A ligação entre o sistema científico e o tecido empresarial “existe, mas continua a ser pouco densa e insuficientemente estruturada”, afirma ao Negócios Jorge Portugal, diretor-geral da COTEC Portugal. O problema, diz, não está na capacidade científica, “mas na forma como esse conhecimento chega, ou não chega, às empresas”.
Na sua leitura, a colaboração continua a ser “demasiado episódica, dependente de projetos concretos e de relações pessoais, e não de um funcionamento regular do sistema”, o que traduz uma “falha estrutural, não de capacidade, mas de articulação”.
Os dados mais recentes mostram progressos na disponibilidade de instrumentos de apoio à inovação, mas não uma alteração profunda dos comportamentos empresariais. “Muitas empresas continuam a inovar de forma relativamente autónoma, sem recorrer de forma sistemática ao sistema científico”, nota Jorge Portugal. E quando o fazem, “fazem-no muitas vezes de forma pontual, não integrada numa estratégia de inovação de longo prazo”.
Na perspetiva do diretor-geral da COTEC, “não estamos perante um problema de acesso ou de oferta. Estamos perante um problema de utilização efetiva e de integração desse conhecimento nos processos empresariais”. A mesma ideia é partilhada por João Claro, presidente do Conselho de Administração e da Comissão Executiva do INESC TEC, que considera que a relação está hoje “mais próxima e mais madura, mas continua a ser irregular”. “Há mais colaboração e mais experiência acumulada, mas ainda nem sempre existe um percurso bem organizado entre produção de conhecimento e criação de valor económico”, afirma.
Para João Claro, o ponto crítico está “precisamente em garantir continuidade entre investigação, desenvolvimento, validação, demonstração, integração industrial e mercado”. Essa rutura nas fases intermédias do processo é, no seu entender, um dos principais entraves à transformação sistemática de ciência em inovação com impacto económico. “É nesse espaço, ainda insuficientemente desenvolvido, que se joga o futuro da inovação em Portugal.”
Obstáculos antigos e sistémicos
Os obstáculos à colaboração entre academia e empresas são “conhecidos e persistentes e, mais importante, são sistémicos”, sublinha Jorge Portugal. Do lado das empresas, há “uma capacidade limitada de absorção tecnológica”. Muitas organizações “não têm equipas, competências ou estruturas internas que lhes permitam integrar conhecimento científico de forma consistente”. Do lado da academia, “existem incentivos que nem sempre favorecem a aplicação prática do conhecimento”.
A este quadro soma-se um desalinhamento entre agendas científicas e necessidades empresariais, bem como “uma cadeia de valor fragmentada, sobretudo nas fases intermédias, onde faltam instrumentos de validação e redução de risco”. Na avaliação da COTEC, “não é apenas uma falha de colaboração. É uma falha de coordenação ao longo de toda a cadeia de valor do conhecimento”.
João Claro reforça esta leitura. “A transformação não é automática. Entre um resultado científico e uma solução adotada pelo mercado há etapas exigentes, como prova de conceito, prototipagem, validação em contexto real, demonstração, enquadramento regulatório, financiamento, proteção e gestão da propriedade intelectual e integração industrial.” Muitas vezes, acrescenta, “o bloqueio não está na qualidade da ciência, mas nas falhas desse percurso intermédio e na fraca articulação entre instrumentos, atores e incentivos”.
Pedro Amaral, vice-presidente para a Interface Empresarial, Inovação e Empreendedorismo do Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa, identifica três desafios centrais. O primeiro é cultural. “Ainda há um caminho a fazer para que a investigação académica incorpore, de forma mais natural, uma lógica de valorização, escalabilidade e aplicação industrial.” O segundo é a aversão ao risco, “sobretudo num mercado como o português”, onde muitas ideias inovadoras avançam apenas porque “existe um projeto de incentivo que ajuda a suportar o risco”. “O resultado é que se gera muita boa ciência, mas nem sempre se criam as condições certas para a transformar em piloto, protótipo, licenciamento ou nova unidade de negócio”, refere.
O terceiro desafio, que considera “talvez o mais importante”, é a falta de perfis de interface. “O que falta muitas vezes não é ciência, é mediação qualificada, pessoas que saibam traduzir problemas empresariais, reconhecer conhecimento com potencial e fazer acontecer pilotos e protótipos com orientação para adoção”, afirma.
Indicadores revelam distância entre ciência e mercado
Apesar de Portugal ter investido cerca de 4,54 mil milhões de euros em I&D em 2023, o país continua a surgir como “Moderate Innovator” no contexto europeu, sublinha Pedro Amaral. “Houve progresso real, mas ainda não fechámos o fosso entre a geração de conhecimento e a sua transformação em inovação com escala de mercado.”
Essa distância é visível em vários indicadores internacionais. No Global Innovation Index 2025, Portugal surge em 38.º lugar em ligações de inovação, em 45.º em colaboração universidade-indústria em I&D e em 55.º em co-publicações entre investigação pública e indústria. “O problema central, portanto, não é falta de talento nem falta de conhecimento. É a dificuldade em criar uma interface suficientemente profissional, contínua e orientada a resultados entre quem gera ciência e quem precisa de a transformar em produto, processo ou negócio”, analisa Pedro Amaral.
João Claro concorda. “Portugal produz ciência de qualidade e tem hoje capacidades científicas e tecnológicas mais fortes, mas continua a existir uma distância relevante entre conhecimento, maturação tecnológica, integração industrial e criação de valor económico em escala”, afirma. “O desafio dos próximos anos é precisamente organizar melhor esse continuum entre ciência, tecnologia, indústria, investimento e políticas públicas.”
A colaboração cresce, mas continua concentrada em algumas áreas
A colaboração entre investigadores e empresas tem aumentado, “sobretudo nas áreas ligadas à transição digital”. Inteligência artificial, robótica, informática, eletrónica e telecomunicações tornaram-se “corredores naturais de aproximação entre universidades e empresas”, porque “combinam talento científico, necessidade empresarial e velocidade de aplicação”, afirma Pedro Amaral. Em 2023, 28,9% dos estudantes do ensino superior estavam inscritos em áreas STEM, acima da média da União Europeia, embora persista escassez de perfis em engenharia e TIC.
Também João Claro regista maior procura por projetos aplicados, pilotos e demonstradores em domínios como “inteligência artificial, robótica, energia e descarbonização, saúde, sistemas digitais, comunicações avançadas, semicondutores e, cada vez mais, segurança e defesa”, áreas em que o INESC TEC tem reforçado o seu portefólio de patentes. “Cresce a procura por projetos aplicados, pilotos, demonstradores e colaborações mais estruturadas com empresas e associações setoriais”, diz.
Além das tecnologias digitais, há colaboração crescente em “energia, saúde, biomedicina, aeroespacial e tecnologias industriais avançadas”, setores em que “a intensidade científica é elevada e onde faz sentido desenvolver projetos mais ambiciosos, experimentais e diferenciadores”. Pedro Amaral lembra que, no sistema europeu de patentes, as áreas mais dinâmicas em 2025 foram precisamente “tecnologia informática, comunicação digital, maquinaria/energia e tecnologia médica”. “Isso mostra que a fronteira da inovação está hoje muito associada à convergência entre ciência, dados, engenharia e capacidade industrial.”
O responsável do Técnico destaca ainda uma mudança do lado das empresas. “Não são as mesmas de há 30 anos.” Hoje, acrescenta, há mais organizações “capazes de integrar I&D, de participar em consórcios, de acolher doutoramentos e de trabalhar em conjunto com investigadores em problemas reais”. “Essa evolução é muito importante, porque torna a relação com a academia mais equilibrada e mais produtiva.”
Há bons exemplos, mas ainda não dominam
As boas práticas na transferência de conhecimento “existem e são relevantes, mas ainda não são dominantes”, refere Jorge Portugal. Os casos mais bem-sucedidos surgem quando há “proximidade efetiva entre empresas e sistema científico, nomeadamente através de estruturas de interface, como laboratórios colaborativos ou centros de tecnologia, que funcionam como mediadores ativos”.
Destacam-se também experiências de “integração direta de talento científico nas empresas, particularmente doutorados, e programas que aproximam desde cedo investigação e aplicação, como os doutoramentos em ambiente empresarial”. “O que estes casos têm em comum é simples. Não dependem apenas de instrumentos formais, mas de alinhamento real de incentivos, proximidade organizacional e foco em problemas concretos”, afirma o diretor-geral da COTEC Portugal.
Na visão de Pedro Amaral, as spin-offs universitárias têm um papel “absolutamente central”, porque funcionam, na prática, como um “3 em 1”. “Primeiro, valorizam propriedade intelectual e conhecimento gerado nas universidades. Segundo, tornam visíveis as competências científicas e tecnológicas dessas instituições. Terceiro, mantêm uma relação viva com a academia, porque continuam quase sempre a depender do acesso a talento, laboratório, investigação e redes científicas para crescerem”, explica. “Nesse sentido, são um dos mecanismos mais completos de transformação de ciência em valor económico.”
Para o responsável do Técnico, estas empresas “não devem ser vistas apenas como empresas novas”. Devem ser encaradas como instrumentos de demonstração, porque mostram ao mercado que o conhecimento científico pode gerar produto, tecnologia, propriedade industrial e capacidade exportadora. Isso é particularmente relevante num país “onde a credibilidade da ciência junto do tecido empresarial ainda precisa de ser reforçada”.
O que falta para desbloquear o sistema
Para Jorge Portugal, reforçar a colaboração “não passa por criar mais instrumentos isolados, mas por corrigir a falha sistémica que existe na articulação entre ciência e economia”. Isso implica, antes de mais, “reforçar a capacidade de absorção das empresas, ou seja, garantir que têm pessoas, competências e organização para integrar conhecimento”. Sem isso, sustenta, “qualquer esforço do lado científico terá impacto limitado”.
Implica também “aproximar mais a produção científica das necessidades económicas, não no sentido de a subordinar, mas de criar pontos de contacto mais frequentes e mais estruturados”. Um ponto crítico continua a ser “a fase intermédia da cadeia, a prova de conceito, a validação, a redução de risco”. “É aí que muitos projetos se perdem, e onde o sistema continua mais frágil.” Por fim, acrescenta, “é essencial garantir continuidade, escala e previsibilidade das políticas. A inovação não se faz em ciclos curtos. Requer trajetórias longas, estabilidade e confiança”.
João Claro aponta para a necessidade de “melhores capacidades de interface entre ciência e aplicação, financiamento adequado para fases intermédias, menos fricção administrativa e mais capacidade de absorção por parte das empresas”. Defende também um caminho entre investigação e mercado “mais previsível e mais apoiado”, com melhor gestão de propriedade intelectual, provas de conceito, prototipagem e apoio crescente à criação de spin-offs e projetos de alto TRL. “E há um fator transversal que importa sublinhar, a qualidade da governação, porque investir melhor e coordenar melhor faz muita diferença.”
Pedro Amaral fala em três pilares. O primeiro é talento. “Precisamos de pessoas altamente competentes, multidisciplinares e capazes não só de fazer ciência excelente, mas também de transferir tecnologia.” O segundo é alinhamento de incentivos. “A universidade deve ser valorizada não apenas pela produção científica, mas também pela inovação com impacto económico, e as empresas devem ter condições para procurar ciência nacional de forma mais sistemática.” O terceiro é visibilidade e ambição. “Portugal precisa de afirmar mais claramente que ciência, tecnologia e inovação não são temas periféricos, são temas centrais para a competitividade do país.”
Há, porém, um fator que considera decisivo. “Previsibilidade. Sem financiamento estável, sem continuidade nas políticas científicas e sem estruturas profissionais de transferência de tecnologia, o sistema nunca ganhará massa crítica suficiente.” Pedro Amaral lembra que Portugal tem base para fazer mais. Em 2023, 28,9% dos estudantes do ensino superior estavam em áreas STEM, em 2025 o país registou 368 pedidos de patente europeia, um novo máximo, e a Grande Lisboa já surge classificada como “Strong Innovator”, acima da média da União Europeia. “Portanto, o problema não é ausência de capacidade. É a necessidade de transformar essa capacidade em continuidade, escala e difusão territorial.”
O círculo virtuoso ainda está por consolidar
Se houver “previsibilidade na ciência, equipas de transferência de tecnologia mais profissionais e uma relação mais aberta entre universidades, empresas, investidores e desafios reais de mercado, o ecossistema ganha capacidade para se autoalimentar”, descreve Pedro Amaral. O resultado seria mais resultados científicos, mais licenciamentos, mais spin-offs, mais inovação industrial e nova ciência gerada a partir desse movimento. “Tudo isto acontece enquanto a nova geração de estudantes aprende através de exemplos de excelência. É esse círculo virtuoso que Portugal ainda precisa de consolidar.”
Num horizonte de cinco anos, a aposta na comunidade científica associada às universidades, com “previsibilidade financeira de investigação científica de ponta”, e, sobretudo, na “profissionalização da transferência de tecnologia”, pode ser uma das ferramentas mais importantes para acelerar esse crescimento, defende o vice-presidente do Técnico.
No essencial, conclui Jorge Portugal, o desafio do país já não está em produzir mais conhecimento. “É conseguir organizá-lo, articulá-lo e transformá-lo em valor económico. E é nesse espaço, ainda insuficientemente desenvolvido, que se joga o futuro da inovação em Portugal.”
Candidaturas abertas ao Prémio Nacional de Inovação
Estão abertas as candidaturas ao Prémio Nacional de Inovação para organizações com projetos de inovação com resultados, potencial de escala e impacto em Portugal. As inscrições podem ser submetidas no site oficial da iniciativa.