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Inovação trava na passagem do laboratório ao mercado

Portugal reforçou a sua base científica e o ecossistema empreendedor, mas continua a falhar na conversão desse conhecimento em empresas escaláveis. A diferença entre os projetos que chegam ao mercado e os que ficam pelo caminho joga-se na ligação ao mercado, na capacidade de execução e no acesso a financiamento para crescer.

14:00
Inovação enfrenta desafios na transição do laboratório ao mercado em Portugal
Inovação enfrenta desafios na transição do laboratório ao mercado em Portugal DR
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Jorge Pimenta e Jorge Portugal convergem num ponto central. Portugal tem hoje mais conhecimento, mais investigação e um ecossistema mais robusto, mas continua a precisar de melhores pontes entre ciência, empresas e mercado.

Transformar ciência em negócio continua a ser um dos principais desafios estruturais da economia portuguesa. Apesar de uma base científica robusta, reconhecida internacionalmente, e de um ecossistema de investigação cada vez mais consolidado, o país mantém dificuldades persistentes na conversão desse conhecimento em valor económico. Entre o laboratório e o mercado, subsiste um espaço crítico onde muitos projetos se perdem. E é aí que se decide, em larga medida, o impacto real da inovação.

O paradoxo é conhecido. Portugal produz ciência de qualidade, mas tem dificuldade em transformá-la em empresas competitivas e escaláveis. Jorge Pimenta, diretor de Inovação do Instituto Pedro Nunes (IPN), sublinha que o país apresenta hoje “um sistema científico consolidado com indicadores positivos ao nível da produção de conhecimento” e um ecossistema empreendedor mais dinâmico. Ainda assim, quando se analisa a tradução desse conhecimento em impacto económico, Portugal continua classificado como “Moderate Innovator” no contexto europeu, situando-se em torno de 90% da média da União Europeia.

Este posicionamento reflete um problema de fundo. O investimento em investigação e desenvolvimento, apesar de ter vindo a crescer, permanece estruturalmente baixo, ainda abaixo dos 2% do PIB, e distante de economias mais intensivas em conhecimento. Para Jorge Pimenta, este indicador “evidencia que o país deve olhar para este tema com mais ambição”, reforçando não apenas o investimento público, mas sobretudo o papel das empresas e das estruturas de interface.

A questão não se esgota no volume de investimento. O verdadeiro desafio está na forma como o conhecimento é transferido, absorvido e valorizado. Jorge Portugal, diretor-geral da COTEC Portugal, admite que o que distingue hoje em Portugal os projetos de base científica que conseguem chegar ao mercado dos que ficam pelo caminho não é a ciência. “É a capacidade de a transformar em valor económico”, disse ao Negócios.

“Portugal tem uma base científica robusta, mas continua a ter dificuldade em converter ‘inputs’ em ‘outputs’ de inovação. Os projetos que chegam ao mercado são aqueles que conseguem três coisas, alinhar desde cedo com necessidades empresariais, integrar-se em cadeias de valor e encontrar empresas com capacidade de absorção tecnológica. Os que ficam pelo caminho tipicamente falham nesse ponto. São bons do ponto de vista científico, mas estão desalinhados com o mercado e com a estrutura produtiva”. Sem estes elementos, alerta o executivo, os projetos tendem a permanecer num limbo entre a relevância científica e a irrelevância económica.

Essa dificuldade de alinhamento não é apenas conjuntural. É, em grande medida, estrutural. Do lado do sistema científico, persistem incentivos que privilegiam a publicação académica em detrimento da exploração comercial dos resultados de investigação.

Jorge Pimenta identifica este desalinhamento como uma das principais “fricções”, a par da falta de competências de mercado em muitas equipas científicas. “Muitas equipas não dispõem das competências necessárias para abordar o mercado ou as empresas, nomeadamente ao nível da validação de necessidades”, explica.

Não falhamos tanto a descobrir, falhamos a validar e sobretudo a crescer. Jorge Portugal, Diretor-Geral da COTEC Portugal

A este conjunto de limitações junta-se um problema recorrente de financiamento nas fases mais críticas do processo. Se a investigação fundamental encontra em muitos casos mecanismos de apoio, a transição para prova de conceito e validação de mercado continua a ser um território com lacunas evidentes. Jorge Portugal fala numa “lacuna crítica na prova de conceito e validação, com escassez de instrumentos e financiamento fragmentado”.

Ultrapassar o “vale da morte”

É neste ponto que emerge aquilo que muitos no ecossistema, ou na gíria da inovação, designam como o “vale da morte”, a fase intermédia em que a tecnologia já não é apenas investigação, mas ainda não é um produto validado. A questão é que sem instrumentos adequados e com elevada incerteza, muitos projetos acabam por não conseguir dar o salto para o mercado. Mas se a validação já é um obstáculo relevante, o verdadeiro bloqueio surge, em muitos casos, na passagem à escala. O acesso a capital de longo prazo permanece limitado e os casos de scale-up em tecnologias de base científica continuam escassos. “Não falhamos tanto a descobrir, falhamos a validar e sobretudo a crescer”, resume Jorge Portugal, apontando para uma fragilidade estrutural do sistema.

A ligação precoce ao mercado surge como um dos fatores mais decisivos. Quando essa ligação não acontece desde o início, os projetos tendem a evoluir afastados das necessidades reais, acumulando desenvolvimento tecnológico sem correspondência em procura efetiva. “Quando essa ligação não acontece cedo, o projeto evolui num vazio económico”, alerta o responsável da COTEC Portugal.

Por contraste, os casos de sucesso são aqueles que conseguem encurtar essa distância desde fases iniciais, seja através de colaboração efetiva com empresas, seja através de estruturas de interface que funcionem como mediadores ativos. Esta proximidade permite não apenas validar soluções, mas também ajustar propostas de valor e reduzir o risco associado ao desenvolvimento.

Espaços de inovação

É neste espaço de mediação que entidades como o Instituto Pedro Nunes assumem um papel central. Funcionando como ponte entre universidades, centros de investigação e empresas, o IPN, nas palavras de Jorge Pimenta, procura transformar conhecimento em soluções aplicadas e economicamente relevantes. Essa intermediação concretiza-se através de laboratórios e ambientes de experimentação em contexto real, permitindo testar tecnologias e reduzir incerteza, mas também através de programas de incubação e aceleração que apoiam a construção de modelos de negócio e estratégias de mercado. A este papel de mediação soma-se ainda a dimensão internacional, explica o diretor de inovação. O IPN integra redes como a European Business and Innovation Centre Network (EBN), a European Association of Research and Technology Organisations (EARTO) ou o European Institute of Innovation and Technology (EIT), acompanhando os principais desafios tecnológicos, dando visibilidade às startups incubadas e apoiando a sua internacionalização através de parceiros de referência.

Entre estes programas destaca-se o INEO START, focado em projetos ‘early-stage’ de base científica e tecnológica, que procura acelerar a transição do conhecimento académico para soluções competitivas, combinando capacitação, mentoria e ligação a investidores e parceiros do ecossistema. Ao longo das suas edições, já apoiou mais de 150 equipas, contribuindo para a criação de dezenas de startups.

Capacidade de absorção tecnológica é um dos constrangimentos

No entanto, mesmo com o reforço destes instrumentos, persistem limitações do lado empresarial. Apesar de uma maior abertura à colaboração, a capacidade de absorção tecnológica continua a ser um dos principais constrangimentos. Como refere Jorge Portugal, “o sistema revela uma capacidade limitada de absorção tecnológica por parte das empresas e uma colaboração ainda muito episódica”. O talento científico existe, diz, mas continua pouco integrado nas organizações, dificultando a incorporação efetiva de conhecimento.

Assim, o sucesso de projetos de base científica não depende de um único fator isolado, mas da capacidade de articular vários elementos ao longo da cadeia de valor. Tecnologia, financiamento, equipa e modelo de negócio são todos relevantes, mas o impacto surge apenas quando estes fatores são combinados de forma coerente e contínua.

Ainda assim, há dimensões que assumem um peso particular. Jorge Portugal destaca três fatores críticos. A capacidade de absorção das empresas, o financiamento orientado para a escala e a articulação entre ciência e mercado. Sem estes elementos, mesmo tecnologias maduras dificilmente se traduzem em inovação com impacto económico.

O que distingue os empreendedores é a sua sagacidade em identificar problemas significativos, validar com utilizadores e mudar. Jorge Pimenta , Diretor de Inovação do Instituto Pedro Nunes

Já Jorge Pimenta enfatiza o papel central da equipa e da ligação ao mercado. A tecnologia é essencial, mas não garante, por si só, sucesso comercial. O que diferencia os projetos que avançam é a capacidade de execução, a validação junto de utilizadores e a agilidade para adaptar soluções. “O que distingue os empreendedores é a sua sagacidade em identificar problemas significativos, validar com utilizadores e mudar”, afirma, sublinhando a importância de abordagens iterativas desde o arranque.

A experiência acumulada em programas de aceleração reforça esta leitura. Mais do que a sofisticação tecnológica, o que diferencia os projetos bem-sucedidos é a capacidade de aprendizagem, a abertura à entreajuda e a disponibilidade para ajustar expectativas. O percurso tende a ser mais exigente do que o inicialmente previsto, o que torna crítica a existência de redes de apoio e de um enquadramento que promova a experimentação e o erro.

No fundo, o que distingue os projetos de base científica que conseguem chegar ao mercado não é apenas o conhecimento que lhes está na origem, mas a capacidade de o enquadrar num sistema que o valorize. Entre ciência e negócio, continua a existir um espaço de tradução exigente, marcado por descontinuidades e fragilidades estruturais. É nesse espaço, até mais do que no laboratório, que se decide o verdadeiro destino da inovação.

Candidaturas abertas ao Prémio Nacional de Inovação

Estão abertas as candidaturas ao Prémio Nacional de Inovação para organizações com projetos de inovação com resultados, potencial de escala e impacto em Portugal. As inscrições podem ser submetidas no da iniciativa.

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