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O que seria das cidades sem o alojamento local?

Cidades podres e sem vida, acreditam os oradores Rui Loza e Carla Costa Reis. O turismo veio trazer um novo rosto aos centros históricos. E colocar em cima da mesa o problema da falta de habitação.

Wilson Ledo wilsonledo@negocios.pt 21 de Setembro de 2017 às 12:00
Inês Gomes Lourenço
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Ao longo da sua história, a cidade do Porto foi juntando novas actividades à sua economia. "Com uma vantagem actual: acrescentou o turismo. É um fenómeno recente e que esperemos que dure e resista ao acrescento de outras actividades", começa Rui Loza.

O vereador para o Urbanismo da Câmara Municipal do Porto ainda se lembra de como era a cidade antes de ter chegado o turismo e, com ele, o alojamento local. No centro histórico havia senhorios que, sem capacidade de fazer obras estruturais nos prédios pelos baixos preços das rendas ou reduzido número de inquilinos, pediam a intervenção da autarquia para a compra do edifício.

"O dia mais feliz do senhorio era quando era expropriado", recorda, entre risos. Com as mudanças que o Porto tem vindo a assistir, essa situação está "ultrapassada". "Temos sorte de ter sido um país pobre. Se tivéssemos sido um país rico [com mais dinheiro para demolições] não tínhamos agora um Porto que é património da humanidade", acrescenta.

É esse efeito na reabilitação urbana e numa nova vida no centro histórico da cidade – com impacto directo no emprego – que Carla Costa Reis, fundadora da Turisma, empresa dedicada à gestão de alojamento local, também traça em Lisboa. "O alojamento local veio aproveitar a oportunidade que estava ali. As cidades estavam podres, os centros históricos abandonados", defende.

E socorre-se dos censos para comprovar a sua ideia: entre 2001 e 2011, o centro histórico de Lisboa "perdeu 30%" da população. É essa cidade abandonada que as vozes mais críticas querem, quando falam em descaracterização devido ao turismo e ao alojamento local? Ou, pelo contrário, está Lisboa – e mesmo o Porto  –  a ganhar um novo rosto com estas actividades?

As respostas foram sendo dadas ao longo do terceiro "Observatório do Turismo", que teve lugar a 14 de Setembro no Teatro Thalia, em Lisboa. "Se não houvesse esta actividade turística no Porto, a última crise teria sido mais grave. As famílias do Porto foram beneficiárias directas", afirma o vereador Rui Loza.

"Não há política habitacional no nosso país. E, como não há, é muito conveniente dizer que a culpa é do turismo." rui loza, Vereador para o Urbanismo da Câmara Municipal do Porto

Com os centros históricos direccionados para o turismo, mantém-se em cima da mesa o problema da falta de habitação para os locais. Até porque também já há estrangeiros a comprar casas nestas zonas e, em vez de deixarem-nas vazias a maior parte do ano, estão a entregá-las a terceiros para gestão como alojamento local.

"Resolver o problema da habitação não é aniquilar o alojamento local", posiciona Carla Costa Reis. A empresária crê que esse problema tem de receber a atenção das entidades públicas, seja através do alívio fiscal para quem explora o arrendamento dito tradicional ou através da rentabilização do património imobiliário público. E dá um exemplo: porque foi a Câmara de Lisboa vender imobiliário numa feira de Paris quando o podia ter disponibilizado para arrendamento a custos acessíveis?

Se em Lisboa e Porto a realidade do alojamento local começa já a ser vista com um pendor negativo, outras regiões do país dariam muito para vê-la chegar. "Conheço muitas regiões onde o alojamento local ainda é o futuro que há-de vir. Não podemos medir o território todo nem desenhar as políticas nacionais de acordo com o centro histórico do Porto ou de Lisboa", alerta Rui Loza.

"Não há política habitacional no nosso país. E, como não há, é muito conveniente dizer que a culpa é do turismo", acrescenta. O mesmo turismo que precisa ainda de aprender – ou que já começa – a dispersar-se pelo resto do país. 

Faltam escritórios no Porto

Depois do turismo, o Porto tem introduzido novas actividades económicas ao seu portefólio, como a tecnologia, as engenharias ou a investigação. Reflexo de uma procura internacional que está, ela própria, a lidar com a falta de espaço. "Hoje há falta de escritórios no Porto", admite Rui Loza, vereador para o Urbanismo da Câmara Municipal do Porto. Sobretudo no centro da cidade é notória a falta de espaços com pelo menos dois mil metros quadrados, "que é o que as empresas internacionais procuram quando estão a vir para o Porto", explica. A cidade tem sido distinguida no estrangeiro como um pólo de investimento e compras.

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