Banca: a ameaça das big techs 

Os clientes são mais exigentes e informados, questionam os "fees" e o valor acrescentado de diversos serviços do sector financeiro. O primado do cliente atraiu as big techs, como o Facebook que quer entrar em Portugal na banca, mas também as fintech, que podem ser aliadas da banca incumbente.
Banca: a ameaça das big techs 
Filipe Fernandes 18 de setembro de 2018 às 14:15

Se vemos já o Facebook a pedir licença bancária para operar em Portugal e a Google a investir fortemente em fintech, então é tempo de agir", assinala João Freire de Andrade, presidente da Portugal Fintech. "Nos países onde o comércio de retalho online é mais desenvolvido, os principais 'players' de fintech incluem gigantes da tecnologia (big techs), como Apple, Google, Amazon e Facebook nos Estados Unidos, e Alibaba, Baidu e Tencent na China", referiu recentemente Fabio Panetta, governador do Banco de Itália.

 

Para Nuno Fernandes, "dean" da Católica Lisbon School of Business & Economics e professor de Finanças, esta emergência das fintechs e das big techs está relacionada com o facto de, no negócio financeiro, se ter imposto um modelo baseado em "customer centricity", a que também se chama a era do C2B (consumer-to-business).

 

As experiências dos clientes

 

"As big techs possuem dois grandes factores diferenciadores relativamente às relações e exigências dos clientes", garante João Freire de Andrade, que também é "head" da BiG Start Ventures. O primeiro é a recorrência, "todos os dias, no decorrer da sua vida, as pessoas passam no caminho destas empresas". Por isso, "é muito fácil que o cliente final escolha uma destas empresas como o seu ecossistema pessoal, já que pode fazer tudo o que precisa num só sítio já utilizado diariamente".

 

O segundo factor relaciona-se com o facto de estas empresas terem um "budget" muito grande para "user experience" (experiência de utilização), "tornando-se especialistas no contacto digital e na criação de uma experiência óptima, que contribui para uma maior facilidade em atrair o cliente", conclui João Freire de Andrade.

 

A mudança no perfil dos consumidores também ajuda. "Os consumidores - especialmente aqueles na faixa dos 20 e 30 anos - estão cada vez mais receptivos a que os seus serviços bancários sejam fornecidos por uma empresa de serviços financeiros não tradicionais", aduzia um relatório da Accenture, "Beyond The Everyday Bank", sobre a transformação da banca digital provocada pelas big tech, ou techfin.

 

Aliança contra os gigantes

 

"No seguimento do colapso financeiro, e das consequências gravosas para a economia mundial, os clientes (quer privados, quer empresariais) passaram a ser mais exigentes, mais informados, a questionar os "fees" que lhes são cobrados e o real valor acrescentado de diversos serviços do sector financeiro. No sentido oposto, as fintechs surgem, muito mais rápidas, dinâmicas, baratas e altamente orientadas para responder, com rapidez e eficácia às exigências dos clientes", refere Nuno Fernandes.

 

Os incumbentes, os bancos tradicionais, vão ter de mudar. A estratégia que "deve ser seguida", segundo Nuno Fernandes, "é a de colaboração entre os bancos e as fintech.

Esta colaboração é essencial para o futuro da inovação nos serviços financeiros. Desta forma, as instituições financeiras tradicionais podem completar o fosso de talento e de tecnologia e as fintech ganham estrutura para desenvolver o seu negócio".

 

"Mais de 75% das empresas de fintech têm como objectivo principal de negócio colaborar com os serviços financeiros tradicionais", referiu Anirban Bose, chefe de Unidade de Negócios Estratégicos Globais de Serviços Financeiros da Capgemini na apresentação do World FinTech Report 2018.

 

Combinação perfeita

 

"Para a banca incumbente, a estratégia deve ser tridimensional: integrar, co-criar e investir com as empresas tecnológicas", defende João Freire de Andrade. Na sua opinião, "as start-ups, muitas vezes, aparecem no mercado não para substituir mas para complementar o serviço dos incumbentes com um maior foco no cliente final e num problema específico. Ao integrar estes serviços na oferta os incumbentes podem solucionar muitos problemas que o consumidor detecta na sua relação com o banco".

 

Por outro lado, para as fintech "a banca incumbente pode ser um forte candidato ao armazenamento de dados, uma vez que incorpora uma estrutura sólida e segura", o que resolve um dos problemas das "open API", que é onde devem estar armazenados os dados cumprindo o regulamento geral de protecção de dados.

 

Podem combinar as vantagens de cada um dos parceiros. "As fintech estão a redefinir a experiência dos clientes no sector financeiro através de uma abordagem assente na tecnologia e centrada nos clientes. Por outro lado, as fintech podem beneficiar do maior nível de confiança que os clientes ainda demonstram ter pela banca tradicional", analisa o director da Católica.

 

O sucesso a longo prazo das fintech e das instituições financeiras depende desta colaboração até para encontrar modelos de negócio adequados "num contexto de maior exigência por parte dos clientes e maior concorrência, como é o caso das big tech", finaliza Nuno Fernandes

 




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