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Da inovação à operação: como a Tekever adaptou tecnologia em tempo real

A experiência da Tekever mostra como a inovação tecnológica pode acelerar quando é confrontada com desafios reais. A guerra na Ucrânia obrigou a empresa portuguesa a adaptar rapidamente os seus sistemas e a transformar drones em plataformas de desenvolvimento contínuo.

16:00
Tekever adapta tecnologia em tempo real após desafio na Ucrânia
Tekever adapta tecnologia em tempo real após desafio na Ucrânia José Gageiro
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Rui Lobo explica que a guerra na Ucrânia obrigou a Tekever a acelerar a inovação e a adaptar os seus sistemas a um ambiente operacional marcado por falhas de comunicação, guerra eletrónica e ausência de GPS.

A inovação na Tekever não acontece apenas em laboratório ou em ciclos tradicionais de investigação e desenvolvimento. Em muitos casos, nasce da necessidade de responder rapidamente a desafios concretos no terreno. Foi esta experiência que Rui Lobo, diretor da Tekever para Portugal e Europa do Sul, partilhou no keynote da conferência de lançamento da quarta edição do Prémio Nacional de Inovação.

A empresa portuguesa, especializada em sistemas autónomos e inteligência artificial aplicados à defesa e à vigilância, teve de acelerar o seu processo de inovação após o início da guerra na Ucrânia. “Somos uma empresa verticalmente integrada. Desenvolvemos toda a solução, desde o software ao hardware e ao fabrico”, explicou. Essa capacidade de controlar todo o ciclo de desenvolvimento do produto revelou-se determinante quando surgiu um contexto operacional totalmente diferente daquele em que os sistemas tinham sido inicialmente concebidos.

Quando a guerra começou, em 2022, a Tekever decidiu colocar rapidamente os seus sistemas no terreno para apoiar as forças ucranianas. “Achámos que a experiência que tínhamos acumulado em missões de vigilância, nomeadamente em contexto marítimo, podia ser útil”, recordou Rui Lobo. Os primeiros sistemas chegaram à Ucrânia poucos meses depois do início da guerra, mas o feedback inicial não foi o esperado. “Para qualquer empresa que se preze, dizer a um engenheiro que o sistema dele afinal não é tão bom são facadas no coração.” A reação da equipa foi imediata. Perceber o que estava a falhar.

A realidade operacional revelou-se muito diferente de qualquer cenário anteriormente testado. “A situação no terreno não tinha nada a ver com aquilo que conhecíamos, nem mesmo com outros conflitos.” Entre os desafios estavam ambientes de guerra eletrónica intensa, falhas constantes de comunicação e ausência de GPS.

Perante esse cenário, a Tekever iniciou um processo de inovação acelerado e profundamente colaborativo com os utilizadores finais. “Trabalhámos diretamente com os operadores no terreno para perceber exatamente o que precisava de ser alterado.” Equipas da empresa deslocaram-se regularmente para trabalhar em conjunto com as forças ucranianas, inicialmente na Polónia, onde eram realizados testes e sessões de desenvolvimento. O processo obrigou a mudanças profundas na forma de trabalhar da empresa. E, se a adaptação de software é relativamente rápida, os desafios tornaram-se mais complexos quando envolveram alterações de hardware. “Começou a haver necessidade de desenvolver novas antenas, sistemas anti-jamming, novos sistemas de rádio e diferentes payloads.” Para responder a esta pressão, a empresa decidiu aplicar ao hardware a mesma lógica de desenvolvimento ágil normalmente utilizada no software. “Tivemos de aplicar os mesmos princípios de trabalho, ciclos curtos, revisões quinzenais e adaptação constante.”

145 alterações em pouco mais de um ano

A intensidade deste processo pode ser medida pelo número de alterações introduzidas nos sistemas da empresa. Nos primeiros 15 meses após o início do conflito, a Tekever realizou 145 modificações nos seus sistemas AR3 e AR5, envolvendo tanto software como hardware. “Isto, numa situação normal, mataria qualquer produto”, reconheceu Rui Lobo.

Deixámos de pensar neles [drones] como produtos. Passaram a ser plataformas que podem ser constantemente adaptadas. Rui Lobo, Diretor da Tekever para Portugal e Europa do Sul

A solução foi mudar completamente a forma de olhar para os sistemas. “Deixámos de pensar neles como produtos. Passaram a ser plataformas que podem ser constantemente adaptadas.” Explicou que hoje cada sistema pode ser configurado de acordo com necessidades específicas, funcionando como um “puzzle” tecnológico que integra diferentes componentes.

A inteligência artificial desempenha um papel fundamental na operação destes sistemas, admite Rui Lobo. Em ambientes onde o GPS pode ser bloqueado e as comunicações interrompidas, os drones precisam de tomar decisões de forma autónoma. “Temos sistemas de inteligência artificial embarcados que permitem ao UAV tomar decisões, alterar rotas ou regressar à base quando perde comunicações.” A IA é também essencial no tratamento da informação recolhida durante as missões. “Estamos a falar de operações que podem durar oito, 10 ou até 14 horas. É impossível um operador analisar tudo manualmente”, sustenta o especialista, explicando que os sistemas utilizam algoritmos para identificar automaticamente pontos de interesse e apoiar os operadores na análise das imagens recolhidas.

Para Rui Lobo, a experiência da Tekever ilustra também uma mudança mais profunda no próprio setor da defesa, em que está a emergir um novo modelo de operações militares, “cada vez mais assente em sistemas autónomos suportados por inteligência artificial”.

Neste contexto, a empresa acredita estar bem posicionada para assumir um papel relevante no setor. “Temos orgulho em poder contribuir para esta transformação e em mostrar que uma empresa com raízes portuguesas pode estar entre os líderes europeus nesta nova área.”

Rui Lobo reconhece que a inovação, neste contexto, deixou de ser apenas uma escolha estratégica. “Tivemos de inovar não por inovar, mas porque a necessidade era real.” E acrescentou. “Quando sabemos que a performance do sistema pode fazer a diferença para quem está no terreno, a pressão para inovar torna-se completamente diferente.”

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