A inovação na reciclagem de baterias está a ganhar peso no ecossistema global de energia e mobilidade elétrica, num quadro em que o crescimento acelerado da utilização destes sistemas começa também a expor os limites do modelo linear de produção e consumo. A conclusão surge do estudo conjunto da Organização Europeia de Patentes (OEP) e da Agência Internacional da Energia (AIE), que identifica uma forte aceleração da atividade de patenteamento ligada à circularidade das baterias, abrangendo áreas como a recolha, separação, reutilização e recuperação de materiais críticos.
Em declarações ao Negócios, Sandro Mendonça, economista e conselheiro do presidente do Instituto Europeu de Patentes, considera que “a inovação na área da acumulação de energia tem acelerado de forma muito significativa em múltiplas frentes”, acompanhando a expansão da utilização de baterias “desde o suporte à rede elétrica até à proliferação de dispositivos móveis, drones e veículos elétricos”.
Segundo o responsável, foi precisamente “o sucesso das baterias ao longo dos últimos trinta anos, e a sua forte aceleração na última década, que veio expor também os limites do setor”. O aumento do volume de equipamentos em fim de vida útil, aliado à pressão sobre matérias-primas críticas, colocou no centro da discussão temas como reutilização, reciclabilidade e gestão de resíduos.
Sandro Mendonça sublinha ainda que os choques recentes nas cadeias globais de abastecimento contribuíram para reforçar esta preocupação. “A pandemia de covid-19 ou as perturbações geopolíticas evidenciaram a dependência destas soluções e a vulnerabilidade das respetivas cadeias de valor”, afirma.
Economia circular já não é um espaço periférico
Neste sentido, a economia circular deixou de ocupar um espaço periférico nas estratégias de inovação. “A agenda da inovação estende-se a todo o ciclo de vida das baterias, desde a exploração de alternativas ao lítio até à gestão eficiente e criativa do potencial de ‘segunda vida’ destes sistemas”, refere.
O estudo da OEP e da AIE mostra que a inovação associada à circularidade está a crescer em várias etapas da estrutura produtiva ligada às baterias.
Para Sandro Mendonça, estes dados mostram que “o conceito de circularidade está a ser incorporado desde a fase de conceção das iniciativas de inovação”, algo que o estudo considera agora demonstrado de forma clara. O responsável considera que está em curso “uma transformação de ponta a ponta nesta tecnologia”, abrangendo desde os processos industriais até à recuperação de materiais e reutilização de componentes. Na prática, o desenvolvimento tecnológico já não está centrado apenas na performance, autonomia ou densidade energética das baterias, mas também na capacidade de prolongar a utilização dos materiais e reintegrá-los no sistema produtivo.
Esta mudança coincide com um período de forte expansão da eletrificação da economia, impulsionada pela transição energética, pela digitalização e pelo crescimento da mobilidade elétrica. O aumento da procura global por baterias levou também ao crescimento da pressão sobre minerais considerados críticos, como o lítio, o níquel, o cobalto ou o manganês, elementos essenciais para várias das químicas mais utilizadas atualmente.
O estudo identifica precisamente um alargamento da atividade de inovação a áreas que até há poucos anos recebiam menor atenção tecnológica, como os sistemas de recolha, desmontagem, triagem, pré-processamento e recuperação química de materiais.
Na área da refinação de minerais, por exemplo, a atividade inventiva multiplicou-se por quatro em dez anos. Já na recolha seletiva registou-se um aumento para o dobro, enquanto as tecnologias ligadas à separação de resíduos cresceram seis vezes ao longo da última década.
A leitura do Instituto Europeu de Patentes é a de que a indústria começa a responder não apenas às necessidades de produção de novas baterias, mas também à gestão do enorme volume de equipamentos que chegará ao fim de vida nos próximos anos.
Dependência externa é evidente
Ao mesmo tempo, a pressão sobre as cadeias de abastecimento internacionais tornou mais evidente a dependência externa de várias economias. Neste contexto, Sandro Mendonça considera que os desenvolvimentos tecnológicos atualmente em curso poderão ajudar a aliviar a pressão sobre os mercados de matérias-primas críticas, embora sublinhe que o impacto será gradual.
“Os nossos indicadores antecipam, em larga medida, as transformações concretas na indústria”, afirma. Ainda assim, alerta que “a construção de capacidades tecnológicas é por natureza gradual, exigindo tempo até se traduzir em aplicações práticas e casos de uso”.
Para Sandro Mendonça, os avanços na reciclagem e reutilização poderão contribuir para “ajustar as expectativas dos diversos agentes” e reduzir alguma pressão sobre os mercados de recursos minerais críticos. Contudo, sublinha que “diminuir a dependência europeia de fornecedores externos será um processo necessariamente prolongado, que exigirá muito mais esforço e engenho”.
A corrida tecnológica nesta área continua, contudo, fortemente concentrada na Ásia. “Há três grandes potências: o Japão, a Coreia e a China”, afirma Sandro Mendonça, acrescentando que “é a China que tem vindo a assumir a liderança”. Segundo o economista, esta posição resulta, “em grande medida, do seu sistema nacional de inovação, que está, na prática, a conseguir aliar melhor inovação e responsabilidade ambiental”.
O estudo da OEP e da AIE mostra que as entidades asiáticas continuam a dominar o registo de patentes ligadas à reciclagem e circularidade das baterias, acompanhando a posição que já detêm na produção e transformação industrial associada ao setor. Apesar disso, a Europa mantém alguma especialização em segmentos específicos da estrutura industrial, particularmente no pré-processamento mecânico e na extração hidrometalúrgica. Ainda assim, apenas 20% das patentes analisadas no estudo têm origem em entidades europeias. “Um verdadeiro ecossistema europeu ainda está por consolidar”, admite Sandro Mendonça.
O responsável destaca, contudo, alguns sinais positivos, referindo que três entidades europeias figuram entre os requerentes de patentes mais ativos a nível global.
Entre os protagonistas europeus mencionados no estudo surgem empresas como a BASF e a Umicore, ambas em sexto lugar mundial em atividade de patenteamento nesta área, bem como o centro francês de investigação CEA, que ocupa a oitava posição.
Segundo Sandro Mendonça, “os pontos fortes europeus não estão concentrados numa única abordagem”, podendo antes servir “de base para novos desenvolvimentos”.
A possibilidade de surgirem novos protagonistas e novas especializações industriais é precisamente um dos aspetos destacados pelo economista. “Sempre que surge um segmento autónomo de especialização pode haver uma viragem na indústria”, afirma.
Na sua leitura, a emergência de um novo ecossistema ligado à reciclagem, reutilização e recuperação de materiais pode abrir espaço à afirmação de empresas especializadas em nichos tecnológicos específicos.
Ainda assim, Sandro Mendonça deixa claro que a componente industrial desta atividade continuará a ser marcada pela escala. “Trata-se de um setor intensivo em escala e em aprendizagem, onde os grandes operadores tendem a deter vantagens competitivas”, refere.
Apesar disso, considera que a consolidação deste ecossistema poderá criar oportunidades para PME e startups, sobretudo em áreas complementares e de serviços. “Quando analisamos novas tecnologias, é essencial reconhecer que podem sustentar múltiplos modelos de negócio”, afirma.
Serviços ganham relevância
Além da vertente industrial, o economista destaca precisamente “uma dimensão relevante ao nível dos serviços, onde diversos projetos podem revelar-se viáveis”. Entre as áreas identificadas surgem oportunidades ligadas à monitorização, manutenção, recolha, triagem, rastreamento de materiais, reutilização e integração de baterias em aplicações de segunda vida.
Segundo Sandro Mendonça, a própria regulação poderá desempenhar um papel importante na definição deste ecossistema. “A regulação desempenha frequentemente um papel estruturante na configuração dos ecossistemas de inovação”, afirma.
O responsável aponta o caso português como exemplo de um enquadramento regulatório que poderá favorecer a experimentação e o empreendedorismo. “Entidades reguladoras como a ERSAR e a ERSE são reconhecidas internacionalmente pela sua abertura à inovação e ao fomento do empreendedorismo”, refere.
A capacidade de transformar inovação tecnológica em aplicações industriais e comerciais dependerá, contudo, de vários fatores, desde investimento até políticas públicas e enquadramento regulatório.
Para Sandro Mendonça, um dos principais desafios está precisamente na política industrial. “Uma postura sólida dos poderes públicos tem a força necessária para eliminar falhas de ecossistema e para facilitar a transmissão das ideias para o domínio da aplicação”, afirma.
Segundo o economista, o desenvolvimento deste setor exigirá coordenação entre investigação, indústria, financiamento, regulação e políticas públicas, num processo que considera estrutural e de longo prazo.
Nesse sentido, acrescenta que a Organização Europeia de Patentes pretende assumir um papel ativo “mostrando direções de futuro e disponibilizando ferramentas para a transição”.
O estudo conjunto da OEP e da Agência Internacional da Energia surge como uma tentativa de mapear essa transformação tecnológica em curso, identificando tendências de inovação, áreas de crescimento e posicionamento geográfico dos diferentes protagonistas envolvidos.
A análise sugere que a reciclagem e reutilização poderão tornar-se uma componente cada vez mais estratégica da indústria das baterias, numa altura em que a pressão sobre recursos críticos, a segurança das cadeias de abastecimento e os objetivos de transição energética passaram a ocupar um lugar central nas políticas industriais globais.