A construção é muitas vezes vista como um setor conservador. Para Rui Coutinho, Chief Innovation Officer e membro executivo do Conselho de Administração da MEXT, essa perceção esconde, na realidade, um forte pragmatismo. O setor avança quando encontra alternativas viáveis ao status quo, sobretudo quando o business case fecha e a inovação se revela exequível à escala. Esse entendimento ganhou expressão na talk integrada no Prémio Nacional de Inovação dedicada ao tema “A transformação do setor da construção”, acolhida pela MEXT, o braço de inovação da Mota-Engil, nas futuras instalações do M-ODU, Matadouro Outro Destino Urbano. O edifício, que resulta da reconversão do antigo Matadouro de Campanhã num ecossistema urbano que combina espaços de trabalho, cultura e lazer, será a nova sede da Mota-Engil no Porto. A sessão contou ainda com a participação de Gonçalo Fernandes, fundador e CEO da Volis, e de Augusto Franco, cofundador e CTO da Sigma Easy Charge.
Rui Coutinho define esta unidade “especializada” como “um radar de captação de sinais relevantes”, com a missão de transformar esses sinais em ação concreta, seja através de inovação aberta e colaborativa, seja via investimento em startups como a Volis e a Sigma Easy Charge, seja ainda pela criação de corporate startups dentro do grupo. Com 55 mil colaboradores distribuídos pela Europa, África e América Latina, a Mota-Engil quis orquestrar melhor o conhecimento gerado internamente, mas também assumir que uma parte decisiva da transformação do setor está a acontecer fora do grupo, em centros de investigação, universidades, startups e concorrentes.
Ao longo da sessão, Rui Coutinho insistiu que, mais do que conservadorismo, o setor revela um forte pragmatismo. Segundo o gestor, a estratégia de inovação da Mota-Engil organiza-se em três prioridades, planeta, pessoas e tecnologia. Na frente ambiental, o grupo procura alternativas a materiais intensivos em emissões, como o betão, mas esbarra ainda em casos de negócio difíceis, o que obriga a testar aplicações e modelos de viabilidade antes de uma adoção em massa. “O setor tem um contributo muito relevante nas emissões de CO2 e tem de endereçar isso”, sublinhou o administrador, defendendo uma abordagem de cadeia de valor completa, em que a engenharia “está ao serviço da humanidade”.
Segurança é uma obsessão
Na dimensão das pessoas, Rui Coutinho foi taxativo ao afirmar que a segurança e o bem-estar dos 55 mil trabalhadores do grupo são “mais do que um objetivo, uma obsessão”. Operando muitas vezes em contextos adversos, longe dos centros urbanos, a Mota-Engil quer que a inovação aumente a qualidade de vida em estaleiros e obras, reduzindo acidentes de trabalho e melhorando as condições nas chamadas bases de vida. Ao mesmo tempo, lembra que tudo o que a empresa constrói, edifícios, estradas, ferrovias, barragens, túneis subaquáticos ou diques, impacta diretamente a vida das pessoas, o que exige um pensamento mais centrado no utilizador final. Na terceira variável, a tecnologia surge como alavanca transversal. Ajuda a decidir melhor, a reduzir CO2 pela otimização de cadeias de abastecimento e a tornar edifícios e infraestruturas cada vez mais inteligentes, conectados e capazes de recolher e usar dados para melhorar a qualidade de vida e a eficiência.
Foi neste enquadramento que entrou a voz das startups investidas pela MEXT. Gonçalo Fernandes, fundador e CEO da Volis, sintetizou a razão de existir da empresa. “A Volis existe para trazer a tecnologia da inteligência artificial para as operações das empresas.” Trabalhando com organizações de vários setores, incluindo construção e setor público, a Volis combina domínio de tecnologia, data science, data engineering e data & AI com capacidade de operar dentro de organizações complexas, entendendo processos, cultura e realidade operacional. “Da fusão destas duas realidades” nascem soluções que integram inteligência artificial nas operações do dia a dia, explicou o empreendedor, sublinhando que não basta ter modelos sofisticados se não estiverem ancorados no funcionamento real dos negócios.
No caso concreto da ligação à Mota-Engil, Gonçalo Fernandes recusa olhar para a construtora como um bloco monolítico e prefere descrevê-la como uma interseção de operações transversais, desde a produção e o planeamento à cadeia de abastecimento, à gestão de mão de obra, à gestão de infraestruturas e equipamentos e ao contract mining, entre outras. A partir daí, a Volis procura elevar o “patamar de excelência operacional” em áreas como a produção física, ligando três realidades, o que acontece no terreno, a dimensão económica e a variável tempo. “É estarmos a fazer o que devíamos, ao custo certo, no momento certo”, resumiu o fundador, lembrando que o uso de IoT para recolha de dados em tempo real, simulação de cenários e replaneamento abre espaço a novos níveis de eficiência. O impacto faz-se sentir em custos, impacto ambiental e social, mas também na criação de um lastro histórico de dados que permite aprender continuamente com decisões passadas e planear o futuro.
A certa altura, a conversa deslocou-se para a digitalização como pré-condição para extrair valor da inteligência artificial. Gonçalo Fernandes admitiu que uma das dificuldades recorrentes é quando a realidade física não está digitalizada, algo frequente na construção, em operações remotas ou complexas. A digitalização torna-se, assim, a interface crítica entre o mundo físico e o mundo digital onde a Volis opera, obrigando a repensar processos, a decidir “o que é que convém ser digitalizado” e a garantir que se capturam os dados relevantes, no momento certo e de forma adequada. O CEO destacou ainda um efeito colateral dos novos modelos de IA. Ao permitir interações do tipo “Talk to your data”, a tecnologia expõe os “buracos” de informação, criando incentivos internos à criação de sistemas e rotinas que preencham essas lacunas. “É a velha expressão do garbage in, garbage out”, disse, reforçando que a qualidade dos modelos depende da qualidade dos dados.
A inteligência artificial não pode ser agnóstica
Do lado da Mota-Engil, Rui Coutinho assinou em concordância e chamou a atenção para dois movimentos paralelos. A organização terá de fazer uma transformação cultural na forma como pensa estaleiros, obras e decisões diárias, ao mesmo tempo que a própria inteligência artificial terá de aprender com a forma como um encarregado de obra decide. “A inteligência artificial não pode ser agnóstica”, defendeu o gestor, insistindo que os sistemas têm de compreender o tipo de problemas concretos com que as equipas se deparam e o tempo útil em que precisam de resposta. O objetivo é combinar três elementos, o know-how acumulado, a intuição, ainda muito presente em obra, e os dados em tempo real. Esse “músculo de tomada de decisão” não pretende substituir pessoas, mas reforçar a sua capacidade de enfrentar contextos complexos, trazendo “ordem ao caos”, como sintetizou o responsável da MEXT.
Também na vertente tecnológica, a ligação entre Mota-Engil e Volis estende-se a novos projetos de infraestrutura. No primeiro troço de TGV em Portugal, num consórcio liderado pela Mota-Engil, o grupo não só vai construir, como vai explorar a linha durante mais de três décadas, o que abre espaço para pensar, desde logo, numa infraestrutura inteligente. Está previsto um digital twin do TGV, que permitirá digitalizar tudo o que for possível, facilitando manutenção, gestão ativa de ativos e suporte à tomada de decisão das Infraestruturas de Portugal em áreas como tráfego, utilização do serviço e dimensionamento do nível de oferta. Ainda assim, Rui Coutinho alerta para uma limitação de fundo. A maioria das infraestruturas de que se fala é pública e exige que Estados e governos façam, eles próprios, uma transição cultural para abraçar o potencial da interconexão de redes, dados e tecnologia.
Se a Volis representa o braço de dados e IA, a Sigma Easy Charge corporiza a aposta em mobilidade elétrica e energia. Augusto Franco, cofundador e CTO da Sigma, apresentou a empresa como uma jovem tecnológica, com cerca de um ano e meio, que encontrou na MEXT um “casamento quase perfeito”. A premissa é mudar a mobilidade elétrica através de sistemas de carregamento sem fios para veículos elétricos, uma tecnologia cuja discussão começou há alguns anos, mas que só agora encontra condições tecnológicas para avançar à escala. A Sigma trabalha em parceria com a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e vê na infraestrutura, estradas, faixas dedicadas e sistemas de transporte, uma futura rede de redistribuição de energia.
O CTO explicou que o objetivo é ter, num horizonte de um ano a um ano e meio, um sistema sem fios para o mercado doméstico, na ordem dos 11 kW, “a metade do preço” das alternativas atuais e com 20% a 30% mais eficiência, com tecnologia desenvolvida em Portugal. A empresa distingue três grandes segmentos, o carregamento estático, como o caso do Porsche Cayenne com kit wireless, o semidinâmico, como faixas de táxis ou de autocarros em trajetos pré-definidos, e o dinâmico, que permitirá carregar em andamento e criar aquilo a que chamou “autoestradas elétricas”. Em França, recordou, já existem testes de alguns quilómetros, mas ainda com um capex muito elevado. A ambição da Sigma, em conjunto com a engenharia portuguesa e com parceiros como a Mota-Engil, e eventualmente empresas de IA como a Volis, é reduzir drasticamente esse custo e estar a implementar as primeiras autoestradas elétricas em Portugal dentro de dois a três anos.
Augusto Franco ligou a discussão tecnológica ao tema da regulação e do investimento. Na sua leitura, o primeiro passo é provar, à escala industrial, que tecnologias como o carregamento sem fios funcionam, o que coloca um papel determinante do lado de investidores e programas de apoio a startups. A partir do momento em que existam demonstradores robustos, antevê que reguladores e decisores públicos estarão mais “elucidados” e informados, alimentando uma “bola de neve” que torna o processo de transição energética irreversível. O engenheiro referiu contactos já estabelecidos com fabricantes de veículos elétricos e a possibilidade de juntar, à parceria com a Mota-Engil na infraestrutura, um OEM automóvel do lado da indústria, consolidando um ecossistema em torno do mesmo objetivo.
Candidaturas abertas ao Prémio Nacional de Inovação
Estão abertas as candidaturas ao Prémio Nacional de Inovação para organizações com projetos de inovação com resultados, potencial de escala e impacto em Portugal. As inscrições podem ser submetidas no site oficial da iniciativa.