Via Verde acelera da portagem à mobilidade integrada
Ao celebrar 35 anos, a empresa quer consolidar-se como plataforma de serviços, alargando a presença no estacionamento, no carregamento elétrico, nos táxis, na micromobilidade e nos transportes públicos.
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Ana Almeida Simões defende que inovar não é abrir muitas frentes em simultâneo, mas saber escolher onde aplicar recursos escassos e garantir execução com resultados.
Duarte Roriz
Ana Almeida Simões defende que inovar não é abrir muitas frentes em simultâneo, mas saber escolher onde aplicar recursos escassos e garantir execução com resultados.
A Via Verde faz 35 anos a 24 de abril de 2026, mas a longevidade da marca não é o principal indicador da sua relevância. O ponto decisivo está na capacidade de ter evoluído de uma função muito específica, o pagamento eletrónico de portagens, para um espaço mais amplo na cadeia de valor da mobilidade. O que nasceu para responder a um problema operacional nas autoestradas, as filas nas praças de portagem, procura hoje ganhar espaço em vários momentos da deslocação diária, da estrada ao estacionamento, do carregamento do veículo elétrico ao pedido de táxi, e no futuro também à utilização de mais modos de transporte urbano.
O percurso mostra como uma marca pode prolongar relevância para lá da inovação que lhe deu origem. No caso da Via Verde, essa primeira inovação foi suficientemente forte para entrar no vocabulário corrente e tornar-se quase sinónimo de passagem rápida e sem fricção. Três décadas e meia depois, a empresa entende que esse capital só continuará a gerar valor se for convertido numa nova proposta de conveniência, ajustada a uma mobilidade mais urbana, mais fragmentada, mais digital e mais exigente do ponto de vista da experiência de utilização.
Ana Almeida Simões resume essa continuidade, nesta talk do Prémio Nacional de Inovação dedicada à mobilidade, numa ideia central. Simplificar a mobilidade dos portugueses. “Essa continua a ser a nossa função central”, afirma. O contexto, porém, mudou. “A Via Verde nasceu de uma necessidade muito específica”, recorda. Quando as portagens manuais deixaram de responder ao aumento do tráfego, foi lançado à Brisa o desafio de encontrar uma solução capaz de reduzir os tempos de espera, aumentar a eficiência e melhorar a circulação. A resposta acabaria por alterar a relação dos portugueses com a autoestrada e por marcar de forma duradoura a perceção da marca, associando-a à inovação.
A memória pessoal da gestora ajuda a ilustrar essa dimensão. Cresceu na Covilhã e recorda as viagens em família para Lisboa e para o Algarve, numa fase em que a rede de autoestradas em Portugal estava ainda longe da cobertura atual. A primeira utilização da Via Verde ficou associada à sensação de evitar filas e ganhar tempo, numa altura em que esse benefício era especialmente tangível para quem fazia deslocações longas. Essa promessa de conveniência tornou-se o elemento fundador da marca e continua, segundo Ana Almeida Simões, a ser o critério que orienta a avaliação do que a empresa deve ou não deve fazer.
Escala, expansão e mobilidade urbana
Se o ponto de partida foi a portagem, o primeiro grande ciclo de expansão surgiu com a escala. Em 2000, a Via Verde atingiu um milhão de clientes, um marco relevante para uma solução que, na década de 1990, ainda precisava de conquistar hábitos, infraestruturas e confiança do lado do utilizador. Mais tarde, a empresa começou a demonstrar que podia aplicar esse princípio de conveniência a outros serviços.
Um dos passos mais relevantes foi dado em 2016, com o Via Verde Estacionar, solução que levou a lógica do pagamento automático ao estacionamento e que, segundo a administradora, continua a ser um dos serviços com melhor retorno junto dos clientes. A eliminação de moedas, talões e operações manuais transportou para o espaço urbano a mesma promessa de conveniência e rapidez que tinha marcado as autoestradas. Esse momento foi um ponto de viragem. A empresa começou a construir uma segunda identidade, menos dependente da infraestrutura rodoviária e mais associada a de um operador de serviços de mobilidade. Em 2021 entrou na mobilidade elétrica com o Via Verde Electric, com o objetivo de simplificar o acesso e o pagamento dos carregamentos de carros elétricos. Em 2024 lançou o Plano Via Verde Cidade e uma nova aplicação mais integradora, desenhada para concentrar diferentes serviços num único ponto de contacto.
Entre as novidades mais recentes está o Parking Buddy, uma funcionalidade de base preditiva que analisa dados históricos da Via Verde e que estima a probabilidade de encontrar estacionamento na rua antes de chegar ao destino. A lógica passa por reduzir o tempo perdido à procura de lugar, melhorar a experiência do condutor e mitigar parte do tráfego urbano associado a essa procura. Mais recentemente, a Via Verde integrou também na aplicação o serviço Táxis, reforçando a intenção de estar presente em mais momentos da deslocação diária.
Esta evolução traduz uma tentativa de responder a uma transformação estrutural da mobilidade. Há 35 anos, o desafio principal estava concentrado na fluidez da circulação rodoviária. Hoje, a jornada do utilizador é mais complexa, com múltiplos modos de transporte, mais pontos de contacto, maior peso do contexto urbano, novas exigências ambientais e uma procura acrescida de simplicidade. A mobilidade tornou-se mais tecnológica, mas também mais fragmentada. É nessa fragmentação que a Via Verde identifica uma oportunidade para se reposicionar como intermediário relevante.
Integração como objetivo estratégico
Ana Almeida Simões enquadra esta ambição no conceito de mobilidade integrada. Na prática, trata-se de acompanhar a deslocação de um utilizador desde o momento em que sai de casa até ao regresso, independentemente do número de meios de transporte utilizados no percurso. O trajeto pode incluir automóvel, estacionamento, transporte público, táxi, scooter, trotinete ou bicicleta. Para a Via Verde, o objetivo é estar presente nessa sequência e reduzir o atrito entre etapas, oferecendo uma experiência mais contínua e menos dependente de múltiplas aplicações, pagamentos e sistemas desconectados. A ambição é exigente, porque pressupõe capacidade de integração tecnológica, negociação com parceiros, desenho de produto e relevância suficiente para que o utilizador reconheça a vantagem em centralizar essa experiência numa única plataforma.
Muitas vezes as pessoas acham que a inovação é um grupo de génios sentados numa sala a terem ideias mirabolantes. Está muito longe disso.Ana Almeida Simões, Administradora da Via Verde
É nesse ponto que a empresa procura afastar-se da ideia de que a inovação vive apenas do anúncio de novos serviços. Na leitura da administradora da Via Verde, só produz impacto quando está ligada a problemas concretos e a processos consistentes de execução. “Muitas vezes as pessoas acham que a inovação é um grupo de génios sentados numa sala a terem ideias mirabolantes. Está muito longe disso”, afirma. A responsável defende uma visão mais operacional da inovação, menos associada ao discurso e mais ligada à execução. “No Grupo Brisa existe uma direção central que coordena a inovação entre várias unidades de negócio. Na Via Verde, esse esforço traduz-se numa equipa dedicada à inovação de produto, focada na identificação de desafios, no desenho de soluções e na articulação com outras áreas internas, startups e academia.”
Inovação sempre com processo e disciplina
Este ponto ajuda a perceber como a empresa tenta institucionalizar a inovação num negócio já maduro e amplamente conhecido do público. Em vez de depender de iniciativas avulsas, a Via Verde procura criar processo. Segundo Ana Almeida Simões, cada piloto avança com indicadores definidos à partida, o que permite decidir de forma objetiva se a solução tem condições para ganhar escala, se deve ser interrompida ou se merece ficar em pausa até que a tecnologia, o mercado ou o momento estratégico sejam mais favoráveis.
A lógica não é proteger projetos a qualquer custo, mas gerir recursos com rigor. Fechar um piloto não é visto como um falhanço, mas como um sinal de disciplina na alocação de capital, tempo e atenção.
Esta posição ganha relevância num contexto em que grandes empresas falam de inovação aberta, mas nem sempre criam condições claras para trabalhar com startups. Ana Almeida Simões insiste na importância de respeitar o tempo e os recursos destas empresas. “A Via Verde procura definir previamente o que considera sucesso e evitar zonas cinzentas em que um projeto fica indefinidamente à espera de decisão.”
A abordagem, além de mais eficiente para a empresa, responde a uma exigência crescente no ecossistema de inovação. A relação entre corporates e startups precisa de ser menos decorativa e mais consequente. “No limite, a maturidade de um processo mede-se também pela capacidade de dizer não, ou ainda não, com critérios claros”, afirma Ana Almeida Simões.
Essa cultura de priorização é uma das aprendizagens que a administradora destaca para outras organizações. Num ambiente em que os desafios se multiplicam, o risco de dispersão aumenta. A tentação de perseguir dezenas de ideias em simultâneo pode parecer sinal de dinamismo, mas traduz-se muitas vezes em perda de foco e incapacidade de execução. A visão defendida pela Via Verde é a inversa. “Mais importante do que abrir muitas frentes é escolher bem onde investir recursos limitados e construir resultados a partir daí.”
Sustentabilidade, cidades e a mudança geracional
A mesma lógica aplica-se à transformação da mobilidade em meio urbano, que surge hoje como um dos principais eixos estratégicos da marca. A Via Verde quer deixar de ser vista como um serviço exclusivamente associado ao automóvel em contexto rodoviário e afirmar-se como um facilitador do movimento nas cidades. O estacionamento continua a ser um dos pilares dessa presença, tanto na via pública como em parques, mas a empresa acrescenta-lhe agora componentes mais inteligentes, como a previsão de disponibilidade de lugares de estacionamento na rua. Junta-lhes também serviços de micromobilidade, reservas de táxis e uma aposta ainda incipiente, mas assumida, na integração com transportes públicos.
Ana Almeida Simões reconhece que esta última componente continua pouco desenvolvida, mas identifica-a como uma área prioritária para o futuro, dada a centralidade dos transportes públicos na mobilidade urbana.
Ao mesmo tempo, a Via Verde quer preparar-se para uma mudança geracional na forma como a mobilidade é consumida. Ana Almeida Simões admite que “a empresa precisa de chegar melhor a públicos mais jovens, mais urbanos e potencialmente menos ligados à posse de automóvel”. Numa parte crescente deste segmento, aprender a conduzir ou comprar carro deixou de ser uma prioridade evidente. A mobilidade passa a ser combinada entre vários serviços, muitas vezes contratados de forma flexível, em função do contexto e da necessidade. Para uma marca que construiu relevância em torno do carro particular e das infraestruturas rodoviárias, esta mudança é estratégica. Obriga a repensar produto, linguagem, parceiros e posicionamento. Obriga a garantir que a Via Verde continua a ser útil mesmo quando o utilizador já não se relaciona com a mobilidade da mesma forma que os clientes tradicionais da marca.
Ao fim de 35 anos, a Via Verde enfrenta um teste relevante. O ativo histórico da marca mantém-se forte, mas a capacidade de continuar a crescer dependerá de provar que consegue ocupar um novo lugar na mobilidade portuguesa. Não apenas como símbolo de uma inovação passada, mas como plataforma credível para integrar serviços, simplificar experiências e captar valor numa mobilidade mais distribuída, mais digital e mais sustentável. A vantagem competitiva continuará a depender da mesma pergunta que esteve na origem do projeto, em 1991. Que problema concreto está a ser resolvido? A resposta deixou de caber numa praça de portagem.
Candidaturas abertas ao Prémio Nacional de Inovação
Estão abertas as candidaturas ao Prémio Nacional de Inovação para organizações com projetos de inovação com resultados, potencial de escala e impacto em Portugal. As inscrições podem ser submetidas no site oficial da iniciativa.