente, Energia e Alterações Climáticas, que coordena a linha Energia & Clima do centro de investigação CENSE, dedicada a I&D para a neutralidade carbónica. Existem alguns países que apontam para uma economia descarbonizada em 2030 como a Noruega, ou 2045 como a Suécia. Em 2016, Portugal assumiu o compromisso de atingir a neutralidade carbónica em 2050.

O problema em Portugal não está na viabilidade tecnológica, mas implica um esforço financeiro e de gestão pública. "São 30 mil milhões de euros por ano no período 2020-2050 (15% do PIB nacional)", explica Júlia Seixas. "Mas inclui várias componentes do sistema, como investimentos no isolamento, equipamentos e manutenção dos edifícios (20 mil milhões), em energias renováveis, em novos automóveis (48 mil milhões de euros)".

Para Júlia Seixas tem de se pensar na eficiência, que poupa recursos, e no custo efetivo que teria manter a situação, até porque há poupanças muito relevantes, cerca de 128 mil milhões de euros entre 2020-2050. "Temos o conhecimento e as soluções para fazermos a transição energética, e prescindirmos completamente dos combustíveis fósseis. É moralmente obrigatório e tecnologicamente possível limpar o sistema energético mundial até 2050", referiu Júlia Seixas.

Neste roteiro para a neutralidade carbónica foram criadas quatro áreas de atividade que têm grande impacto nas emissões com efeitos de estufa e que são a Energia e a Indústria, Mobilidade e Transportes, Resíduos e águas residuais, Agricultura e Florestas, a que se junta um pressuposto que é a economia circular.

Objetivo consensual

O trabalho envolveu os ministérios da Economia, da Agricultura, Ambiente, Finanças, Banco de Portugal, e empresas. Fizeram-se sete "workshops" que envolveram mais de duzentas pessoas ligadas aos "stakeholders". "O relevante é que ninguém questionou a necessidade de atingir a neutralidade carbónica", sublinhou Júlia Seixas, "mas também provavelmente nem toda a gente mediu as implicações deste caminho".

Foram desenvolvidas trajetórias alternativas até 2050, para todos os setores, que permitam a redução total das emissões líquidas. Afirmou-se a viabilidade tecnológica para a neutralidade carbónica. "A economia portuguesa tem um grande potencial de redução de emissões e necessita de o fazer", referiu .

Os sectores-chave são os setores consumidores de energias poluentes onde é necessária uma descarbonização profunda, como são os casos da produção de energia, da mobilidade e transportes e dos edifícios. "Há potencial para reduzir as emissões em geral através da diminuição de carvão, energias fósseis ou gás natural", afirmou Júlia Seixas, e de um sistema elétrico de base renovável, que pode representar uma poupança anual de cerca de 4 mil milhões de euros de combustíveis que deixamos de importar.



Crescimento económico  sustentável e inclusivo

William de Vijlder, economista-chefe do BNP Paribas, defende que "o crescimento só é sustentável se for inclusivo, porque mesmo que seja sustentável, na perspetiva ambiental mas não for inclusivo, não é totalmente sustentável".

"Estamos num ‘tipping point’ em que o tópico das alterações climáticas se está a tornar dominante em todo o mundo", referiu William de Vijlder, economista-chefe do BNP Paribas, na  conferência sobre a influência dos objetivos sustentáveis no desenvolvimento económico, que teve lugar na Embaixada de França em Lisboa, a 26 de junho. 

William de Vijldder sublinhou que as mudanças climáticas têm impacto nos outros 16 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. "É a chave para o desenvolvimento futuro, porque tem um impacto integrado". O economista salientou que as ligações dinâmicas entre o sistema financeiro e a sustentabilidade ambiental se moveram, rapidamente, para o centro do debate público. Termos como finança sustentável, ‘green bonds’, riscos relacionados com as mudanças climáticas tornaram-se "buzzwords" entre os políticos, a finança e a sociedade civil.

O poder do dinheiro

Durante a conferência William de Vijlder demonstrou o impacto de eventos climáticos extremos como os incêndios, os tufões e furacões, as inundações nos balanços económicos das famílias, das empresas e do setor público. Estes geram a destruição de valor, confiança, crescimento económico e equidade.

O economista-chefe do BNP Paribas citou os dois paradoxos de Mark Carney, governador do Banco de Inglaterra, num discurso em 26 de Setembro de 2016. O primeiro, "o futuro será passado", porque as alterações climáticas vão ser um custo para as gerações futuras e os seus impactos catastróficos serão sentidos por todos, incluindo empresas e bancos centrais. O segundo paradoxo é que "o sucesso é o fracasso", ou seja, um movimento demasiado rápido em direção a uma economia de baixo carbono poderia prejudicar a estabilidade financeira.

 "O poder está no dinheiro", e este pode ser um elemento chave para o cumprimento de regulações ambientais e controlo de riscos de segurança, "porque os novos ‘drivers’ da criação de valor são a integridade, o financeiro, o ambiente e o social".

"Green finance"

Na senda de Mark Carney, William de Vijlder, salientou que a "green finance" é a grande oportunidade, ao assegurar que os fluxos de capital financiam projetos de longo prazo em países onde o crescimento é mais intensivo em carbono. Ao absorver o excesso de poupança global, as taxas de juros de equilíbrio podem ser aumentadas e a estabilidade macroeconómica melhorada. E, ao alocar capital às tecnologias verdes, as perspetivas de uma recuperação ambientalmente sustentável do crescimento global aumentarão.

Uma das principais mensagens de William de Vijlder foi de que "o crescimento só é sustentável se for inclusivo, porque mesmo que seja sustentável na perspetiva ambiental mas não for inclusivo não é totalmente sustentável". Acrescentou que o crescimento inclusivo deve existir tanto entre países como dentro dos países, e que portanto tem de haver uma convergência entre o crescimento, a sustentabilidade e a inclusão. 



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