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O visto dourado perdeu o brilho para o imobiliário português?

Depois de um escândalo de corrupção associada aos vistos “gold”, há uma nova vaga de atrasos e paragens na sua emissão. Quem lida com o sector imobiliário diz que é preciso repensar o programa. Para conseguir captar investimento de qualidade.

Wilson Ledo wilsonledo@negocios.pt 21 de Setembro de 2017 às 11:30
Inês Gomes Lourenço
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O aviso chegou no início de Setembro por parte da associação que representa as agências imobiliárias, a APEMIP: os processos dos vistos "gold" estão "bloqueados" e não é possível fazer marcações junto do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), que os emitem, até Novembro.

Depois do escândalo que envolveu este programa, mais um motivo de preocupação para o sector imobiliário, uma vez que a quase totalidade das 5.243 Autorizações de Residência para Actividade de Investimento (ARI, no seu nome oficial) se deveu à compra de imóveis acima do meio milhão de euros: 4.945 vistos, para dar o número exacto. Já o investimento angariado ascendeu aos 3.223 milhões de euros.

"Criámos um quadro legal que fazia falta e, de facto, deixámos a burocracia entorpecer tudo isso. Temos vários investidores que vêm até nós para fazer queixa. Não podemos ter o SEF tão lento, sobretudo nas renovações dos vistos", critica Sérgio Martins Alves, secretário-geral da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Chinesa (CCILC).

É precisamente a China uma das nacionalidades, a par dos brasileiros, que se tem destacado nas emissões dos vistos "gold". Se a início a procura chinesa era feita sobretudo por agências de emigração, que queriam deslocar capital dos seus clientes, hoje "a gama de investidores é mais ampla", explica Sérgio Martins Alves durante a terceira edição do "Observatório: o imobiliário em Portugal".

O líder da CCILC fala em "falta de estratégia de promoção", à base do "desenrascanço", e recorda-se de ter chegado à China e encontrado imagens da Grécia a promover o programa de vistos "gold" português. É, por isso, preciso definir um novo rumo, aprendendo com outros mercados com programas idênticos. Ou corre-se um risco: o de atrair uma quantidade de investidores que "não têm especial interesse pelo país".

Em qualquer dos casos, há um aspecto sem volta a dar, aponta Sérgio Martins Alves. Os vistos "gold" estão a levar a uma subida dos preços do imobiliário em Portugal, já que a capacidade económica destas compradores é superior. "E os portugueses são os maiores afectados", remata.

Perante os atrasos e paragens nas emissões e renovações das Autorizações de Residência para Actividade de Investimento, Gilberto Jordan, vice-presidente da Associação Portuguesa de Promotores e Investidores Imobiliários (APPII), só vê uma saída: "temos de decidir se queremos ou não essa dinâmica de investimento, essa energia".

"É completamente inaceitável o que está a acontecer com as ARI", resume. Gilberto Jordan recorda que Portugal é um país com uma longa tradição de investimento estrangeiro imobiliário. Primeiro vieram os britânicos e os alemães, apostando sobretudo no Algarve e na Madeira. Mas também isso mudou.

"O novo fenómeno são os franceses", diz. E a procura por Lisboa, com preços competitivos quando comparando com outras capitais europeias. "Em Lisboa, é diferente. Trabalha-se sobre um ‘stock’ [de imóveis] muito limitado. E estamos a trabalhar como capital internacional", explica Gilberto Jordan.

O líder da APPII não vê riscos de descaracterização da cidade mas antes uma recuperação das suas características com a vinda de estrangeiros. O que é preciso então fazer? "O nosso desafio é fixá-los, que permaneçam com os seus investimentos, a sua capacidade criativa". 

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