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Mais capital e menos crédito

Os bancos gerem as variáveis que podem, que são os seus custos de estrutura, “têm de ter menores custos de estrutura, ser mais eficientes para fazer face a uma realidade mais dura”, como por exemplo as taxas de juro negativas.

Filipe S. Fernandes 02 de Dezembro de 2021 às 15:30
Miguel Maya considera que os níveis de incerteza aumentaram. Duarte Roriz
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"A banca tem o dobro do capital hoje do que tinha há 10 anos, e tem menos crédito do que tinha porque a economia portuguesa em termos das famílias e das empresas desalavancou, enquanto o Estado se endividou, portanto, a banca tem mais capital com menos crédito e ter pouco crédito só é bom até um certo nível", referiu Paulo Macedo que falou do que chamou "as certezas da banca". O custo do dinheiro quando comparado com a anterior crise "é quatro vezes menor, o custo do financiamento não é um problema para nenhum setor da economia".

Sobre as perspetivas de taxas de juro referiu que não há certezas absolutas, "e uma perspetiva de subidas de taxa será sempre a mais de dois anos, e, depois, quando estamos a falar de subida de taxas, é quando é que a Euribor ficará a zero. As taxas vão subir com este nível de inflação, portanto espera-se que seja a ritmos diferentes. Subirão primeiro as dos Estados Unidos depois na Europa", disse Paulo Macedo.

Preparados para a incerteza

Neste contexto, salientou que a CGD e os outros bancos gerem as variáveis que podem, que são os seus custos de estrutura, "têm de ter menores custos de estrutura, ser mais eficientes para fazer face a uma realidade mais dura". A banca tem grande dificuldade em gerir a sua margem financeira quando há taxas de juros negativas e quando os spreads estão tão estreitados, a parte do comissionamento é mais difícil de gerir em Portugal porque há um conjunto de limitações que não há nos outros sítios, mas não pode ser "só cortar custos mas tornar a relação do banco menos penosa e mais favorável. Hoje em dia toda a gente quer uma relação com o banco 24 horas sobre 7".

Para Miguel Maya, os gestores bancários, que estar preparados para lidar com cenários de muito maior ambiguidade e incerteza, e todo este acelerar da globalização, toda esta velocidade que a tecnologia imprime ao modelos de negócio e à capacidade de novos operadores entrarem com enorme facilidade, obriga-nos a estar preparados para maiores níveis de incerteza.

"É muito importante hoje conseguir fazer um planeamento muito mais exaustivo e muito mais abrangente do que no passado porque as ameaças e as oportunidades com que nos deparamos são muito mais frequentes, estão muito mais intensas", considerou Miguel Maya.


A importância da fiscalidade

"A fiscalidade já hoje em dia tem um papel tanto no carbono como nos combustíveis. Os incentivos fiscais no sentido de orientar para os compromissos ambientais que temos penso que se irá acentuar, porque a fiscalidade tem de ser um dos vários instrumentos a utilizar nesta transformação e as empresas vão ser compensadas se mostrarem que estão preparadas para os riscos", defendeu Paulo Macedo. Mas acrescentou que não será "só pela via da fiscalidade, mas também pelos próprios benefícios e reconhecimento que as empresas vão ter de ter e introduzir no seu modelo de negócio porque também há conjunto de oportunidades para as empresas, derivado destas preocupações e obrigações".

"O papel do Estado, o Governo é um instrumento para a gestão do Estado, é mostrar o caminho e dar os incentivos para a transformação climática e digital porque esta transformação não é só da banca, é das empresas e da sociedade como um todo. Por isso o Estado deve ter esse papel e deve ajudar a que essa mesma transformação seja feita de forma mais tranquila sem disrupções", afirmou João Pedro Oliveira e Costa. Este apoio deverá ser tanto em incentivos fiscais como da regulamentação definindo critérios e definindo quais são as regras em que todos devem atuar.

"O tema fiscal é absolutamente decisivo, ou seja, criar os incentivos fiscais para que haja esta transição e os investimentos sejam incentivados", concordou Miguel Maya. Mas não deixou de alargar o tema aos reportes fiscais, que têm um tratamento que "penaliza não os bancos mas as empresas portuguesas que investem, que têm um tratamento completamente discriminatório, que é negativo para o país, sem qualquer vantagem para o Estado".

Miguel Maya referiu-se ainda às seguradoras como uma componente neste processo pois têm um papel fundamental de segurar os riscos físicos. "Tudo que tem a ver com a adaptação e a capacidade de decisão rápida das instâncias públicas é determinante quando as empresas têm de tomar decisões que são rápidas."

"O sistema financeiro e o mercado de capitais são muito importantes nesta transição e tudo o que tem a ver com incentivos, seja em termos de ponderação de capital para os bancos através de perda esperada, seja através de fiscalidade", considerou Pedro Castro Almeida, presidente da comissão executiva do Santander.