A inovação também pode nascer da forma como olhamos para aquilo que normalmente é considerado desperdício. Foi precisamente dessa lógica que surgiu o Green Value, um projeto da Águas do Norte que transforma resíduos provenientes do tratamento de águas residuais em biofertilizantes capazes de regenerar solos degradados. “Na natureza, a morte de uma folha é o banquete de uma raiz”, afirmou Maria João Brochado Correia, administradora da Águas do Norte, ao apresentar o projeto vencedor na edição do ano passado na categoria de Agricultura, Alimentação e Bebidas na conferência de lançamento da quarta edição do Prémio Nacional de Inovação. “O Green Value nasceu exatamente dessa ideia, voltar a aprender com a terra e transformar resíduos em vida.”
A Águas do Norte integra o grupo Águas de Portugal e gere um vasto sistema de abastecimento e saneamento na região norte do país. A empresa opera 16 barragens, mais de 30 estações de tratamento de água e cerca de 300 estações de tratamento de águas residuais, fornecendo anualmente cerca de 80 milhões de metros cúbicos de água potável a quase dois milhões de habitantes em 66 municípios.
Segundo Maria João Brochado Correia, a inovação tem sido integrada de forma estruturada na estratégia da empresa. “Temos hoje mais de 100 projetos de inovação e uma organização orientada para a eficiência, a resiliência e a inteligência”, explicou.
Esse trabalho levou também à certificação do sistema de gestão da inovação da empresa. “Fomos certificados pela norma NP 4457 e recentemente obtivemos também a certificação internacional ISO 56001 em gestão da inovação.”
Regenerar solos em risco de desertificação
O Green Value nasceu da necessidade de responder a um desafio ambiental crescente na região do Douro, a degradação e desertificação dos solos. “Quando olhámos para esta realidade quisemos pensar mais além”, explicou a responsável. “Decidimos transformar um resíduo urbano num biofertilizante capaz de recuperar estes solos.”
O projeto partiu da valorização de biossólidos provenientes das estações de tratamento de águas residuais. Ao invés de serem encaminhadas para aterro, as lamas passaram a ser tratadas, higienizadas e reutilizadas como fertilizante orgânico. “Em vez de enterrarmos as lamas em aterro decidimos tratá-las e devolvê-las à natureza”, afirmou Maria João Brochado Correia, descrevendo o projeto como “uma espécie de alquimia moderna”.
A iniciativa foi desenvolvida em consórcio com sete entidades, incluindo universidades, autarquias e juntas de freguesia. O projeto foi implementado em Alfândega da Fé, numa área particularmente vulnerável à desertificação. No total, foram restaurados cerca de 60 hectares de terrenos degradados através de práticas de regeneração ecológica. A intervenção incluiu a aplicação de biossólidos tratados no solo, bem como a plantação de espécies autóctones adaptadas às condições climáticas da região. Entre as espécies selecionadas estão o pinheiro-bravo, o pinheiro-manso, a azinheira e o sobreiro, escolhidos pela sua resistência à seca e capacidade de adaptação aos solos locais.
O projeto integrou também a reutilização de água residual tratada e diferentes métodos de valorização das lamas, incluindo compostagem e vermicompostagem. O objetivo, explicou a executiva, foi melhorar as propriedades físicas, químicas e biológicas dos solos, aumentando a retenção de carbono e promovendo a recuperação da biodiversidade. “Cada passo do projeto permitiu gerar conhecimento sobre como transformar desafios ambientais em soluções duradouras”, explicou Maria João Brochado Correia.
O investimento total foi inferior a um milhão de euros, tendo sido totalmente financiado.
Um processo complexo no terreno
A implementação do projeto enfrentou vários desafios operacionais e regulatórios. Entre eles estiveram os processos de licenciamento para aplicação dos biossólidos nos solos, as exigências de monitorização ambiental e as dificuldades logísticas associadas ao trabalho em zonas remotas. “Houve muitos desafios ao longo do processo, desde questões de licenciamento até episódios de mau tempo durante a fase de implementação”, explicou a administradora. Apesar dessas dificuldades, o projeto avançou graças ao trabalho conjunto das entidades envolvidas. “Foi um verdadeiro espírito de missão entre todas as partes interessadas.”
Para além da recuperação ambiental, o Green Value pretende gerar conhecimento que possa ser aplicado noutras regiões afetadas pela desertificação. “Queremos que este modelo possa ser replicado e servir de exemplo de como transformar desperdícios em valor”, afirmou Maria João Brochado Correia.
“O verdadeiro troféu foi assistir ao restauro deste ecossistema. Este projeto não é apenas sobre lamas ou florestas. É sobre a nossa capacidade de dar uma segunda oportunidade ao planeta.”